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Full text of "Extractos das obras politicas e economicas do grande Edmund Burke"

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III 



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PREFACIO. 



Jjjdmund Burke , havendo na Gram Bretanha adquirido celebridade, pelos 
escritos que deo á luz sobre o Sublime , e a Defensão da Sociedade* Civil ; 
subindo depois á consideração politica por eloquentes Falias no Parlamen- 
to sobre assumptos da maior importância a seu Paiz , e com especialidade 
pela Proposta de Conciliação ( que infelizmente entáo náo foi attendida } 
para prevenir o infausto Scisma d'America do Norte ; elevou-se em fim a 
immorral fama por vários discursos contra a Revolução da França ' con- 
correndo muito a que o Governo Britânico entrasse , com as Potencias 
Confederadas , na guerra , que a Facção dos Gallos levantados provocou 
na Europa com a escandalosa disseminação dos seus Dogmas. Dotado de 
extraordinária óptica mental, vio as fataes consequências desse seeundo e 
ainda mais pestífero, Mal Francez , com que ambiciosos , enthusiastas ' e 
sophistas, offertando atraiçoados presentes de amor , jinhão feito a Decla- 
ração, e Propaganda dos Falsos Direitos do Homem, atacando na raiz os 
elementos da vida social , com promessas de regenerarem a Constituição 
de sua Pátria, e produzirem a felicidade do Mundo. Elle prognosticou que 
o necessário effeito do delirio dos Novadores era o perverterem-se as' Leis 
fundamentaes da Sociedade Civil , e enthronizar-se o mais feroz Despotis- 
mo Militar. *."■ * 

O successo verificou o vaticínio'; pois ora se vê o Dragão, que se 
acoiiara no phantastico paraizo da terra , erguer de súbito a cabeça ante 
tws , e sobre nos , empecendo o leal trato dos homens , assaltando por toda 
a parte a destruir Thronos, e Povos, eespargindo discórdia e desconfiança 
entre consagumeos e amigos , evidentemente interessados na intima união 
e mutua resistência , contra esse Inimigo do Género Humano. Se a suâ 
carreira e fúria não for em toda a parte encontrada , e rebatida , bem se 
poderá exclamar com terror _ Ceos ! Que futuros se tios preparai ■ 

^ Mirabeau , hum dos Corypheos , e depois victima da nefanda" Revo- 

S \ T Gm ° di0 de In ? !acerí - a * <\™ a ™' nada havia de polido 

se ao oa^o, como se unicamente temesse achar nelia afiada espada de dous 
KH a Perhdia Gallica ; todavia , náo podendo contestar a noto- 

sahindo com dobrado lustre no Theatro Politico , defendendo a seus FHs 
Adiados , e derribando as machinaçôes do Oppressor das Gentes fez i 
condão ingénua de ser tão famoza Ilha o inexgotavel foco de grandes 
exemplos, e a terra clássica dos amigos da Liberdade (♦>/ devia accrescei- 



^^zJTr^ né9tí ^ k foyer de grands exem ^ ies ■ ce " e ■*» ++ 



tar -i bem regulada _ e não Liberdade d franceza , que só consiste no 
desenfreio das paixões animaes , e na destruição da ordem estabelecida. 

As Obras de Buike vierão confirmar esta verdade : elias excitando 
com a maior intensidade a Energia do Paiz , constituirão os Territórios e 
a Marinha da Grajft Bretanha os inexpugnáveis Baluartes da Razão , e 
Lealdade , e a esperança do Orbe depois do Diluvio de doutrinas falsas , 
que não só destruio milhões de homens , mas também quasi extinguio os 
princípios da Humanidade. Surgio aquelle Luminar Litterario , quando se 
escurecia o horisonte scientifico , para esclarecer todos os paizes , e dissi- 
par os negros vapores do horrível meteoro da Cabala Gallscana , que ten- 
tou com a sua Consumição Aerostatica assombrar o Universo, e desluzir 
o esplendor da Pátria dos Newtons e Smiths , que tantas luzes haviáo es- 
palhado para a communicaçáo de todas as Nações , e commercio franco dos 
productos de sua terra e industria. Com singular força de caracter , argu- 
mento, e estilo, contribuio poderosamente , no fervor das geraes preocu- 
pações , a libertar a sua Nação do Monstro da Revolução (*), que, se- 
melhante a Saturno da Mythologia, devora os próprios filhos (**) , e que 
já começava a pôr alli invisível pé, e ganhar terreno, pela secreta cor- 
respondência da Assemblea Franceza com hum Conciliábulo de Londres 
(***) de mal intencionados, descontentes, e fanáticos (de que nenhuma 
Nação he isenta) os quaes , blazonando de conhecimentos superiores , e 
patriotismo heróico, tinháo posto em seu animo corromper o bom natu- 
ral dos Bretões , fazendo circular milhares de copias de libellos incendiá- 
rios , e com predilecção de Tbomaz Paine , adoptado pela dita Assem- 
blea , e unido a seu Corpo, que intitulou illuminado e tlluminante ; ten- 
do-se-lhe depois ahi retribuído o galardão de ser tratado por idiota, e des- 
tinado a perder a vida, por seguir o partido dos Brissotinos (****) , e 
não chegar á altura da Montanha, onde trovejaváo , como os Titães da 
fabula, os Marats e Koberspierres , cujos abortos ainda hoje horrorisáo , e 
que bem se poderiáo classificar como pertencentes á ordem das feras mais. 
carniceiras, mal tendo a face de homens, quaes descreveo Juvenal 

Nomen erit tígris , pardus , leo , et siquid est quod 
Fremat in terris violentius. 

A pezar dos desfavoráveis juízos que alguns fizerao do mérito de 
Burkí , considerei ser útil assoalhar algumas amostras dos pensamentos 
deste insigne Mestre de Sciencia prática de Administração , e Politica Or- 



(*) Bdm lhe quadra a descripçâo dtf Horácio : Desinit in piscem mulier formosa 
supernè. 

(**) Expressão de hum dos Membros da Assemblea Franceza , indo ao patibu> 
lo por sentença dos Coliegas. 

(***) Intitulava-se Sociedade da Revolução, 

(****) Sectários de Brissot , chefe do Partido dos chamados Federalistas , o qual 
proclamou , que se devia pôr Jozo aos quatro cantos da Europa , e fazer saltar oí 
seus Governos , pela erupção vulcânica dos Dogmas da Liberdade e Igualdade, 



thodoxâ ; cor ser o mais valente Antagonista da Seita Revolucionaria , e 
o que, ensinando realidades, e não chimeras, expcz os Verdadeiros Di- 
reitos do Homem ; lançando exacta linha divisória entre as tdeas liheraes 
de huma Regência Paternal , e as cruas theorias de especuladores metha- 
physicos, ou machiavellistas , que tem perturbado, ou pervertido a im- 
rnutavel Ordem Social , estabelecida pelo Eterno Regedor do Universo , 
e convencendo a impiedade , e inépcia dos Princípios Frsncezes , que tem 
causado tão grandes desastres, 

Tomei por isso o presente trabalho , persuadido , de que breve trans- 
umpto extrahido dos escritos da maior nomeada de Burke, ficando mais 
ao nivel de todas as classes , que não podem ler a- original , servirá de 
antídoto contra o pestífero miasma, e subtil veneno das sementes d'Anar- 
chia e Tyrannia da França, que insensivelmente voáo por bons e mãos 
ares , e por todos os ventos do Globo. Notórios successos de algumas re- 
giões d'America , que já deráo hórridos exemplos de internados da Goilo- 
mania, dictáo as maiores precauções contra o contagio desta segunda Lues 
Céltica. Hum epilogo das doutrinas daquelle Estadista he opportuno a ex- 
tirpar pensamentos scelerados , e vás esperanças , dos que se prevalecem 
das dissençóes e desgraças dos tempos, para turbarem a harmonia dos Es- 
tados , e fazerem paródias das portentosas maldades francezas. 

Náo proponho este resumo como Symbolo de Fé Politica, enem ain- 
da como perfeito modelo de composição de literatura. Muitos descontos se 
devem dar a quaesquer escritos, ainda dos sábios -da primeira ordem (*). 
Deixo aos Leitores formarem por si o devido conceito; na certeza de que 
se fixará a opinião a respeito de hum Génio láo feliz , que doura tudo 
que toca, e que parece ter concentrado a Sabedoria das Idades. 

Burke foi arguido de declamado r , que defendia notórias corrupções 
dos Governos , coniradictorio a seus antigos princípios , e vendido á Cor- 
te. Mas eile soube desprezar injurias , e confundir calumniadores. A Apo- 
logia que deo contra emulos e maldizentes, por si falia, e contém sobeja 
justificação, não menos da causa dos Governos regulares , que da pessoa 
de seu Defensor. O Philantropo de boa fé pôde innocenremente desejar 
melhora das cousas humanas ; mas o Homem de Estado só consulta o que 
he praticável nas circunstancias de cada Nsçáo. Isto he o que fez Burke. 
Náo se eclypsa a sua virtude por ter-lhe o Soberano feito justiça , remu- 
nerando dignamente os seus tão assignalados serviços, como usa conceder 
a todos os eminentes Servidores do Estado ; sendo esta huma das princi- 
paes causas de se crearem em Inglaterra tantos homens de saber prodigio- 
so, e de espirito duplicado dos Aristides, Fabricios , e Cincinnatos , que 
tem honrado a Espécie, 

Burke judiciosamente observou, que náo se precisava de talento , nem 



(*) „ Se pensais ver huma obra sem defeito, pensais no que nem houve, nem 
ha , nem haverá. Em qualquer composição attendei o f m do Escritor : se escolhe©' 
os meios próprios , e os dirigio com scerto , merece applauso , com dtspiezo dos, 
defeitos triviaes. Dez censiirão sem razão por hum que escreve mal... 

í*ope Ensaio sobre a critica. Traduc. C. A, 



VI 

sagacidade fora do commum , para notar irregularidades na regência do» 

Estadps, e os abusos dos nobres , ricos , e administradores públicos • a 
questão so he sobre os opportunos remédios de prevenir os damnos ' e 

emenda lios. . » 

Execrar revoluções não he defender desgovernos, nem excluir boas 
leis. Ainda os melhores Soberanos e Administradores sáo obrigados a con- 
tomurem-se as opiniões das diversas ordens do Esrado. Quando o remé- 
dio he peior que o mal, até as bois reformas são inúteis, ou nocivas As 
revoluções sao como os terremotos : tudo arruináo , e nada reparáo A 
sociedade Civil, depois de convulsões politicas, sempre torna a compôr-se 
de ricos, e pobres, nobres e plebeos, bons e mios, quem mande e quem 
A scena será renovada , e unicamente mudarão os actores. Só a 
acia da verdadeira Religião, e o progresso da cultu 



obedeça. 

doce itiíli 



to , podem diminuir erros e vicios dos r 



do espiri- 
aomens , e fazer durar e florecer 
os impérios. Mas perfeição ideal he de absoluta impossibilidade (*) Que 
se ganha em revoluções ? As. ambições desordenadas se desenfreiáo. He 
prec.so confiar a Força Publica de novas mios, e concentralla na de pou- 
cos, ou de algum, para resisrir-se aos inimigos internos e externos Eis 
organizada a olígarchia , que logo finJa em Dicudant, e Tyrannia.' Tal 
he o desfecho das Revoluções antigas e modernas : e em algumas , o Des- 
potismo se firmou para sempre. 

Contra os que tem feito severas invectivas a Burke basta dizer, que. 
se o fundo capital da doutrina he soliJo , ainda os desvios dos entendi- 
mentos extraordinários , empregados no bem da Humanidade , sáo mais 
objectos de escusa , que de censura. 

Gibbon , profundo Author da Historia da decadência do Império Ro- 
mano , achando-se retirado na Saissa no tempo das mais trágicas scenas da 
Revolução Fnnceza, e vendo em fim realizadas as propherias de Burke, 
deo as Obras deste Escritor o competente apreço; e a final nas suas Me- 
moriai posthftmas deixou a seguinte Prorestaçío _ Assigno o Credo de Bur- 
He sobre a Revolução da França ; admiro a ma eloquência ; adoro os seus 
sentimentos cavalleiros (**) ecc. Elie igualmente reconhece o bem que Bur- 
ke fez a Inglaterra , livrando-a do Cibos da anarchia , em que também 
correo risco de se precipitar. Diz mais „ A prosperidade de Inglaterra 
íorma soberbo contraste com as desordens da França. A Revolução deste 
paiz humilhou tudo que era alto, e exaltou tudo que era baixo. O vivo , 
mas irregular , espirito da Nação Franceza , em lugar de edificar hurna 
boa Constituição, sò a mudou em ánaréhiâ e tyramia. A Gloria Briran- 
nica está pura e esplendida. Se Inglaterra., com a experiência da própria 
felicidade, e das desgraças da Europa, ainda se deixar seduzir pelos lati- 
dos dos facciosos, e j>zer comer o pomo ài falsa Uberdade e igualdade, 
ella merecerá ser exterminada do paraizo que goza. „ 

Os mais distinctos Escritores de Inglaterra sáo admiradores de Bur- 
■ £ . f 

(*) Vicia ertint , donec homines. -, Tacitus. 

Ç*) 1 be; kzvt to subscrjbe my asseta-t to Mr. Burcke Creed on the revolutk» 
ot France. I admire his eloqusnce ; I, approve lais policies j I adoio his chivalry ect. 



■i 







ke ; e o quasi unanime parecer da parte sã dos pensadores de boa fé, he 
que elle apresentou o padrão do maior espirito publico , empregado para 
os melhores destinos , e que a sua sabedoria, e eloquência, desvanecendo 
as especulações iiiusorias de políticos superficiaes, dera aos Regedores das 
"Nações prudentes conselhos para resgatarem a Europa da Barbaridade 
Franceza , e prevenirem futuras revoluções com saudáveis reformas dos 
respectivos Estados. Bastará citar o seguinte testemunho publico do Cor- 
po Académico de huma das mais illustres Universidades ; que dirigio es- 
ta Carta a Burke. 

„ Nós abaixo assignados , residentes graduados ââ Universidade de 
Oxford , rogamos , que vos digneis acceitar esta respeitosa declaração dos 
nossos sentimentos , como tributo que desejamos pagar aos vossos brilhan- 
tes talentos , empregados no adiantamento de bem publico. Pensamos ser 
próprio e conveniente aos amigos da nossa Igreja e Estado confessar aber- 
tamente as suas obrigações aos que se distinguem na sustentação dos nos- 
sos approvados Estabelecimentos; e julgamos ser do nosso especial dever 
fazer este Manifesto em hum tempo , que particularmente he marcado por 
hum espirito de temerária e perigosa innovação. Como Membros da Uni- 
versidade , cujos Estatutos abraçáo todas as partes das Sciencias de pro- 
veito, e ornamento, nos julgaríamos justificados em fazer esta Carta con- 
gratulatoría , ainda se tivéssemos somente a offerecer-vos os nossos agra- 
decimentos pelo precioso augmento , que com as vossas importantes obras 
recebemos para o fundo da Literatura Nacional. Porém temos mais altos 
objectos de consideração, e mais nobres motivos de gratidão; pois estamos 
persuadidos , de que consultamos aos reaes e permanentes interesses desta 
Universidade, quando reconhecemos os eminentes serviços que tendes fei- 
to á nossa Constituição , pela vossa hábil e desinteressada Demonstiaçáo 
dos seus verdadeiros princípios ; e que obedecemos ainda mais á sagrada 
obrigação de promover a causa da religião, e da moralidade, quando da- 
mos esta prova, de que honramos o Advogado por quem elias tem sid© 
tão eloquente e effecti vãmente defendidas.,, 



(O 
REFLEXÕES 

SOBRE 

À 

REVOLUÇÃO DA FRANÇA, 



Ji\ frança presentemente, vista com olhos attentos , deve ser consi- 
derada como exterminada do Systema da Europa. Por inesperada Revolu- 
ção da sua Monarchia , esta cahio de grande altura com velocidade acce- 
lerada : he difficil subir outra vez a ella , pois isso se oppóe ás leis da 
gravitação physica , e politica. O facto he assombroso, e faz a todos , que 
pensão, tremer da incerteza de todas as grandezas humanas. 

Os Francezes se tem mostrado os mais hábeis Architectos de ruínas, 
que tem até agora havido no mundo. Em breve espaço de tempo deitarão 
por terra a sua Monarchia, a sua Igreja, a sua Nobreza, a sua Lei, a 
sua Renda Publica, a sua Marinha, o seu Commercio , as suas Artes, e 
as^ suas Manufacturas. Elles fizerão para nós espontaneamente , o que fa- 
riáo , os que procurassem estabelecer a nossa superioridade a taes respei- 
tos. Se fossemos os seus absolutos conquistadores , e a França estivesse 
prostrada aos nossos pés , nos envergonharíamos em mandaMhes Envia- 
dos a assentarem os seus negócios , a fim de impor-lhes huma lei táo du- 
ra , e tão destructiva da dignidade de huma Nação , como elles impoze- 
fáo a si mesmos. 

Luiz XIV. no fim do século decimo septimo estabelece© o maior, e 
o mais bem disciplinado Exercito , que jamais se tinha visto antes na Eu- 
ropa , e , com elle , hum perfeito despotismo. Mas este despotismo era or- 
nado, por boas maneiras, galantaria, esplendor, e magnifcencia , e estava 
coberto com os mantos (que muito impõem) da seiencia , literatura, e ar- 
tes. Era assim huma Tyrannia doirada. Desde então o mesmo espirito de 
magnificência , e amor de exércitos permanentes, e de grandeza, que ex- 
cedia as faculdades de pagamento do povo , se inircduzio em cada Corte 
da Europa. 

A admiração daquelíe Reino florente , e feliz , quasi ganhou todas as sor- 
tes de Estados. Masem Inglaterra os bons patriotas do tempo lutarãocomra 
essa sedccçáo. Elles foráo anciosos em romper toda communlcsçáo com a 
França , e produzir no povo total apartamento de seus conselhos , e exem- 
plos. 

A 



CO 

Hoje em dia o mal está totalmente mudado na Françs. A doença al" 
terou-se; porém a vizinhança dos dous paizes existe , e os naturaes hábi- 
tos dos espíritos actualmente sáo taes , que o segundo Mal Francez vem 
a ser mais "contagioso , que o primeiro. Náo he fácil espalhar no povo a 
paixão pela escravidão ; mas agora todos os males do género opposto sáo 
fomentados pelas nossas naturaes inclinações : visto que o despotismo he 
sempre odiado ; porém huma falsa apparencia de liberdade he recebida por 
ouvidos promptos. Antes da queda da Monarquia , estávamos em perigo 
de ser arrastados pelo exemplo da França na rede varredoura de seu in- 
quieto despotismo militar. O presente perigo procede do mão exemplo de 
hum povo , cujo caracter mo conhece meio nas cousas : este perigo he o da 
anarchia , e tyrannia , que deila ha de no fim sobresahir. 

O maior perigo politico resulta da admiração da fraude , e violência 
feliz , para em todos os paizes se imitar a irracional , impia , e feroz de- 
mocracia , que proscreve , confisca , rouba , e assassina. Devem temer , 
ainda mais que todos, os indivíduos que tem propriedade, e principalmen- 
te os das Ordens Superiores, que sustentáo os Governos regulares, e são 
os pilares dos Thronos. Da parte da religião , o perigo já náo he da an- 
tiga intolerância Franceza, mas da sua infidelidade atheistica ; que he hum 
vicio vil, e desnaturado, inimigo de toda a dignidade , -e consolação do 
Género humano, que parece agora na França ter sido incorporado em Fac- 
ção , e que se acha acreditado , confessado , e até proposto a ser o Sy«> 
bolo da Naçáo ( i ). 

Náo sou inimigo de reformas. Quasi em todas as deliberações , em que 
fui Vogal no Parlamento, desde o primeiro dia, em que nelle tive assento, 
o meu prineipaí negocio foi justa reforma ; empenhando-me em corregir 
abusos velhos, ou resistir a novos. Mas, em minha opinião, reformar, 
não he fazer em pedaços a architectura do Estado : isso náo só previne 
toda a real, e precisa reforma, mas até introduz males, de que depois 
era vão se pôde achar emenda, e reforma alguma. 

Penso que a Naçáo Franceza obrou sem sabedoria em destruir a sua 
Constituição. Isto, de que elía muito se preza, redunda-lhe em perpetua 
deshonra. Gloria-se de ter feito a revolução do próprio paiz , como se 
revoluções fossem em si cousas boas. Todos os horrores , e todos os cri- 
mes da anarchia , que conduzem á revolução de hum Estado , e que se 
augmentáo com o seu progresso , se representáo como nada aos amantes 
de revoluções. Para prevenir o contagio , e curso de tão horrível Mal 
Francez, eu abandonaria os meus melho.es amigos, e me congraçaria com 
os meus mais encarniçados inimigos ; a fim de me oppor a todos os vio- 
lentos esforços do espirito de innovaçao , que he só calculado a derribar o 
Império , e está muito longe dos verdadeiros princípios das saudáveis re- 
formas, e antes vem a ser absolutamente incompatíveis com as mesmas. 

Era do dever dos que influirão na destruição da França , só reparar 



(O Ainda no principio deste Século se publicou na França o Dicciona- 
íio dos Athcos, em que o próprio Author se poz na cabeça do rol. 



(O 

©s aggrâvos. Se os presumidos reformadores fossem virtuosos , e sábios ; 
devião para isso no seu melhor juizo segurar a estabilidade do Throno, 
e das diversas ordens do Estado ; mas , em lugar de melhorarem a fabri- 
ca de sua Monarchia , destruirão todas as balanças , e cortrapezos , que 
serviáo a fixar o Estado , dar-lhe firme duração , e fornecer os correcti- 
vos do violento espirito, que podesse prevalecer em algumas de suas par- 
tes constituintes, Elles arrazaráo o edifício com a maior temeridade , e 
confundirão tudo em huma incongrua , e descotmexa massa. 

Depois de completarem a sua obra de destruição , e não obra de re- 
forma , immediatamente , com a mais atroz perfídia contra o seu bom So- 
berano, e quebra de fé contra os próprios concidadãos, pozeráo o macha- 
do á raiz de toda a Propriedade, e consequentemente de toda a Prosperi- 
dade Nacional, pelos princípios , que estabelecerão, e pelos exemplos que 
deráo em confiscar todos os bens da igreja , e depois os da Nobreza, Os 
seus superficiaes , e altanados Jurisconsultos fizeráo huma sorte de Institu- 
ía, Digesto , e Código da anarchia , dando o titulo de Direitos do Ho- 
mem , com tal pedantesco abuso dos elementares princípios da jurispru- 
dência , que até serviriáo de ignominia a meninos de escola. Mas a sua 
Declaração de Direitos foi peior , que ridícula pedantaria escolástica ; pois , 
com tal nome, e authoridade elles destruirão systematicarnente todo o do- 
ce vinculo interno , que as opiniões religiosas , e civis tinháo no espirito 
do povo. Por esta declaração subverterão o Estado, e attrahíráo a seu 
Paiz calamidades , que nenhum paiz civilisado jamais soffreo. 

Na sua Revolução não houve combate entre a Tyrannia , e a Liber- 
dade. O sacrifício que os demagogos , ou instigadores do povo fizeráo da 
paz , e fama do seu paiz , não foi feito no Altar da Liberdade. Estabele- 
cerão huma democracia , ou tumulto o mais desordenado de homens fu- 
riosos , para exercitarem (o que era necessária consequência da sua pre- 
cipitação, e estultícia) o despotismo da gentalha , que he a peior etpecie 
da tyrannia. O seu real objecto foi o abaterem rodas as legitimas institui- 
ções sociaes , que reguláo , e unem todas as classes da Communidade em 
doirada Cadeia de subordinação. Elles fizeráo rebellar soldados contra seus 
Olficiaes ; criados contra seus amos; artistas contra seus Mestres; rendei- 
ros contra seus Senhorios; Curas contra seus Bispos; filhos contra seus 
pais ; vassallos contra o seu âoberano. A sua causa não foi inimiga da 
Servidão, mas da Sociedade. 

Considere se o como em qualquer paiz seria olhada huma insurreição 
plebeia, em que, como na França , se demolissem Palácios, e os Ecclesi- 
asticos , è Ricos fossem descompostos, routados , e destruídos; queiman- 
do se nas suas próprias faces os seus titulos antigos, e sendo suas pessoas, 
e famílias forçadas a extermínio , e a procurarem refugio por todas as Na- 
ções da Europa , sem outra Tazão , e culpa mais, do que o terem nasci-, 
do com solares de nobreza, serem proprietários de terras, e fundos, e 
se constituírem suspeitos de quererem conservar a sua consideração, e os 
seus bens ? 

A deserção dos Francezes fai huma abominável sedição , e implacá- 
vel hostilidade a coda a gente nobre, e de educação , e cuja salvagem se- 

A 2 



(4) 

nhi de motim era o pavorosD grito _ eis o Aristocrata — para animar*se 
a canalha sanguinária , e incapaz de nobres sentimentos a commetter rou- 
bos , e assassinatos , sendo irritada a todos os excessos por homens am- 
biciosos , e scelerados , que intentavão humilhar , e abater cudo , o que 
era respeitável, e virtuoso da Nação, quasi pondo em eterno opprobrio o 
nome de hum paiz antes táo famoso no mundo como a França. Até a 
força militar foi pervertida na disciplina, e politica. Levantou-se a Tropa 
Nacional contra a Tropa de Linha. Fez-se balança dos Exércitos, c não 
aos Corpos do Estado. Isto esrabeleceo a guerra civil. 

He estranhe comparar a Revolução da Franca com a Revolução de In- 
glaterra. Naepocha desta , o Príncipe deOrange', Príncipe de sangue Real 
da Gram Bretanha, foi chamado ao Throno Britannico pela flor da No- 
breza Ingleza , para defender a sua Antiga Constituição , e náo para ni- 
veliar todas as Distincçòes , pelo vil conceito de falsa' Liberdade , e Igual- 
dade. A obediência militar só mudou de objecto ; mas a disciplina mili- 
tar nem por momentos foi interrompida no seu principio. Que compara- 
ção tem a chamada Assemblea Constituinte Francesa , com a Magestade 
da Representação da Nação Ingleza ! 

A Revolução da França foi em tudo o avesso da Revolução de In- 
glaterra , que ora sustenta no Throno dos Reinos Unidos a Soberania da 
actual Casa Reinante. Entre nós, o caso foi de hum Monarcha legitimo 
querendo arrogar-se hnm poder arbitrário: na França, o caso foi de hum 
Monarcha absoluto , intentando legalisar a sua Authoridade , e querendo 
estabelecer huma Monarchia limitada. Náo se tratou jamais na Gram Bre- 
tanha de mudar as Ordens do Estado, nem arruinar o Governo; só se 
procurou iegaiisaiío , conservando-se as partes constituintes da Monarchia. 
A dizer propriamente a verdade , e a real substancia das cousas , náo se 
fez revolução verdadeira , mas prevenio-se que ella se fizesse com as con- 
vulsões , que as revoluções trazem comsigo. Só exigimos solidas garan- 
tas , 
nossa 
mentaes 
nlo ^i 



e corrigimos anomalias 



tomamos assento de questões duvidosas , e corrigimos anomalias da 
Lei. Náo se fez revolução, nem ainda alteração, nas partes funda- 
e estáveis da nossa Constituição de ijue já gozávamos ; também 
diminuímos as justas e necessárias prerogativas " do Monarcha e da 
Coroa, antes consideravelmente as fortificámos. A Nação ficou conservan- 
do as anteriores Ordens, classes, privilégios, franquezas; as idênticas re- 
gras da propriedade ; as mesmas subordinações ; igual ordem na Lei , Ren- 
da Publica, Magistratura ; sustentamos as Cameras dos Lords, e Com- 
muns , as mesmas Corporações , e os mesmos Eleitores. No Acro do 
Parlamento apenas houve desvio da rigorosa regra da successão, em fa- 
vor de hum Príncipe, que, posto náo fosse o immediato , era ornais pró- 
ximo na linha da successão. O Lord Somers t que lavrou a Lei de De- 
claração de Direitos , se comportou nesta delicada oeeasião conforme ao 
senso do povo ; dizendo, que "era admirável providencia, e misericor- 
diosa benção de Deos á Nação, preservar as Pessoas de Suas Magestadés 
Reaes, para felizmente reinarem sobre o Throno de seus Antepassados; 
sobre o que , do fundo dos seus corações , todas as Ordens do Estado 
dãyáo suas graças e louvares. '' 



":M,-AkfHi 



Também em tal Revolução } á Igreja não scMreo o menor eclypse é 
detrimento. Os seus reditos , a sua majestade, o seu esplendor, as suas 
ordens e graduações , continuarão a ser como d'antes eráo. Ella conser- 
vou-lhe toda a sua religiosa tfficacia ,, e só a libertou de certa intolerân- 
cia, que produzia fraqueza, e menos gloria. A Igreja e a Mõnarchia pois 
ficarão sendo as mesmas , e só se constituirão melhor seguras. Náo se fez 
Revolução na Constituição; tudo foi tem, porque pnnc.picu se por fa- 
zer reparação, e não mina. Em consequência o Estado floreceo. Lm lu- 
gar de se prostrar como hum defunto , ou permanecer em huma sorte de 
transe , como outros Estados , com accessos epilépticos , expostos á irri- 
são ou piedade do mundo , e só fazendo , semelhantes á França , estron- 
do por movimentos convulsivos , sem algum propósito ou effeiro mais, 
que o de quebrarem a própria cabeça sobre o pavimento , a Gram Bre- 
tanha se elevou sobre o seu me$mo prototypo. 

Dahi em diante começou huma Era de prosperidade nacional mais 
avantajada, a qual, ainda continua, nio obstante a devastadora máo do 
tempo", e náo só sem diminuição , mas até cem augmento. Todas as 
energias do paiz se despertarão, Inglaterra .tem por isso mostrado mais 



firme rosto , e mais vigoroso braço , 



todos os seus inimigos, e rivaes. 
e reviveo. Em toda a parte ella 



A Europa sob seus auspícios respirou 

tem apparecido como Protectora , Assertora , e Vingadora da verdadeira 
liberdade , e tem sustentado guerra até contra a mesma Fortuna. Ella fez 
logo concluir o Tratado de Riswik^ , que limitou o poder da França ; e 
consolidou a Grande Alliança , que abalou até nos alicerces o tremendo 
Colosso Gallico , que ameaçava a independência do Género Humano. Os 
Estados da Europa foráo feiizes á sombra desta Grande e Livre Mõnar- 
chia , que sabe ser grande, sem pôr em perigo a paz interior do próprio 
paiz , e a paz externa de quaesquer dos seus vizinhos. 

A Revolução Franceza só tem feito dar esplendor á obscuridade , e 
distineçáo aos méritos os mais indistinctos. Tive a mais inexprimível ad- 
miração , quando rne veio noticia , de que a nova , que se denominou em 
Londres Sociedade da Revolução , tomando huma sorte de importância pu- 
blica, e capacidade legal, dirigia cartas de parabéns á que se intitulou /^- 
semblea Constituinte da França, que havia completado tamanhas desordens 
em seu Paiz. Nenhuma pessoa ou Companhia particular , que náo tem 
geral missão apostólica, pôde, sem a maior irregularidade, abrir formal e 
publica correspondência com algum novo Governo de Naçio Estrangeira, 
sem expressa auihoridade do Governo sob o qual vive. 

Sou homem lizo , e náo posso ver com serenos olhos procedimentos 
mui refinados e engenhosos dos que se considerlo superiormente illumina- 
cos , e que tomáo , de metu propilo , os ares e maneiras dos estratage- 
mas políticos. Lisongeo-me de amar (somenos cem igual zelo que outros,) 
a varonil, morai, e bem regulada liberdade civil. Tenho dado disso pro- 
vas em minba condueta publica: mas náo sou dos mais adiantados em dar 
louvor a qualquer cousa relativa a acções humanas , e negócios políticos 5 
unicamente pela superficial vista do objecto , espoliado de todas as mais 
felacóes da Sociedade , e nanu$iez a e selicáo das abstracções rn.ethaphys.icag, 



! :: 



Cf) 

Circunstancias (que, no juízo de alguns eavaííeiros ; $g eonsideráo 
cm nada) são, no mau fraco entender, as cousas mais essenciaes , e que 
na realidade dão a iodo o principio e piano politico a conveniente cor , e 
effiito distincto, para se qualificar com discernimento a sua natureza. Taes 
circunstancias são ás que constituem a cada Projecto civil, e politico , ora 
beneiico , ora prejudicial ao Género Humano. 

P Abstractamente faliando , Governo , e Liberdade, são cousas boas. Em 
senso commttm , ha dez annos poderia felicitar a França peio gozo de seu 
governo , sem inquirir sobre a natureza de tal governo , e se era bem -ad- 
ministrado. Poderei eu congratular agora a mesma Nação peia sua liber- 
dade ? Por isso que a liberdade , em abstracto , se deve contar entre os 
beis d) Género Humano, poderia alguém seriamente felicitar a hum lou- 
co, por haver escapado da protectora restricçáo , e saudável escuridade da 
suacazinha, e deter obtido restauração da luz , e liberdade?. Darei parabéns 
a hum salteador de estrada, e assassino, porque, quebrando a sua prizáo , 
recobrou os seus direitos nituraes? O heróico libertador dos Condemnados 
a galés , só seria reputado por cavalleiro merhaphysico de triste figura. * 

Quando vejo o espirito de liberdade em acção , vejo hum principio 
forte, posto em obra. Então hum gaz turbulento, ou centrífugo ar fixo, 
ftè solto dos seus nacuraes vínculos. Devo pois suspender o meu juizo 
até que a primeira eíferveseencia se tenha esfriado , o licor se clarifique \ 
e se possa ver no fundo alguma cousa mais do que somente a agitação 
de turbada e escumosa superfície. 

A lisonja corrompe a quem a faz e a quem a recebe ; e a adulação 
dos povos não lhes hs de melhor serviço, que a dos Reis. Devíamos lo- 
go demorar as congratulações i França pela sua nova liberdade , antes que 
se viesse no cabal conhecimento, do como ella tinha sido combinada com 
a regularidade do governo; com a força publica; com a disciplina e obe- 
diência do exercito; com a eifeetiva collecta e boa distribuição das Ren- 
das do Estado ; com a moralidade e religião ; com a solidez da proprieda- 
de ; com a paz e ordem; com as mineiras civis e sociaes. Sem estas cou- 
sas , a liberdade não he beneficio , ou vantagem durável , mas antes ma- 
lefício , e desordem. 

O effeito da liberdade nos indivíduos he fazerem o que lhes agra- 
da ; mas he necessário que primeiro saibamos que cousas são as que lhes 
agradáo, antes que nos arrisquemos a dar-lhes os parabéns, que se pos- 
sâo logo tornar em pezames, A prudência assim o dieta , em ca?o de ho- 
mens particulares , e obrando solitariamente ; quanto mais o deve ser a 
respeito de Nações? 

A liberdade, quando os homens opéráo em corpo, vem a ser po- 
àer. Toda a gente de consideração pois deve, antes de se declarar em ap- 
plausos, observar o uso que taes homens fazem deste poder, e particu- 
larmente de huma cousa tão perigosa como he de novo poder , em novas 
pessoas , e obrando por novos principias , e quando aliás não tem ainda 
dado provas de seus temperamentos, e disposições, com pouca ou nenhu- 
ma experiência dos negócios das Nações , e qiundo se acháo em situações 
e scenas, e.n que talvez os actores náo sáo os seus motores. 



(7) 

Cofnprehendendc-íe todas as circunstancias , a Revolução Franceza he 
o mais assombroso phencmer.o que tem acontecido no mundo. As cousas 
mais maravilhosas ás vezes vem 4 luz F^os meios mais absurdos, nos 
mais ridículos medos , e feios mais desprezíveis instrua en tos. Forem alli 
tudo parece estar fora da natureza , no seu estranho cáhos de leveza e 
ferocidade. Vem-se todas as sortes de crimes, complicados cem todas as 
sortes de loucuras. Nesta tragicemedia , as mais eppostas paixões se revê- 
záo necessariamente , e váo de encontro ro espirito: ora tem-se alternati- 
vamenie desprezo , e indignação '? ora rizo e lagrimas j ora desdém e 
horror. 

A experiência nos tem ensinado , que não ha entro wais certo expe- 
diente de perpetuar a fossa regular (Herdade, senão guardando , do mo* 
do o mais sagrado , o direito da smcessão hereditária na Coroa , e nai 
propriedades da Nação. 

Pela guarda inviolável desta regra , o espirito de cautela predominou 
em a nossa Revolução no Conselho Nacional , estando-se aliás em situa- 
ção , em que os homens irritsdes pela oppressáo , e elevados pelo trium- 
pho sobre ella , eráo propensos a abandonarem a si mesmos a procedimen- 
tos violentos e extremos : elle mostrou a anciedade dos grandes homens 
que influirão na condueta dos negócios nessa grande épocha, para fazerem 
que a revolução fosse a mái dos bons estabelecimentos , e náo a matriz 
de futuras revoluções. A nossa Ccnstituiçso náo fez do Rei huma ^fu$ti~ 
ça de Aragão , ( i ) nem estabelece© Tribunal em que elle se submettes- 
se a alguma responsabilidade , antes constituio a sua Pessoa Sagrada , e, 
na presumpçáo de Direito, irr peccavel. 

A nossa mais antiga reforma he a Magna Carta do Rei Jcso. Co- 
ke 3 o Oráculo da nossa Lei , e todos os grandes homens que o seguirão 
até Bíackjton , se esforçáo em mostrar, que esta foi a columna da nossa 
Liberdade , e que era connexa com outra Carta mais antiga de Henri- 
que I. , e que huma e outra não eráo mais que mera confiimaçáo de ain- 
da mais antiga e constante Lei da Terra. Assim foi sempre a firme po- 
litica destes Reinos considerar os mais sagrados direitos , e franquezas , co- 
mo herança. 

Na famosa Lei de Carlos I. , chamada a Petição de Direito, o Par- 
lamento disse ao Rei -< os Vossos Vassallos tem herdado esta liberda- 
de •— i reclamando as suas franquezas, náo pelos abstractos princípios de 
Direitos do Homem í franceza , mas como direitos consuetudinários dos 
Inglezes , e património derivado de seus antepassados. A uniforme, policia 
pois da nossa Constituição na Revolução só reclamou e consolidou a he- 
rança fidei-commissária dos nossos maiores, para ser transmittida também 
illesa á nossa posteridade. 

Por isso temos Coroa hereditária : Nobreza hereditária : Casa de Coni- 
muns e Povo herdando privilégios , franquezas , e liberdade , por huma 



( i ) Isto allude ao antigo uso do governo feudal de Kespanha , e em parti- 
cular do Reino de Aragão , em que os Deputados das Cortes , escolhendo Rei # 
propunhão-lhe condições, dúendp : st os um , sim', se não, nfa> 



(3) 

longa linha de muitos avós de avós , para perpetuidade da Monarchía 

Britannica. Assim poderemos dizer 

— — — — - — muitos que per annos 

Stat fortuna domus , et avi numerantur avorum. 

Esta policia parece-rne o resultado de profunda reflexão , ou (para 
melhor dizer) he o feliz tâázo de seguir-se o dictame da natureza, *qu<» 
he a sabedoria sem reflexão , e que vem a ser ainda sobre elfa. Náo se 
pôde oíhar para os vindouros , sem também elevar as nossas vistas aos 
antepassados. A idéa de herança fornece seguro principio de conservação 
e seguro principio de transmissão , sem tudavii excluir o principio de me- 
lhora. Eila deixa livre os inei03 de novas adquisiçóes , e secura o ad- 
quirido. ° 

Quando hum Estado se governa por estas máximas, constitue-se hu- 
ma jorre de Estabelecimento de Família , com a perpetuidade das Corpo- 
rapei de mão-morta. Quando a Policia Constitucional obra sobre o mode- 
lo da natureza, transmitamos o nosso governo, e os nossos privilégios 
como transmitimos as noss3s vidas , e as nossas propriedades. Assim as 
instituições saudáveis, os bens da fortuna, os don5 da Providencia , se 
traspassáo, cano de mão a mão, de pais a filhos, na mesma carreira e 
ordem das operações da Natureza ; e emáo o Corpo Politico se mantém 
em saaJe habitual de huma boa Constituição. 

O nosso Systema está pos-to em justa correspondência com a harmo- 
nia do Mundo , e com o modo de existência decretado a hum Corpo per- 
manente , composto de partes transitórias, pela disposição da estupenda 
-Sabedoria, que moldou a grande mysteriosa incorporação da Kspecie Hu- 
mana , e que, subsistindo no todo em huma constância immutavel , se mo- 
ve por variado theor de perpetua decadência , morte , renovação , e pro- 
gres o da? suas partes componentes. Assim afferrando-nos aos bons prin- 
cípios dos nossos antepassados , não somos guiados pela superstição dos 
antiquários , mas pelo espirito de analogia philosophica. Nesta escola de 
herança , damos á nossa forma politica a imagem de consanguinidade : e 
ligando a Constituição politica aos nossos mais caros laços domésticos, e 
adoptando as nossas íeis fundamentaes no seio das nossas aífèiçóes de fa- 
mília , sustentamos inseparáveis, e amamos com ardor de todos os caracte- 
res combinados, e mutuamente reflectidos, o nosso Estado, os nossos la- 
res , os nossos sepulehros , e os nossos altares. 

Pelo mesmo plano de conformidade á natureza em as nossas anifi- 
ciaes insituiçóes , e chamando eu ajuda delias os seus poderosos instinctos 
(que não erráo ) pata fortificar oa falliveis e fracos esforços de nossa ra- 
zão, temos percebido náo pequenos benefícios de considerar a nossa liber- 
dade como hsrân^^. Procedendo sempre como em presença de nossos ca- 
nomsados avós, o espirito de liberdade, (que de s'i mesmo se precipita a 
excessos ) he temperado por huma respeitosa gravidade. A idéa de huma 
descendência liberal nos inspira sentimentos de nativa dignidade ; no que 
se previne a insolência de levantados , que quisi inevitavelmente aeompa-» 
nha e deshonra os que repentinamente adquirem alguma diárincção. 



C s- 3 

Por este melo , a nossa liberdade vem á ser humã nobre franqueza , 
e traz comsigo hum aspecto majestoso , dando lustre á prosápia dos nos- 
sos antepassados. Ella apresenta os seus timbres e brazóes : ella tem sua 
galaria de retratos : suas inscripções de monumentos : seus depósitos e tí- 
tulos de nobreza. Procuramos reverenciar as nossas instituições civis, peio 
mesmo principio com <>ue a natureza nos ensina a reverenciar os indivfc 
duos veneráveis, isto he, em attenção á sua idade, e aos seus bons as- 
cendentes. Todos os sophistas Francezes não podem produzir cousa algu- 
ma mais própria a conservar a racional € varonil liberdade , do que a 
carreira que temos seguido, escolhendo por guia antes a natureza que a 
phantasia , e os nossos corações antes que as nossas ficções , para serem 
os reservatórios e armazéns dos nossos direitos e privilégios. 

Como, em o mondo natural, o conííicto reciproco de forças discor- 
dantes constitue a harmonia do Universo , assim , em o mundo politico ,.. 
a reciproca opposiçso e combinação de interesses, longe de afFear a nossa 
Constituição , põe nella os saudáveis contrabalances , que retém na pró- 
pria esphera , e nos devidos limites , todas as resoluções precipitadas. Ei- 
les fazem as nossas deliberações objecto de necessidade , e nso de escolha ^ 
e toda a mudança , só matéria de concordata , a qual naturalmente pro- 
duz moderação , e temperança , que previne o cancroso mal de quaesquer 
duras , e despropositadas reformas , e torna para sempre impraticáveis os 
temerários esforços do poder arbitrário , seja de poucos ambiciosos , seja 
da plebe tumultuaria. Pela mesma diversidade dos membros e interesses 
de qualquer Naçáo, a geral liberdade tem tantas seguranças, quantos são 
os desígnios separados das differentes Ordens do Estado ; entretanto que, 
sendo todo o edifício equilibrado e comprimido pelo peso de huma mo- 
narchia regular , impede-se que cada parte solitária se desconcerte , e sal- 
te dos seus competentes postos. 

A França tinha todas estas vantagens no seu antigo systema ; porém 
preferio o obrar , como se nunca tivesse entrado no usual molde da So- 
ciedade Civil , e como se houvesse de começar de novo a carreira da Ci- 
vilisaçáo. Principiou mal , porque principiou por desprezar tudo que lhe 
pertencia. Assemelhou-se a hum individuo que principia o seu commercio 
sem capital. Se as primeiras mais remotas gerações de tal paiz appareces- 
sem sem lustre aos seus olhos, poderia tejias preterido , e procurado os 
direitos nacionaes em os seus mais próximos antepassados. Tendo por el- 
les huma pia predilecção , os Francezes ter ião achado nos mesmos seus 
bons avós, hum padráo de virtude e sabedoria superior á pratica da gen- 
te actual , e se teriáo exaltado com os nobres exemplos que aspirassem 
imitar. Respeitando aos seus mais gloriosos antepassados , aprenderião a 
respeitar a si próprios. Não se teriáo considerado como hum povo de deus 
dias, e vil escravatura , que tentava conseguir a alforria, que sup^õe ter- 
íhes vindo em 1780. 

Não seira mais digno o considerar-se a Naçáo Franceza como huma 
Naçáo generosa, e cavalheira, sim ha muito tempo extraviada, em des- 
avantagem própria , pelos seus altos e romanescos sentimentos de fidelida- 
de, honra, e patriotismo; mas que, supposio alguns suecessos políticos 

B 



(.0) 

lhes fossem desfavoráveis , com tudo nunca fora reduzida á escravidão j 
por ter índole illiberal e servil , e que , na sua mais submissa reverencia 
ao Governo, era só incitada por hum principio de espirito publico , e 
que cada cidadão adorava o próprio paiz na pessoa do seu Soberano? Se 
tivesse feiío entender, que, na illusáo deste. amável erro, intentava adi- 
antar-se aos antepassados , e estava resolvida a recuperar os seus antigos 
privilégios , conservando todavia o espirito da antiga lealdade e honra ; 
se, ^desconfiando de si , e não tendo em estima as suas antiquadas Consti- 
tuições, olhasse para a Gram Bretanha, que conservou sempre os bons 
princípios e modelos da Lei Geral da Europa, já melhorada, e accommo- 
dada ao presente estado , seguindo os seus mais sábios exemplos 3 teria 
sem duvida dado novas provas de sabedoria ao Mundo. 

Entáo a França faria a causa da liberdade venerável aos olhos de to- 
da a pessoa digna em qualquer Nação ; o despotismo , por vergonha , se 
degradaria da terra ; e a experiência mostraria , que a liberdade , sendo 
bem disciplinada, náo só era conciliável, mas até auxiliar á Lei. Assim, 
em lugar de ter hum redito publico oppressivo , o teria prodactivo: sus- 
tentaria hum commercio florente j teria huma Constituição livre j huma 
poderosa monarchia j hum Clero reformado, e venerável j huma Nobre- 
za espirituosa , náo insultante , e só própria a ser a guia da virtude na- 
cional ; teria também huma liberal Classe de Homens Bons da terra , pa- 
ra emularem a Nobreza, e entrarem gradualmente os seus melhores indi- 
víduos para esta superior ordem ; teria hum Povo bem protegido , con- 
stante, laborioso, subordinado, e instruído a procurar por justos meios a 
melhora da própria condição. 

Entáo na França geralmente se reconheceria ; que a felicidade só se 
acha por meio da virtude de todas as condições de pessoas , e que nisso 
consiste a verdadeira igualdade moral do Género' Humano , e não em a 
monstruosa ficção dos revolucionários, que inspirando idéas falsas, e vás 
esperanças , aos indivíduos destinados a passar pela escura estrada de hu- 
ma vida de trabalhos , serve somente de muito aggravar , e ainda mais 
estender, a real desigualdade, que náo se pode jamais remover, e que a 
ordem da vida civil estabelece , tanto para beneficio daquelles, a quem a 
fortuna deixa em hum estado humilde , como também para aquelles que se 
tem exaltado a huma sorte mais esplendida, ainda que náo mais feliz. 

Tire a França a conta de seus ganhos: veja o que lucrou pelas ex- 
travagantes e presumpçosas especulações , que ensinarão aos Cabeças da 
revolução» a desprezar todos os seus predecessores, e contemporâneos , e 
ainda a desprezar a si próprios, até o extremo de se reduzirem a ser ver- 
dadeiramente desprezíveis. A França , seguindo luzes falsas , comprou as 
mais certas calamidades por mais alto preço , do que outras Nações tem 
comprado ainda os bens mais seguros ! França comprou pobreza por mal- 
feitoria. França náo só sacrificou a sua virtude ao seu interesse , mas até 
abandonou o próprio interesse para prostituir a sua virtude. 

Todas as outras Nações tem principiado a fabrica de seu novo go- 
verno, e a reforma do antigo, estabelecendo logo na origem, e fazendo 
executar com grande exacção 5 algum rito religioso de culto publico. To- 



( «t ) 

idos os mais reformadores tem firmado os fundamentos da liberdade civil 
em algum systema da mais austera moralidade , ainda que aliás differente 
nas maneiras. A França porém, soltando as rédeas da Authoridade Real, 
redobrou a licenciosidade com a mais feroz dissolução dos costumes , e 
insolente irreligião em idéas e práticas ; extendendo* por todas as classes 
de individuos, e modos de vida, todas as infelizes corrupções, que or- 
dinariamente produzem as enfermidades que se origináo do abuso da rique- 
za e poder. Este foi hum dos falsos princípios da igualdade Franceza , is- 
to he a igualdade de vícios. 

O Parlamento de Paris disse ao Rei , que , convocando os Estados 
Geraes , nada teria a temer do excesso do seu zelo em prover ao susten- 
to do Throno. Os que derão esse conselho , trouxeráo ruina sobre si , seu 
Soberano, e seu paiz. Taes declarações temerárias tendem a deixar dor- 
mir a Authoridade Real , e animalla a precipitar-se a aventuras perigosas 
de novas medidas politicas , de que se não tem experimentado os bons 
ou máos effeitos, e a desprezar as preparações e preeauçóes, que distin- 
guem a benevolência da imbecillidade, e sem que, nenhuma pessoa pôde 
responder pelos saudáveis resultados de algum abstracto Plano de gover- 
no , ou de liberdade. Por falta destas precauções foi a Medicina do Esta- 
do corrompida em veneno próprio. Os conselheiros virão os Francezes 
rebellarem-se contra o seu ingénuo e legitimo Monarcha com mais fúria 
e crueldade , que nunca povo algum praticou contra o mais illegal usur- 
pador , ou contra o mais sanguinário Tyranno, Elles atirarão com a mais 
vil traição contra a mesma generosa máo, que lhes prodigalisava graças, 
favores , e immunidades. 

Tudo isto foi desnaturado , mas o resto estava na ordem. Elles achá- 
r£o o seu castigo no complemento dos próprios desvarios. Leis transtor- 
nadas ; Tribunaes subvertidos; industria sem vigor; commercio expirante; 
renda publica abatida; o povo mais indigente; a Igreja espoliada; o Es- 
tado sem allivio ; todas as cousas divinas e humanas sacrificadas ao idolo 
do Credito Publico ; e com tudo a bancarrota nacional verificou-se ; c , 
para coroar tudo , vans seguranças do papelmoeda , que intitularão Assi- 
gnados , destinadas a sustentar o novo, precário, e vacilante poder, náo 
sendo senão desacreditadas garantias da fraude empobrecida , e da rapina 
mendicante, se constituirão o dinheiro corrente, em lugar das duas reco- 
nhecidas espécies de numerário, (oiro e prata) que representáo o durá- 
vel convencional credito do Género Humano , as quaes desapp2recêráo e 
se esconderão na terra donde vieráo , ao mesmo tempo que o principio da 
propriedade , de que eílas são creaturas , e representantes , foi systemati- 
camente pervertido. 

Na Assemblea Nacional da França , ainda que houvessem algumas 
pessoas de alto nome , e de brilhantes talentos , não se achou huma sò 
que tivesse assas experiência prática de negócios de Estado. Os melhores 
Vogaes apenas eráo homens de theoria. Em taes corporações , os cabeças 
que dirigem os collegas, são também guiados em seu turno por estes. Por 
mais altos que sejáo os seus conhecimentos , he forçoso que conformem 
as suas propostas ao gosto, talento, e procedimento daquelles a quem di- 

B i 



rigem : e por tanto , se a companhia he composta em grande parte de 
viciosos , e fracos , só hum supremo gráo de virtude , que raras 
vezes apparece no mundo (epor essa razão náo pode entrar em calculo ) 
he capaz de fazer, que os homens de génio, espalhados na geral massa, 
deixem de ser os instrumentos dos mais absurdos projectos. Se porém (o 
que he mais natural) em vez deterem hum gráo de virtude n!ém do ordi- 
nário, forem agitados de sinistra ambição, "e lascivo desejo de gloria me- 
retrícia, então a parte fraca de tal corporação vem por fim a ser o instru- 
mento de seus desígnios. Neste trafico politico , os cabeças serão tão obri- 
gados a curvar-se á ignorância dos seus sequazes, como estes a servirem 
aos peiores desígnios de seus directores. 

Para segurar pois algum gráo de sobriedade nas propostas feitas pe- 
los que tomão o ascendente nas deliberações da Assemblea publica , he 
necessário que respeitem , e que em algum gráo ternáo aquelles , a quem 
encarainháo , e dão impulso nas obras. Ora nenhuma cousa pôde segurar 
hum firme e moderado procedimento em taes Assembleas , senão o ser .o 
seu corpo respeitavelrnente composto de muicas pessoas, que em condição 
de vida , permanente propriedade , e nobreza de educação , tenháo adqui- 
rido hábitos que alarguem e liberalizem o entendimento. 

Porém a Assemblea Nacional da França foi composta , não de Ma- 
gistrados distinctos , que já tivessem dado a seu p^iz penhores de scierv 
cia , prudência , e integridade ; náo de Advogados avantajados , que tives- 
sem sido a gloria do Foro ; não de Professores famosos das Universida- 
des y mas na maior parte se encheo de multidão de membros inferiores 
illiteratos , e até de mechanicos , meros intrumentos passivos na mão doa 
Collegas de superior capacidade ; escuros Advogados de província ; Pro- 
curadores e Escrivães, e mais trem de gente que sempre viveo de trapa» 
ças , e da pequena guerra de demandas de vilias. Onde quer que se en- 
tregue a authoridade suprema a hum Corpo assim composto , hão de se 
experimentar os effehos de se confiar tão sagrado poder a pessoas , que não 
tem sido ensinadas habitualmente a respeitar a si mesmas , e que náo são 
dotadas de prévia fortuna que lhes dê' caracter qne sustentem, náo se pó* 
àe esperar, que manejem com moderação, ou conduzio com discernimen- 
to, hum poder, que elles mesmos, mais ainda do que quaesquer outras 
pessoas , se admiráo de achar entre as próprias mios. 

Quem se poderia lisongear , que taes pessoas , vendo-se de repente 
arrancadas dos mais humildes gráos de subordinação , ' não se infatuassem 
com a sua grandeza náo preparada ? Quem conceberia que homens , que 
são habitualmente intrometidos, ousados, subtis, activos , de disposição 
contenciosa , e de espiritas inquietos , tornariáo a cahir de boa vontade 
em sua antiga condição de viverem de huma laboriosa , baixa , e pouco 
lucrativa trapaça ? Quem duvidaria , que elles náo promovessem á custa 
do Estado, de que nada entendem, os próprios interesses, de que erão 
tio conhecedores ? O successo pois náo era contingente, mas necessário, 
e fundado em a natureza das cousas. Havião de certo fazer huma Consti- 
tuição litigiosa, que abrisse o campo de innumeraveis disputas lucrativas,, 
infalliveis consequências de todas as grandes e violentas transmutações da 



propriedade. Como se poderia esperar que consultassem a estabilidade 
da propriedade pessoas, cuja existência tinha sempre dependido de tudo 
que faz a propriedade controversa, ambígua, e náo segura? 

Nem estes homens podiáo ser moderados e reprimidos por pessoas 
de mais circunspectos espíritos, e mais elevadas intelligencias. Pois muitos 
dos membros da Assemblea até eráo camponeses e paizanos , que náo 
sabiáo ler nem escrever ; e muito maior numero eráo negociantes , que , 
posto sejáo ás vezes mais instruídos que as outras classes inferiores , e 
muitos fossem conspícuos na ordem da sociedade , com tudo náo conhe- 
cem cousa alguma além do seu escritório. Também haviáo membros da 
Faculdade de Medicina. Mas os leitos dos doentes náo são Academias 
para formar Estadistas, e Legisladores. Entrarão igualmente capitalistas , 
que antes trata vão em compras de fundos públicos , e que naturalmente 
seriáo mui cuidadosos de trocar a sua riqueza ideal de papel-moeda em 
mais solida substancia da terra. Haviáo finalmente outras classes de pes- 
soas da mesma estofa , náo habituadas a sentimentos de dignidade , e mais 
próprias a serem instrumentos que obstáculos de Cabalas. Com táo pe- 
rigosa desproporção de pessoas desta qualidade a respeito das que podiáo 
bem servir o Estado obrando por espirito publico , a desordem era 
inevitável. 

- A Camará dos Communs de Inglaterra , sem fechar as^ portas a» me- 
recimento algum de qualquer classe, he cheia, por operações de adequa- 
das causas , com toda a gente que o paiz pôde dar illustre em ordem, 
em prosápia , em hereditária e adquirida opulência , em talentos cultiva- 
dos, e em toda a espécie de distincçáo militar, civil, naval, e politica; 
Se ella fosse composta da miscelânea da Assemblea Franceza , poderia o 
domínio da trapaça ser tolerada com paciência , ou ainda concebido sem 
horror ? 

Praza a Deos que eu não insinue cousa alguma que derogue a pro- 
fissão da Jurisprudência, que vem a ser como outro Sacerdócio, que ad- 
ministra os direitos da sagrada justiça. Mas a sua exeellencia , quanto ao 
exercício de suas funeçóes privativas , náo lhe dá qualificação para as de 
diverso objecto. Os seus Professores são bons e úteis para entrarem em 
Composição dos Corpos públicos; mas são maléficos, se proponderáo de 
modo , que constituáo o total deiles. Não pôde escapar . á observação de 
pessoas de senso , que, quando os jurisconsu^os estão mui restrictos aos há- 
bitos de sua faculdade, e, por assim dizer, inveterados em empregos de 
curto circulo, íicáo inhabilitados a qualquer Officio , que requer conheci- 
mento do género humano , e experiência de negócios grandes , complica- 
dos , e comprehensivos de interesses internos e exiernos da Nação , que 
servem a organisar obra táo complexa , como he a Constituição do Es* 
tado. 

Por isso a Assemblea Franceza, destruindo todas as Ordens do Esta- 
do, náo foi retida em seus actos, nem por Leis fundamentaes , nem por 
convenção de direito estreito , nem por algum respeitado uso. Nada no 
Ceo e na terra podia servir para os enfrear nas suas resoluções. Os néscios 
se pnçipitão a correr onde os Anjos temem passar, Em tal estado de hum 



(»4) 



poder [Ilimitado , 
quasi 



moral 



e para propósitos indefinidos e indefiníveis , o mal da 
física ineptidão dos homens para as funções de tal Cor- 
po devia ser o maior , que se póJe conceber nos negócios humanos. 

As revoluções das guerras civis de Inglaterra no iempo de Cromwell 
e da França no tempo dos Guises , Condes , e Colignis , ainda que cheias 
de matanças, todavia náo assassinarão também o espirito do oaiz. A con- 
sciência da dignidade nacional, o nobre orgulho , e o senso 'de- generosa 
emulação , náo se extinguirão. Continuarão a existir os orgáos do Estado 
ainda que convulsos. Permanecerão todos os prémios da honra e virtude' 
Mas a presente confusão , semelhante á paralysia , atacou até a mesma' 
fonte da vida. Os que sobreviverem ás actuaes desordens , náo experimen- 
tarão sensação de vida, excepto na mortificada e humilhada indignação. A 
geração seguinte será composta de jogadores, usurários, e judaizantes. 

Os que tentão nivellar as classes dos indivíduos , jamais as iguaiizáo. 
ism todas as Sociedades , compostas de varias descripçóes de pessoas , al- 
gumas sempre serão superiores , e preeminentes. Os niveíladores pois só 
mudao e pervertem a natural ordem das cousas : elles sobrecarregáo o edi- 
fício da Sociedade , pondo nos ares o que a solidez da esrructura requer 
que esteja no chão. Associações de officiaes mecânicos náo podem ser ade- 
quadas as situações altas do Estado, em que, se intenção collocallos , pe- 
la peior de todas as usurpações , a usurpação das prerogativas da natura- 
za» 

O Chanceller da França na abertura dos Estados Geraes , em tom de 
ílorida figura Rhetoriea disse, que todas as profissões erão honradas. Se 
queria nisso dizer, que nenhum emprego honesto he ignominioso aquém 
o exerce, náo iria fora da verdade. Mas dizer, que cada emprego he em- 
prego de honra, he dizer que elle tem em si alguma- distineçáo. Ora náo he 
menos certo , que v. g. o officío de cabelleireiro , ou de fabricante de ve- 
ias de sebo, náo traz honra e distineçáo a pessoa alguma. Os outros em- 
pregos mais ou menos baixos, e servis, estão em igual caso. Sem duvi- 
da as pessoas que os exercem náo devem soffrer oppressáo do Estado; 
mas o Estado soffreria oppressão , se se tolerasse que taes pessoas tives- 
sem parte no governo. Nisto náo combatemos prejuizo algum : os que 
dizem o contrario , fazem guerra á natureza. 

.O Livro do Ecclesiasrico ensina admiravelmente no cap. 58. A sabe- 
doria do escritor vem no tempo do descanço; e sd pode ser sábio, quem não 
he obrigado a fazer trabalhos duros para ganhar sua vida. Que sabedoria 
pode ter o lavrador , que tem sempre a relha do arado na mão, e só falia 
em bois , novilhos , e gordura de vaccas í Assim he o oleiro , e todos os 
mais artistas , sem os quaes não ha cidade. Sendo peritos na sua arte, 
são attendiveis no que pertence a obra delia. Mas não serão convocados 
para Deliberações de interesse publico, nem se assentarão na Cadeira do 
Juiz etc, 

Náo se imagine que desejo monopolisar o poder , authoridade , e di- 
siincçáo, úo somente para vantagem da Natureza de sangue, nomes , e 
títulos. Náo ha qualificação para o governo senão Virtude , e Sabedoria , 
actual } ou prçsumptiva. Achando-se estas qualidades em qualquer estado, 




CO 

condição, profissão, ou modo de vida , os que as possuem tem passa* 
porte do Ceo para lugares de honra humana. Ai do paiz , que, fátua, e 
impiamente, rejeitasse o serviço dos talentos , e virtudes civis, e religiosas, 
que lhe sáo dadas para ornar e aproveitar o mesmo paiz , e que conde- 
mnasse á obscuridade qualquer habilidade destinada a espargir lustre e glo- 
ria em torno do Estado! Mas também ai do paiz, que, passando ao ex- 
tremo opposto , considerasse a educação baixa , que só dá mui estreita vis- 
ta das cousas , e as occupaçóes sórdidas , e mercenárias , como títulos pre- 
feríveis para governo das Nações. Todos os caminhos ás honras do Esta- 
do devem ser abertos ; mas todos os postos náo devem ser indifferentes 
a cada pessoa. Náo he isto dizer , que a estrada á eminência e poder no " 
Estado deva ser feita muiío fácil , nem mui trivial. Se o merecimento ra- 
ro he a mais* rara de todas as cousas, elle deve passar por huma sorte de 
prova. O templo da honra deve ser estabelecido em o cume de monte al- 
cantilado. Se deve ser accessivel á Virtude, devemo-nos lembrar , que a 
Virtude náo he jamais bem experimentada , senão com bastante dificul- 
dade , e algum combate. 

Nenhuma cousa he tão devida e adequada representação do Estado , 
como a habilidade dos indivíduos que .o compõe , e a sua propriedade* 
Mas como a habilidade he hum principio vigoroso e activo, e a proprie- 
dade hum principio bronco, inerte, e timido , a propriedade náo pôde 
ser segura das invasões da habilidade , sem que no calculo das proporções, 
ella predomine na dita representação. Ella ou deve ser representada exu- 
berantemente nas grandes massas de accumulaçáo de bens, ou, do contra- 
rio , náo será realmente protegida. 

A característica essência da propriedade , formada dos combinados prin- 
cípios de sua adquisiçáo , e conservação , he o ser desigual. As grandes 
massas pois de propriedade que excitão a inveja, e tentáo a rapacidade, 
devem ser postas fora da possibilidade de perigo. Então ellas formão o 
natural baluarte em roda das menores propriedades , em todas as suas gra- 
duações. A mesma quantidade de propriedade, que, pelo curso natural 
das cousas, he dividida entre muitos, náo tem a mesma operação. O seu 
poder defensivo se enfraquece, á medida que se dirTunde. Nesta diffusáo , 
a porção de cada pessoa he menos do que, no fervor de seus desejos, 
se poderia iisongear de obter dissipando as accumuíaçoes das outras pesso- 
as. O roubo de poucos daria insignificante partilha na distribuição feita a 
muitos. Porém o groso do povo náo he capaz de fazer este calculo ; e os 
que conduzem á rapina , jamais intentão fazer, essa distribuição. 

A liberdade civil náo se pôde julgar perfeita , onde a propriedade náo 
está segura. O poder de perpetuar a nossa propriedade em as nossas famí- 
lias, he huma das mais preciosas e interessames circunstancias, que lhes 
pertencem , e que mais tende a perpetuar a sociedade civil. Elle faz que a 
nossa fraqueza sirva á nossa virtude, e até enxerta a- benevolência na ava- 
reza. Os possuidores de riqueza de família, e a distincçáo , que acompa- 
nha a posse hereditária de bens , e titulos de avós , são as naturaes segu- 
ranças para o seu trespasso aos descendentes. A nossa Camará dos Pares 
he formada sobre este principio: ella he toda composta de propriedade 9 e 



C iO 

distlncçao hereditária; e constitue a terça parte do Corpo Legislativo; e^ 
em ultima instancia s he o* único juiz de toda a propriedade, em todas as 
suas subdivisões. Também a Camará dos Communs , ainda que náo neces- 
sariamente , com tudo , de facto , he sempre composta , na, maior parte , 
de homens de propriedade. Quanto maior he o numero destes ( e natural- 
mente devem ser os melhores desta classe) tanto melhor formão o lastro 
da Náo do Estado. Sim a riqueza herediraria , e a nobreza que delia pro- 
vém , he mui idolatrada por servis sycophantas , cegos e abjectos admira- 
dores do poder ; mas também he temer ariamen te desprezada nas superficiaes 
especulações de petulantes , e orgulhosos paraívilhos da falsa philosophia, 
Dar-se ao nascimeríto nobre alguma decente e regulada preeminência , e al- 
guma preferencia ( náo privilegio exclusivo ás honras do Estado ) náo he 
desnaturai, nem injusto, nem, impoiitico. 

Tem-se dito, que o interesse de milhões de pessoas, de que se compõe 
huma Nação, deve prevalecer ao de poucos milhares, que fórmáo o nu- 
mero de seus nobres e ricos. Isto seria verdade, se a Constituição dos Es- 
tados fosse hum problema de Arithmetica : mas tal discurso he ridiculo. 
para pessoas que discorrem com acerto. A vontade de muitos , e o seu in- 
teresse , podem ser cousas mui distinctas. Hum governo politico , que náo 
se funda principalmente no grande interesse da propriedade , está fora da 
natureza das cousas. Como, pela nova Constituição, feita por escuros pro- 
curadores, e parochos de província, de envolta com huma dúzia de no* 
bres descontentes , e desertores da sua ordem , a propriedade náo sérvio 
de governo ao paiz , a obvia consequência foi ser destruída a propriedade , 
sem a qual todavia não pôde existir liberdade racional. Quando a Assem* 
fclea Nacional , composta daquella gente, deo por acabada a suacbra, com- 
pletou a rui na do paiz. 

Em váo se falia a ambiciosos e anarchistas sobre a pratica dos nossos 
antepassados, íeis fundamentaes do paiz, e fixa forma de Constituição, 
cujo merecimento aliás se confirma pelo solido critério de longa experiên- 
cia e progressiva prosperidade publica. Elles desprezâo a experiência , co- 
mo sabedoria de homens não letrados ; e com suas visionarias theorias preparáo 
a mina , quejdeve fazer estourar com huma grande explosão todos os exem- 
plos de antiguidade, arestos, e diplomas públicos. Reconhecem que os 
tempos dessa explosão serão calamitosos. Mae dizem , que a convulsão 
no mundo politico náo he objecto digno de lamentação , havendo de ser 
seguida por tão benéfico efTeito , qual he o de se estabelecer na terra o 
Código dos Direitos do Homem. Eis como esta casta de gente se prepara 
a ver com firmes olhos as maiores calamidades que possáo sobrevir a seu 
paiz ! 

Devem-se distingir os reaes direitos do homem dos falsos direitos que 
os enthusiastas revolucionários vagamente inculcarão. Estes direitos espuri-* 
os só servem a destruir inteiramente aquelles direitos genuínos. 

Como a Sociedade Civil he feita para vantagem âo homem , todas 
•as vantagens, para ter as quaes se estabelece a Sociedade, vem a ser o seu 
verdadeiro direito. A Sociedade he huma instituição de beneficência s e a 
Lei Civil náo he mais que a beneficência publica 5 declarada em regra po« 



C'7) 
sírivâ. Os homens tem direito a viver por esta re^ra. Por tanto tem direi- 
to a que se lhe faça justiça, como vivendo entre Concidadãos , quer obrem 
em função politica, quer em seus ordinários negócios. Elles tem "direito ao 
fructo da sua industria, e aos meios de fazer esta industria fructifera. El- 
les tem direito á herança dos bens de seus pais , á sustentação , e educa- 
ção de seus filhos , á instrucçáo na vida , e consolação na morre. Tem 
direito de fazer para si separadamente tudo aquillo que lhes he possível 
fazer sem offensa do direito dos outros. Tem direito a huma equitativa par- 
tilha dos bens da Sociedade, que esta he capaz de fazer em favor de ca- 
da individuo com todas as suas combinações de sabedoria e força. Nesta 
companhia , todos os homens tem iguaes direitos , mas náo a quaesquer 
cousas. O que só entrou com cinco shellings para huma companhia , tem 
táo igual direito á partilha dos lucros da sua entrada , corno o que entrou 
com quinhentos shellinp o tem para maior porção , proporcional á maio- 
ria de seu capital. Mas náo tem direito a igual dividendo no produeto do 
fundo unido da Sociedade. Quanto porém a terem todos também partilha 
de poder , authoridade , e direcção de cada individuo no governo do Es- 
tado , nego que jamais fossem esses os originaes direitos do homem em 
qualquer Sociedade civil , pois contemplo o homem social , e náo o ho- 
mem natural. 

Hum dos primeiros motivos da Sociedade civil , e que pertence a's 
«uas regras fundamentaes , he que nenhum homem seja juiz na própria 
causa. Por esta regra , toda a pessoa se priva do primeiro fundamental di- 
reito de cada homem, antes que entrasse em Sociedade civil por contrato, 
isto he , do direito que tinha de julgar na própria causa , e ser por si mes- 
mo o vingador do seu direito. Elle abdica inteiramente este direito á pes- 
soa a quem se entregou o governo. Elle are em grande parte abandona o 
direito natural- da defeza própria, que alias se funda na primitiva lei da 
natureza. 

Os homens nSo podem ao mesmo tempo gozar dos direitos do estado 
sáJvagem , e do civilisado. Para que possa cada individuo na Sociedade ci- 
vil alcançar justiça , deve renunciar ao direito de decidir o que lhe he em 
certos pontos o mais essencial. Para segurar alguma liberdade racionavel , 
deve render á discrição o total dos direitos, que antes tinha, e nos qua^s 
entrava também a liberdade de mal fazer , e de pôr em perigo a existên- 
cia , e commodidade dos outros, 

O Governo náo he feito em virtude de direitos naturaes , que pos- 
sáo existir com absoluta independência do mesmo governo. Abstracta per- 
feição de taes direitos vem a ser o seu defeito prático. Os homens no es- 
tado salvagem , por terem illimitado direito a todas as cousas , vem a ter 
falta de tudo. O Governo he huma especulação da sabedoria humana , pa- 
ra providenciar ás precisões dos homens. Os homens tem direito a que a 
sabedoria do Governo proveja a estas precisões. Entre estas precisões de- 
ve-se contar por huma principal , o haver huma forma de Sociedade civil , 
com sufHciente restricçáo sobre as paixões dos homens. A Sociedade re- 
quer , náo só que as paixões dos indivíduos sejáo sujeitas a alguma autho- 
ridade que as reprima ; mas também, que, no corpo do povo, as incli- 

C 



( '8) 
tiaçóes dos homens sejão frequentemente encontradas , e que a sua vonta- 
de seja em justos lermos restricra. Isto só se pode fazer por hum poder 
que esteja fora delles , e que , no exercido de suas funções, náo seja su- 
jeito á vontade, e ás paixões do povo ; visto que o oíficio do Governo 
eonsiste em impor-lhes o devido freio e jugo. Neste sentido , náo só as li- 
berdades dos homens j mas também as resrricções delias, se devem contar 
entre os seus direitos. Mas estas liberdades , e suas restricções , variáo com 
os tempos e circumstancias , e admirrem infinitas modificações. Portanto ci- 
las náo se podem estabelecer por abstractas regras. 

Desde o momento que se rebate alguma cousa dos plenos direitos do 
homem doestado salvagem , isto he , desde que cedeo do direito , que ti- 
nha de se governar por si só , e soffreo alguma limitação desse direito, 
logo a organização do governo vem a ser Consideração de Conveniência, 
Isto he o que faz a Constituição do Estado , e a devida distribuição dos 
seus poderes , hum objecto da mais melindrosa , e complicada" sabedoria. 
Ella requer profundo conhecimento da natureza humana , das necessidades 
sociaes , e das cousas que facilitáo ou obstruem os vários fins que convém 
se procurem pelas instituições civis. O Estado deve ter sempre em si hum 
fundo de força , vida , e remédio , para as próprias enfermidades. Quan- 
do hum Estado fraco , e doente carece de mantença , e medicina, o merho- 
do de lhe procurar , e administrar sustento , e curativo náo he fazer ab- 
stractas discussões dos direitos do homem. Na deliberação dosrnelhores meios 
de lhe dar vida, e saúde, deve-se ames consultar ao lavrador, do que ao 
professor de metafísica 

A sciencia de construir hum Estado , ou de reformallo , e renovai- 
lo, he como toda outra Sciencia experimental , que náo se ensina à prio- 
ri. (*) Nem huma limitada experiência nos pôde instruir em cousas de 
sciencia prática ; pois que os reates effeitos das causas moraes náo ?áo sem- 
pre immediatos. A's vezes o que na primeira instancia he prejudicial , po- 
de ser excellente em huma operação mais remota. Até a sua excellencia 
pode originar-se dos máos eíTeitos que ao principio produzio. A's vezes 
acontece ©contrario; pois tem-se visto planos mui plausíveis, e com prin- 
cípios mui brilhantes, que depois tiverlo mui vergonhosos, e lamentáveis 
êxitos. Nos Estados ha muitas vezes algumas escuras , e quasi escondidas 
eausas , de que depende grande parte das prosperidades, ou adversidades das 
Nações , que alias consistem em cousas á primeira vista de pouco momento. 

Sendo pois a sciencia do governo em si mesma huma sciencia práti- 
ca , e destinada para cousas práticas , ella vem a ser matéria que requer 
muita cautela , e experiência , e mais experiência do que huma pessoa pô- 
de ganhar em longa vida. Homens de Estado de grande sagacidade jámais- 
se aventuráo a derribar hum Edifício Politico , que por séculos se susten- 
tou , enchendo os ordinários objectos da Sociedade ; nem a edificar hum de 
novo , sem ter ante os olhos modelos , e padrões de approvada utilidade. 



( * ) Isto he , só pelas causas originaes , e por abstractos princípios de analysa 
metafísica , não combinados com observações práticas do modo de viverem os ho- 
mens na sociedade. 



O») 

Os direitos metafysicos dos homens, entrando n.1 vida commum, sío 
eomo os raios de luz , que , penetrando hum meio denso , logo , pelas 
leis da natureza, se refrangem de sua linha recta. Na verdade, na grossa, 
e complicada massa das paixões , e interesses dos homens , os seus primi- 
tivos direitos experimentáo muita variedade de refracções , e reflexões j e 
seria absurdo fallar delles , como se continuassem na simplicidade da sua 
original direcção. A natureza do homem he intrincada : os objectos da So- 
ciedade são da maior possivel complicação ; e portanto nenhuma disposição 
simples de poder politico pôde ser conforme á natureza do homem , ou á 
qualidade dos seus negoeios. 

Quando ouço fallar da jactanciosa ostentação de simplicidade da idéa 
na formatura de novas Constituições politicas, vejo logo quanto os pre- 
sumidos artífices são grosseiramente ignorantes da sua arte , ou do seu dever. 

Governos simpleces sáo fundamentalmente defeituosos , a não dizer peior 
cousa. Contempíando-se a Sociedade somente em hum ponto de vista, os 
modos simpleces de regime encantão o espirito. Custa mais a perceber o to- 
do de huma máquina que tem partes mui complexas. Porém he melhor 
que o todo delia tenha huma ordem que satisfaça soffrivelmente ao seu fim, 
do que ter algumas partes muito exactas , quando alias outras sáo desat- 
tendidas , ou substancialmente prejudicadas , só para se dar o principal cui- 
dado a algum dos seus membros componentes. 

Os pertendidos direitos dos homens dos theoristas visionários são to* 
dos extremos ; e , em proporção que são metafysicamente verdadeiros , 
vem a ser moral , e politicamente falsos. Os sólidos direitos do homem 
estão em burna sorte de meio, incapaz de definição, mas não impossível 
de se discernir. 

Os direitos do homem no governo são as suas vantagens •, e estas mui«; 
tas vezes consistem nas balanças entre as dirTerenças de bem ; e algumas 
vezes nos compromissos entre o bem , e o mai ; e outras vezes entre mal , 
e mal. Razão politica he hum principio calculador , que faz conta de som- 
mar , diminuir, multiplicar, e repartir, pelos verdadeiros denominadores 
moraes , e não por analyses metafysicas , e raaihematicas. 

Os anarquistas confundem o direito do povo com o seu poder. E co- 
mo o direito , e poder não sáo as mesmas cousas , em quanto elles se não 
unem , deve-se dizer , que o povo não tem direito que seja imcompativel 
com a virtude , e com a primeira das virtudes , a prudência. Mas , onde 
o povo he dirigido por cabeças de homens mal intencionados, que até ri- 
ciiculisáo a humanidade , e compaixão , como fruetos da superstição , e 
ignorância , e a ternura dos indivíduos se interpreta por traição ao publi- 
co j nada he mais contra o direito, do que dar ao povo, a quem se in- 
spiráo taes sentimentos , o poder de turbar a ordem civil. 

Por isro na chamada Assembléa Nacional nunca houve cor de impé- 
rio . nem face alguma de Senado. O seu poder foi como o do principio mão 
dos Maniquêos , só próprio a subverter, e destruir, e náo para edificar, 
e compor, excepto máquinas infernaes, para inteira subversão, e destrui- 
ção do Estado, 

Influido por innatos sentimentos da minha Constituição , e não sendo 

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C 20) 

illuminado pelo menor raio da nova fonte de luzes da Revolução France- 
za , a exaltada dignidade das Pessoas Reaes, que soffrêrão por ella, (con- 
siderando particularmente p Rei da França j hum Soberano táo bom , e a 
sua Rainha huma Senhora de tanta belleza , e amáveis qualidades , descen- 
dente de tantos Reis , e Imperadores ) a tenra idade de seus Reaes Filhi- 
nhos, e os infortúnios destas Augustas Pessoas , em lugar de me serem 
objectos de exultaçlo, dão mortal agonia á minha sensibilidade, vendo im- 
punes os triumfos do crime. Ha quasi 17 annos que vi aquella Prince- 
za em Versailles. Por sua mimosa delicadeza , mal parecia tocar este Orbe 
na deliciosa visão , em que me pareceo como surgindo sobre o horisonte , 
aformoseando., e fazendo luzir a esfera sobre que principiava a mover-se, 
scintilando como a estrella da madrugada , cheia de vida , esplendor , e ale- 
gria. Oh que revolução ! Que coração poderá contemplar sem estremecer 
aquella elevação , e esta queda ! Não me podia entáo jamais vir ao pen- 
samento , nem por sonho , que , ao mesmo tempo que ella accrescentava 
titulos de veneração aos do enthusiastico , distante , e respeitoso amor do 
povo , seria obrigada a trazer forte antídoto contra a desgraça occulta enu 
suas entranhas ; e que eu teria vivido para ver suas desventuras , sobre- 
vindas a huma Belleza da parte de huma Nação de amantes , e de Nação 
de homens de honra , e Cavalleiros ? Penso que em outro tempo dez mil 
espadas saltariáo das bainhas , para vingar hum só golpe de vista que a amea- 
çasse de insulto. Mas já se foi a idade da cnvalleria. ( * ) , e succedeo em 
seu lugar a de solistas , e calculadores : assim a gloria da Europa extin- 
guio-se para sempre. Nunca mais veremos a generosa lealdade de todas as 
ordens , e de todos os sexos , nem a briosa submissão ao Soberano , nem 
a obediência cheia de dignidade , e a cândida subordinação de coração , que 
tinha sempre vivo , ainda na mesma servidão , o espirito da exaltada liber- 
dade. Acabou-se a inestimável graça da vida , a barata defeza das Na- 
ções , a mãi de varonis sentimentos , e emprezas heróicas. Extinguio-se a 
sensibilidade de principio , e a castidade de honra, que sente qualquer nó- 
doa nella como huma mortal ferida , e que inspira coragem , ao mesmo 
tempo que mitiga a ferocidade , ennobrecendo tudo que toca , e debaixo de 
cuja influencia aié o vicio perde a metade de seu mal , perdendo a sua 
grosseria. 

Este systema mixto de opinião , e sentimento , teve origem na antiga 
cavalleria. Se fosse totalmente amortizado , seria mui grande perda para a 
civilisação. Elie foi o que deo caracter á moderna Europa , e que , de- 

(*) Esta passagem foi das mais motejadas pelos partidistas Francezes , ainda 
em Inglaterra. Mas ella tem grande verdade de sentimento, e de prática. A vene- 
ração ás mulheres foi caracterisada pela pena do immortal Tácito , descrevendo os 
costumes dos antigos Allemães. Suppunhão estes , no tempo em que se adoravão 
ss virtudes , e ninguém se ria dos vícios , que as mulheres tinhão em si algum* 
cousa de santo , e divino. Fazendo ellas a doçura da vida social , e sendo o depo- 
sito da posteridade , o valor que dá aos homens o seu timbre de reverenciarem , e 
protegerem o bello sexo t he o maior baluarte dos Estados , e com razão 4 consume 
© que Burke chama barata defeza das JNaçées< 



( « ) 

baixo das suasdifferentes formas de governo, a distinguio , com muita! 
vantagens , dos Estados d'Asia , e talvez dos Estados que fiorecêráo nos 
mais brilhantes períodos do mundo. Elle foi © que, sem confundir as or- 
dens do Estado, produzio huma nobre igualdade, <]ue de mão a máo des- 
cia pelas varias graduações da vida social. Esta opinião foi a que adoça- 
va os Reis , até o pomo de serem nossos companheiros ; e elevava os 
homens particulares até serem amigos dos Reis. Sem força , nem opposi- 
çáo , ella subjugou a altivez, do orgulho, e poder ; ella obrigou os Sobera- 
nos a submetterem-se ao suave collar da estima civil , e compellio a sua 
dura authoridade a submetter-se á elegância ; e fez que a dominação , que 
vence as leis , fosse subjugada pelas boas maneiras. 

Mas tudo agora está mudado. Todas as appraziveis illusões , que fa-; 
zem o poder doce , e a obediência liberai , que enlaçáo as difierentes 
sombras da vida , e que , incorporáo na politica os sentimentos que embel-' 
iezáo , e suavisáo a sociedade particular , vão a ser dissolvidas pelo novo 
conquistador do império da luz , e da razão. Todas essas innocentes idéas as- 
sociadas , que formaváo a guarda roupa da nossa imaginação moral , que o 
coração confessa, e o entendimento ratifica , e que slo necessárias a cobrir 
os defeitos da nossa nua , e depravada natureza , e elevaila á dignidade 
em a nossa própria estimação , vão a ser exterminadas , como ridículas , 
absurdas , e antiquadas modas. 

No systema dos revolucionários, hum Rei, ainda que legitimo , nao 
he senão hum homem , e huma Rainha senão huma mulher ; e huma mu- 
lher não he mais que hum animal , e não da mais alta ordem. Toda a 
homenagem prestada ao bello sexo he por elles havida como romance, e 
loucura. Regicídio, Parricidio, Sacrilégio, são para taes Juizes meras fic- 
ções éi superstição , que corrompe a jurisprudência destruindo a sua sim- 
plicidade. O assassinato de hum Rei , ou Rainha , de hum Bispo , ou Pai , 
não he para tal gente senáo homicídio commum ; e se o povo tem nisso 
ganho , vem a ser hum homicídio perdoável , e para o qual se não deve 
tirar severa devassa. 

No plano desta barbara filosofia , que he a filha de corações enregela- 
dos , e immundos entendimentos, tão vazios de solida sabedoria , como des- 
tituídos de todo o gosto , e elegância , as leis devem ser unicamente sus- 
tentadas pelos seus próprios terrores , e pelo interesse que cada individuo 
pode ter nellas. Nos Tribunaes sombrios de suas Academias , no fim de 
cada vistos estes autos, ninguém vê senáo a forca. Nada mais se deixa ver que 
empenhe as nossas affeiçóes ao Estado. Nos princípios dessa negra theo- 
ria, as nossa5 instituições , não se podem (por assim dizer) incorporar em 
pessoas , em modo que hajáo de criar em nós amor , veneração , admira- 
ção , e afíerro ao governo. Toda a sorte de razão , que extermina as boas 
inclinações, não he incapaz de encher o seu lugar. As affeiçóes públicas, 
combinadas com as maneiras polidas, são humas vezes supplementos, ou- 
tras vezes correctivos, e sempre os auxiliares das Leis. Deve haver emca» 
da Nação hum systema de maneiras doces , que todo o espirito bem for- 
mado he disposto a gostar. Para fazer amar o nosso paiz , he preciso fa- 
zello amável. Heimpossivei existir em huma Nação polidas maneiras, on*> 



) 
■: 



( *» 5 

efe o insulto a seus Príncipes naturaes , e ao venerável corpo de seus No- 
bres , não he olhado com horror , e antes vem a ser objecto de exulta- 
çáo , e triumfo. 

Os Poetas Dramáticos , que tem no theatro espectadores não gradua- 
dos na moderna escola Franceza dos direitos do homem , e que só estuda- 
rão a Constituição do coração Humano , não fariáo representar a prizão , 
e eondemnaçáo de hum bom Rei s como objecto de alegria. Onde os homens 
seguem os naturaes impulsos , elles não podem supportar as odiosas má- 
ximas da Politica Maehiavellica , quer applicadas á tyrannia monárquica , 
quer á tyrannia democrática. Todo o mundo rejeitaria , na antiga^ ou mo- 
derna scena , ainda só ahypothetica proposição de taes sentimentos na bo- 
ca de hum Actor, que qmzesse desempenhar ocaracter de hum tal Déspo- 
ta , ou demagogo despótico» Nos espectáculos de Athenas seria execrado 
o que pezasse na balança os crimes da democracia , contra pezando-os aos 
da monarquia , declarando que a vantagem estava da parte do governo do 
povo» Os políticos da revolução Franceza ainda acháo que a democracia 
está em dívida , e que náo pôde pagar o saldo da conta. Elles exultáo no 
infortúnio de Luiz XVI. , a quem chamavão Monarca arbitrário , e isto 
( nem mais nem menos ) senão porque teve a desgraça de nascer Rei da 
França, com as prerogativas que lhe forão transmiuidas por huma linha 
de antepassados , e longa acceitação do povo , sem da sua parte ter feito 
algum acto para se apoderar da Dignidade Real. Mas o infortúnio náo he 
crime , e nem ainda a indiscrição he sempre culpa. Náo merecia senão 
amor, e culto hum Príncipe, cujos actos em todo o seu Reino só foráo 
huma serie de concessões a seus vassailos ; que estava prompto a moderar 
a sua authoridade, e diminuir algumas prerogativas, dando ao povo liber- 
dades, que seus antepassados náo conhecerão, nem talvez desejarão. Elle 
foi apenas sujeito ás fragilidades annexas aos homens , e aos Príncipes ; e 
só huma vez considerou necessário recprrer á força contra os desespera- 
dos desígnios de conspiradores contra a sua pessoa. Foi a maior maligni- 
dade julgar , e condemnar a hum tal Monarca , como se fosse Nero , oa 
Carlos XI. 

Em fim algum poder de qualquer género sobrevirá ao terremoto , em 
que as boas maneiras , e opiniões perecerão; e tal poder achará outros , e 
ainda peiores meios para seu sustento. A usurpação , que , em ordem a 
subverter as antigas instituições , destruio os antigos principios , reterá o 
seu poder pelas mesmas artes com que o adquirio. Quando no espirito dos 
homens se extinguir o antigo cavalleiro espirito de lealdade , que , livran- 
do os Reis do medo, livra os Soberanos, e vassailos das precauções da 
tyrannia , verse-ha a longa lista de cruas , e sanguinárias máximas , que 
formão o Código politico de todo o poder que não se funda na própria 
honra , e na honra dos que devem obedecer. 

Quando as antigas boas opiniões, e regras da vida são destruídas , não 
se pôde calcular até onde irá essa perda. Desde este momento já náo te- 
mos compasso para nos governar. Sem dúvida a Europa, considerada no 
todo , estava em condição florente antes da revolução. Este prospero es- 
tado tinha causas que o produziáo , e sustentaváo. Nada ha roais cer- r 



:*W^ 



C,«0 

to do que o depender a nossa actual civilisação , e boas maneiras , princi- 
palmente de dous principios combinados, isto l»e , espirito de religião , e 
espirito de nobreza, O Corpo do Clero , por profissão , e o Corpo da 
Nobreza, por patriotismo, sustentaváo a litteratura , ainda no meto das 
armas, e confusão. A litteratura pagava com usura o que recebia do Cie* 
ro, e Nobreza, alargando-lhes as ideias , e illustrando-!hes os espíritos. 
Feliz seria se huns, e outros continuassem em sua indissolúvel união, e 
nos seus competentes lagares ! Feliz seria , se a sciencia , não corrompida 
pela ambição, continuasse a ser a Mestra , sem aspirar a ser a dominadora! 

Penso que a litteratura moderna deve o seu adiantamento áquelles dous 
principies , mais do que a quaesquer outras causas. Ainda o commercio, 
e as artes superiores , náo sáo talvez senão as creaturas de taes princípios. 
Sem dúvida cresceo a vasta correspondência mercantil , e a perfeição das 
manufacturas, sob a mesma sombra em que as letras florecêrão. Elles hio- 
de cahir com a queda daquelles seus principios protectores. Já com a sua 
falta estamos ameaçados de desapparecerem. Ainda que o commercio , e as 
manufacturas faltassem em hum paiz , permanecendo todavia nelle o espi- 
rito de religião , e nobreza , os naturaes sentimentos da humanidade sup- 
pririlo o lugar , e nem sempre o suppririáo mal. Porém , se se perderem 
o commercio , e as artes , entretanto que se quer experimentar se podem 
subsistir sem religião , e nobreza (que antes forão as suas antigas bases) 
que sorte de cousa se poderá achar para substituto a hurra naçáo de gros- 
seiros, estúpidos, ferozes, pobres, e sórdidos bárbaros , destituidos de prin- 
cipios de piedade, honra , timbre varonil , e, em fim , de geme que nada 
espera na vida futura ? 

Já vai apparecendo nos escritos, e actos do povo , e governo da Fran- 
ça a maior grosseria de conceito, e vulgaridade de obra. A sua liberdade 
náo he liberal : a sua sciencia he presumpçosa ignorância : a sua humani- 
dade he satvagem, e brutal. Taes espectáculos nos dão melancólicos, senti- 
mentos sobre a incerta condição da prosperidade morta! , e tremenda incon- 
stância das grandezas humanas. Assim aprendemos grandes lições. 

Em suecessos tão espantosos como temos visto, até as nossas paixões 
instruem a nossa razão ; pois , quando os Reis sáo derribados de seus 
Thronos pelo Supremo director deste grande drama , e vem a ser objecto 
de insulto aos de vis sentimentos , e de piedade aos bons , olhamos para 
taes desastres no mundo moral , como se vissemos hum transtorno na or- 
dem física. Somos logo assustados para fazer reflexão j e os nossos espíri- 
tos , com o nosso orgulhoso , e fraco entender , se humilháo debaixo das 
dispensações da mysteriosa Divina Sabedoria. Mas as lagrimas rebentão dos 
olhos , como aconteceria a cada espectador cheio de sensibilidade , se a sce- 
na se representase em hum theatro. Só espíritos pervertidos poderiáo exul- 
tar nella. 

Os Authores , e espectadores da Tragedia politica deviáo bem pezar 
os crimes da nova democracia com os do que appellidavão antigo despo- 
tismo, Elles veriáo , que , logo que se tolerão modos criminosos para ata- 
lhar este mal , esses meios sáo sempre os preferidos , com o mais curto 
caminho , e que náo haverá mais parcimonia na despesa de traição 3 e san- 



gue. Justificando-se perfídia , e assassinato para benefício público , logo 6 
beneficio público será o pretexto á perfídia, e assassinato j a<é que a rapa- 
cidade, malicia, vingança , e o medo, ainda mais mortífero que a vingan- 
ça , cheguem a fartar os insaciáveis appetites dos malvados. As consequên- 
cias serão perder-se todo o senso natural do justo , e recto no esplendor 
dos triunfos dos falsos direitos do homem. 

Tremo pela causa da verdadeira , e racionavel liberdade , á vista do 
exemplo da França. Tremo pela causa da humanidade, á visra dos ultrajes 
feitos a humaFamilia Real , pelos mais scelerados do género humano. De- 
sertores de bons princípios náo veráo bem algum na virtude sofredora , 
nem crime algum na usurpação prospera, FAles só olharáó com terror , e 
admiração para os Soberanos que souberem suster-se nos Thronos , e re- 
primirem com mão forte a^ seus vassallos , para assegurarem as suas pre- 
rogativas , defendendo se por huma vigilância sempre alerte do mais seve- 
ro Despotismo , ainda contra a menor aproximação de racionavel liberdade. 
Somos inimigos generosos ; somos alliados fiéis. Temos cadêas , quasi 
tio fortes como a Bastilha d?. França , para encarcerar os que náo sibem 
fazer bom uso de sua liberdade , e divulgarem libeiíos contra as Pessoas 
Reaes , ainda estrangeiras. De cem pessoas entre nós talvez nem huma 
participou da alegria no triunfo da Revolução Franceza. Por huma dúzia 
de capineiros do campo , que , com seus cestos de palhoça , fazem grande 
bulha na terra, ha milhares de bons lavradores, que meditáo , trabalhão , 
e comem em descanço , deixando bisourar os importunos ; e voláteis inse- 
ctos do tempo. Já ha quatrocentos annos tivemos em nossas mãos , peU 
fortuna da guerra , hum Rei , e Rainha de França , e seus filhos. Eiles 
foráo bem tratados. O nosso caracter nacional ainda náo mudou desde es-, 
se tempo ; ainda temos a boa estampa dos nossos antepassados. Náo te- 
mos perdido a generosidade , e dignidade do nosso pensar do século decimo 
quarto, nem, á força de subtilizarmos, nos tornamos salvagens. Náo so- 
mos proselytos de Rousseau , nem discípulos de Voltaire. Helvécio náo fez 
progresso entre nós. Atheos náo são nossos pregadores , nem loucos os 
nossos Legisladores. Náo temos feito descobertas na moral, ( nem creio que 
sé possáo fazer) nem também temos achado muitas nos grandes princípios 
do governo , nem nas ideias à^ liberdade , que eráo já assaz bem enten- 
didas antes que nascêssemos. Ainda náo se arrancarão as naturaes entra- 
nhas da nossa Nação. Ainda sentimos, amamos, e exercemos os inatos 
sentimentos de humanidade, e religião, que, sáo os fiéis guardas, e acti- 
vos mestres do nosso dever , e os verdadeiros apoios de toda a moralida- 
de liberai , e varonil. Ainda náo somos convertidos em estufados pássaros 
de musêo, para enchermos a nossa pelie vazia , e secca , com papeladas 
dos falsos direitos do homem. Conservamos todos os nossos sentimentos 
nativos , e inteiros , sem terem sido illudidos com pedantari3 , e infide- 
lidade. Temos real coraçáo de carne , e sangue , batendo em os nossos pei- 
tos. Tememos a Deos : olhamos com acatamento os Reis ; com affecto ao 
Parlamento i com respeito aos Magistrados ■-, com reverencia ao Clero ; com 
veneração á Nobreza. Todos os outros sentimentos sáo falsos , e espúrios, 
e tendem a corromper os nossos espíritos, viciar a sá moral primitiva r 



■ C*í 3 

c constituir-nos inhabeis para a liberdade raciona!. Os Francezes revo- 
lucionários só ensinro huma servil , licenciosa , desaforada , e insolente 
liberdade , que faz os homens perfeitamente próprios para terem bem me- 
recida escravidão por toda a vida. 

Os letrados , e poliricos Francezes , e toda a corja dos ilíuminados , 
não dáo attençáo á sabedoria dos nossos antepassados , e só tem a mais 
presumida confiança no seu próprio juizo. Para elles , b.ista ser qualquer 
cousa velha, para se julgarem com direito, e boa razão de destruilla. Quan- 
to ás suas obras novas , elles também não tem cuidado em que durem. O 
edifício foi feito á pressa j só a mudança , e náo a duração , foi o seu 
objecto. Elles , por systema, pensão, que são prejudiciaes todas as cousas 
que trazem perpetuidade, e portanto estáo em guerra étesnâ com todos os 
Êstabelecimemos. Pensão que os governos podem variar como as modas de 
vestidos j e portanto náo adoptáo principio algum de afTèc/o durável, que 
nos vincule a Consumição do Estado , só appiaudem as ideias de conve- 
niência do momento. Eiles falláo de Contrato Social , suppondo que ha hu- 
ma^ absurda espécie de convenção entre elles, e os seus 'magistrados , que 
aliás só liga aos mesmos magistrados , mas que nada tem de reciproco no 
ajuste; pois que sempre a majestade do povo tem direito de dissolvella , 
sem outra razáo mais que a sua vontade. 

Já tivemos em tempos escuros algunsi letrados , e políticos deste cali- 
bre , que fizeráo algum ruido nos seus dias ; mas hoje repousáo em per- 
petuo esquecimento. Náo haverá talvez ninguém entre nós , dos nascidos 
ha quarenta snnos a esta parte, que leia huma palavra das obras de Col- 
lins, Toland , Tindal, Chubb, Morgan, e mais Escritores da raça dos que 
se intitulaváo Livres pensadores. Qutm agora lê a Bolinbroí^ei Quem nurv- 
ca o pode ler todo? Pergunte-se aos Livreiros de Londres, que he feito 
dessas pertencidas luzes do mundo? A felicidade nacional consistio, em que 
taes Escritores náo e ão então animaes gregários, que cb assem em Corpo; 
e por isso náo tiveráo influencia alguma na Constituição, e nos Estabele- 
cimentos de Inglaterra. Se o nosso Estado tem recebido reparações, e me- 
lhoras , foi sempre debaixo dos auspícios di religião , e sempre a confir- 
marão com as suas sanções. Todo o bem emana da simplicidade do nos- 
so caracter nacional , e de huma sorte de nativa candura , e rectidão de 
entendimento , que tem caraçterisado os Estadistas do Paiz. Esta disposiçáa 
ainda permanece no principal Corpo do povo. 

Conhecemos , e (o que ainda he melhor ) sentimos no íntimo d'alma^ 
que a religião he o alicerce da Sociedade Civil , e a fonte de todo o bem % 
t de toda a consolação. Em Inglaterra estamos convencidos , que náo ha 
ferrugem de superstição , (com que os accumulados erros do espirito hu«. 
mano tem deslustrado as Nações , ) que o povo náo preferisse antes , do 
cjue o^ abandonar- se á impiedade. Não somos tão estultos que chamemos 
p atheismo ( inimigo da substancia de todo o systema religioso ) para re* 
mover algumas corrupções do nosso Syrabolo , ou supprir os seus defeitos, 
e aperfeiçoar a sua estruetura^ Náo queremos jamais que os nossos tem- 
plos se allumiem com táo infernal fogo. Elles serão illustrados por outras 
luzes 3 e perfumados com outro incenso, múi disiincto dos pestilentos fu- 

D 



B 



(16) 



mos dos Contrabandistas da adulterada metafísica do século presente. Se os 
nossos Estabelecimentos Ecclesiasticos precisão de revisão , não he á ava- 
reza , e rapacidade de gente sem religião alguma que haveríamos de en- 
carregar o balanço da receita , e despeza. Náo condemnando violentamen- 
te nem o Grego , nem o Arménio : se preferimos a Religião protestante 
ao Systema Romano, he só porque entendemos , que nelh ha mais cbri- 
stianismo. Somos protestantes , náo por indiííèrença da Religião Christá 
mas por zelo de sua pureza ( * ). 

Conhecemos, e he o nosso timbre confessar, que o homem he, peia 
sua constituição , hum animal religioso ; e que o atheismo não só he con- 
tra a nossa razáo , mas também contra os nossos instinctos. Se , em algum 
momento de delírio , rejeitássemos a Religião Christá , que até õ presente 
tem sido o nosso biazlo , e conforto , e húma grande fonte de nossa civi- 
lisaçáo , e de outras Nações , temos justo temor , de que o vazio se en- 
cha , esubstitua pela mais perniciosa, incoherente , e vil de todas as su- 
perstições. 

Para preservar a Religião Christá , com a augusta fabrica do Estado , 
temos feito os Estabelecimentos da Igreja , como hum Sábio Arquitecto , 
e providente Proprietário , faria a respeito de seu Edifício , e Património. 
Em ordem a livrar aquella nossa Grande Propriedade de profanação , e 
ruina, desejando puriíicalla , como hum Templo, de todas as immundicias 
óa fraude , injustiça , violência , e tyrannia , remos solemnemente consa- 
grado a Communidade , com todas as pessoas que officiáo nella. Todos 
que entráo uo ministério do Governo estão como em lugar de Deos , e 
elevem ter altas, e dignas ideias de seu emprego , e destino : a sua espe- 
rança deve ser cheia de immortaiidade, para , com os seus bons exemplos 
de virtude, deixarem huma rica, e perpétua herança ao mundo. 

Taes princípios sublimes se devem infundir nas pessoas de exaltadas 
situações , e se devem fazer Estabelecimentos religiosos , para que toda a 
sorte de instituições civis ajudem os naturaes, e racionaes vínculos, que 
ligáo o entendimento , e affecto humano ás cousas divinas. Quanto hum ho- 
mem he posto na ordem politica mais alto de outros homens , tanto de- 
ve fazer mais esforço de se aproximar á perfeição de seu Creador ; es- 
tando certo , que o seu poder he mew deposito, de que deve dar conta ao 
grande Senhor , Author , Fundador , e Regedor da Saciedade. 

Hum dos primeiros, e mais transcendentes principies , sobre que se 
tem consagrado o Estado , e as Leis , he , que os depositários do poder po- 
litico se lembrem sempre do que receberão de seus antepassados , e do que 
devem á posteridade ; e que náo pensem jamais que tem direito de arrui- 
nar huma vasta herança , destruindo a seu aibitrio o original Edifício da 
JSJaçáo,'e Sociedade , arriscando a deixar aos que vierem depois somen- 
te ruina , em lugar de habitação j e ensinando também a seus suecessores, 
a náo respeitarem os novos regulamentos , bem como elles náo respeitarão 



_ ( * ) Os Leitores cordatos bem hão de ver , que Burke não reprova a Reli- 
i't:ioCatholica , mas só falia politicamente da opinião do seu paiz sobre a pertendids 
mas fantástica reforma j porque os homens não podem reformar o que he Divino* 



^y i yij ii ^ i w iiiiiiii . i 



•(»7) 

às instituições de seus maiores. Pela facilidade de mudanças no Estado, 
como nas fluctuaçóes das modas , rompe-se logo a Continuação do Bem 
Público, Assim nenhuma geração se vincula á outra , e os homens vem a 
ser de pouco melhor condição que os insectos do veráo. 

A Sciencia da Jurisprudência , que he o timbre do entendimento huma- 
no ; que, com rodos os seus defeitos, redundâncias, e erros, vem a ser 
a colligida razão dos séculos ; que combina os princípios da justiça origi- 
nal com a infinita variedade dos negócios sociaes ; náo será daqui em dian- 
te estudada , sendo (como dizem os letrados , e políticos Francezes ) hum 
montáo de erros já abandonados. A presumpção , e arrogância ( que sáo 
os satellites inseparáveis dos que náo experimentarão maior sabedoria que 
a sua própria ) usurpará o tribunal do Direito j e consequentemente náo ha- 
veráo leis constantes, que estabeleçáo os invariáveis fundamentos de medo, 
e esperança , e dirijáo as acções dos homens a hum certo curso , e fim estável. 

Ninguém com hum systema de Direito variável poderia especular 
com segurança sobre a educação de seus filhos , e futuro estabelecimento 
no mundo. Nenhuns princípios de conducta se formarão em hábitos. Co- 
mo se poderá segurar hum tenro , e delicado sentimento de honra , que 
sempre se excite aos correspondentes impulsos do eoraçáo, variando con- 
tinuamente o padrão do seu cunho. Nenhuma parte da vida reterá as suas 
adquisiçóes. Barbarismo a respeito da sciencia , e litteratura, imperícia a 
respeito das artes ,_e manufacturas , infallivelmente se hão de seguir da fal- 
ta de huma educação firme , e de bons princípios estabelecidos ; e assim á 
Sociedade civil em poucas gerações se dissolverá em solto pó de indivíduos 
sem communs laços sociaes , que a final se dissipará por todos os ventos 
do Ceo. 

Para evitar pois os males da inconstância , e versatilidade ( dez mil 
vezes peior que os da obstinação de cegos prejuízos ) temos consagrado o 
Estado , para que nenhuma pessoa se lhe avisinhe a olhar as suas chagas, 
e corrupções , senáo com a devida circunspecção j e que náo sonhe jamais 
de principiar a sua reforma pela subversão dos pilares do Editício ; que 
náo se ach-gue a observar os defeitos do Soberano senão como as feridas 
de hum pai , com piedoso pavor, e soilicitude filial. Com este sábio per- 
juizo , temos recebido a doutrina de olhar com horror para os filhos, que 
estiverem promptos temerariamente a esquartejarem seus pais , na esperan- 
ça de que, por antídotos vegetaes , e presumidas magicas dos salvagens , 
podoriáo regenerar a constituição , e renovar a vida daquelies a quem de- 
vem a existência. 

A Sociedade civil he na verdade hum contrato. Os contratos ordinal 
rios sobre objectos de trivial interesse se podem dissolver á vontade dos 
contrahentes. Mas náo se deve considerar a hum Estado como huma so- 
ciedade de navio, para commercio de Pimenta, Café, Tabaco, ou outras 
drogas , e fazendas , para temporário interesse , e que se possa distractar 
conforme a fantasia das partes. Elle deve ser- olhado com outra reveren- 
cia i pois nlo he companhia em cousas que sirváo unicamente á grosseira 
existência animal, de. transitória , e mortal natureza. Elle he huma Com- 
panhia em toda a sciencia ; companhia em toda ane; companhia em toda 

D z 



(28) 

a virtude, e em toda a perfeição. Como os fins de' tal Companhia só se 
podem aicançar em muitas gerações, vem a ser huma Companhia não só 
entre os actuies contemporâneos, mas também entre os vivos, mortos, e 
v ndouros. Cada contrato de cada particular Estado náo he senáo huma 
ciausula no grande primitivo contrato da sociedade eterna, que liga as na- 
turezas inferiores com as supersores', unindo o mundo visivel com o invi- 
sível;, conforme ao pacto fixo, e seccionado peio inviolável juramento do 
Eterno , que sustenta todas as naturezas fysícas , e moraes, cada huma no 
seu assignalado lugar. Esta lei náo he sujeita ao arbítrio dos que devem 
submetter a ella a sua vontade por huma obrigação , que está acima del- 
les , e que lhes he infinitamente superior. 

As Corporações municipaes deste Reino universal de Deos não tem 
moralmente a liberdade de fazerem fantásticas especulações de hum melho- 
ramento contingente, de que alias possa resultar o separaremse , e rom- 
perem-se os vínculos de sua communidade subordinada, e dissolvellos em 
anti-sociaí , incivil, edesconnexo caos dos princípios elementares. Só a pri- 
meira, e suprema necessidade; necessidade que náo he objecto de escolha , 
mas que faz tomar á força hum partido extremo, necessidade que náo dá 
lugar á deliberação; he que pôde, alguma vez raríssima, justificar o re- 
correr-se a grandes mudanças no governo. Esta necessidade náo he a ex- 
cepção da regra , pois que esta mesma necessidade faz também parte da 
disposição fysica , e moral das cousas , a que o homem deve consentir por 
força. Porém, se o que só he submissão á necessidade, se fizer objecto 
de escolha , entáo logo a Lei do Creador he quebrada , a natureza he des- 
obedecida , e os rebeldes são proscriptos, e degradados do mundo da ra- 
zão , ordem , paz, virtude, e fructifera penitencia, para o antagonista mun- 
do de loucura, discórdia, vicio, confusão, e inútil arrependimento. 

Estes são os sentimentos de toda a gente da maior instrucçáo , e re- 
flexão na Grarn-Bretanha. Os das classes inferiores , a quem a Providen- 
cia tem decretado que viváo da authoridade dos entendimentos superiores, 
não se envergonháo de iguaes sentimentos , pela sua confiança nos mais 
sábios do paiz. Estas duas ordens de pessoas se movem na mesma direc- 
ção , ainda que em suas differentes orbitas ; mas ambas se movem na or- 
dem do Universo. Elles todos conhecem , ou sentem a grande antiga ver- 
dade , que 30 Soberano, e Omnipotente Deos, que rege este mundo, na- 
da he mais acceito na terra, do que as associações de homens que se cha- 
Hiáo Estados , vivendo conforme soque he direito. Elles recebem esta the- 
se tanto no entendimento como no coração; e esta prudente opinião náo re- 
cebe a sua sancção do nome , e authoridade de ninguém , mas se deriva 
da natureza commum , e das communs relações da humanidade. Persuadi- 
dos que todas as cousas se devem fazer com reverencia , e resignação ao 
Ente Supremo , a quem todas as cousas se dirigem , elles justamente pen- 
são . que sáo obrigados , náo só como indivíduos no sanctuario de seus pei- 
tos , mas como partes integrantes da Grande Congregação Social , a renova- 
rem a memoria de sua alta origem , e casta , e no caracter , e co«-po de 
Confraria, a executarem a homenagem nacional ao Instituidor , Author, e 
Protector da Sociedade civil ; sem o que nenhum Estado poderia chega? 



(29) 

a perfeição de què â sua natureza he capaz, e nem ainda remota , e fra- 
camente avisinhar-se a ella. Elles estão convencidos , que quem nos deo 
huma natureza capiz de se aperfeiçoar pela virtude , também nos deo os 
necessários meios para a sua possível perfeição nesta vida. Devia pois que- 
rer a existência , e conservação dos Estados, e que estes tivessem conne- 
xáo com a fonte , e archecypo de toda perfeição. Elles estão cer- 
tos desta sua vontade ( que he a Lei das Leis , e o Soberano dos Sobe- 
ranos. ) Por isso juigáo necessário , que em Corpo social lhe prestemos 
fidelidade, e adoração, em reconhecimento do seu Império Omnipotente , 
e que lhe façamos oblação do próprio Estado , como digna offerta no al- 
tar do universal louvor , bem como usamos executar todos os actos solem- 
nes em Templos com musica, ornato, falia, e dignidade de pessoas. 

Para este fim entendem , que huma parte da riqueza do paiz deve ser 
empregada, o mais utilmente que possa ser, no Culto Divino, e que se 
obra nisso muito melhor , do que em fomentar o luxo dos indivíduos. 
A mageftade do culto público vem a ser de consolação pública. Ainda os 
mais pobres acháo a sua própria importância , e dignidade nos Templos 
assim ornados , entretanto que a riqueza , e o orgulho dos indivíduos opu- 
lentos faz, que as pessoas das classes humildes sintão a sua inferioridade; 
o que abaixa, e humilha a sua condição. No esplendor modesto do culto pu- 
blico cessão os p ivilegios da opulência : e mostrando-se por elle, que os 
homens são iguaes por natureza , e podem ser ainda superiores pela vir- 
tude , huma porção da geral riqueza do paiz, vem por este expediente a 
ser bem empregada , e santificada» > 

Estes princípios transcendem por todo o systema^ da Policia Britânica.' 
Elles no considera© os estabelecimentos da Igreja só como convenientes a 
mas como essenciaes ao Estado , e os tem por fundamento de sua Con- 
stituição. Igreja , e Estado são cousas inseparáveis nos seus espíritos. A 
sua educação he formada para confirmar , e fixar esta impressão. Por is- 
so ella he , quasi totalmente ,■ entregue ás mãos dos Ecclesiasticos.^ Temos 
achado pela experiência , que as antigas instituições ( no total ) são favo- 
ráveis á moralidade, e disciplina ; e que são susceptíveis de maior pureza, 
e perfeição, sem se abalarem os alicerces; e que por este modo a moci- 
dade pode receber todos os accreseimos , e melhoramentos das sciencias , e 
artes, que a Ordem da Providencia for successivamente produzindo. Com 
esta que alguns chamão gótica , e monachal educação , podemos reclamar 
mais ampla partilha de Sciencias , e Artes , que as outras Nações da Europa. 
A nossa providente ^Constituição tem tido cuidado , de que os Ecle- 
siásticos ( a quem desde a infância até a adolescência , he confiada a libe- 
ral educação , e que são destinados por seu alto officio a instruir a pre» 
sumpçosa ignorância, e serem os censores do vicio insolente) não incor- 
ráo no desprezo do povo , nem viváo de esmolas dos ricos , que serião 
tentados a desprezar a medicina de seus espiritos. Por essas razões , ao 
mesmo tempo que o Estado por Lei provê á mantença dos pobres com 
sollicitude paternal, não abandona a religião, e a subsistência decente dos 
que vivem do seu ministério, a escuras contribuições, e faliivel caridade 
das Cameras das ViHas, Náo : elle exalta as mitradas cabeças dos seus Píe« 



n 









lados nas suas Corre? , e Parlamentos. Eííe ordenou ( e o povo vè corri 
gosto) que hum Arcebispo preceda a hum Duque ; e olha sem pena, e 
antes com toda a confiança , que os Bispos de Durham , e Winchester, te- 
tmao dez mil libras esterlinas de renda annuai , na certeza de que servi- 
ra para sustento dos filhos pobres do povo- He verdade que todas as ren- 
das da Igreja não sáo sempre empregadas em caridade até a ultima moe- 
da , mas o publico está certo , que, no geral , esse he o seu uso. He me- 
lhor, para fomentar virtude, e humanidade , deixar nessa parte muito ao 
iJvre arbítrio do esmoler, ainda com algarna perda do objecto, do que ten- 
tar fazer os homens meras máquinas , e instrumentos de benevolência po- 
litica. O mundo , quanto ao todo , ganha na liberdade das boas obras ; 
pois , sem livre arbítrio , nenhuma virtude pôde existir. 

Sáo despresiveis , pela fraqueza da razão , e só dotados de mortífera 
íorça , os argumentos da tyrannia , que na França confiscou os bens da 
igreja , e os do Soberano , e deo miserável estipendio ao Clero , com de- 
pendencm absoluta do Governo usurpador. Os sofísticos tyrannos de Pa- 
ris , depois de tantos ultrajes a todos os direitos da propriedade , paíliáráo 
o seu systema de rapina eom o mais estranho de todos os pretextos . a 
Fe Nacional* r * 

Os inimigos da propriedade no principio affectàVâo a mais tenra, de- 
licada , e escrupulosa anciedade de sustentar os empenhos , que o Rei ha- 
via contraindo com os Credores do Governo. Estes professores dos Di- 
reitos do homem só são azafamados em ensinar taes direitos aos outros 
e n„o tem descanço para elles mesmos aprenderem , em que taes genuínos 
direitos consistáo. Se assim náo fosse , terião conhecido , que a original fé 
da sociedade esta empenhada , primeiro que tudo , á propriedade do cida- 
dão , e nao ao credor do Estado. A demanda do cidadão he primeira em 
tempo i , fundamental em titulo , e superior em equidade. As fortunas dos 
indivíduos, quer possuídas pelos ganhos de sua industria, quer por heran- 
ça , ou era virtude de participasáo nos bens de alguma corporação religic* 
sa de mão morta , náo fazem parte da segurança do credor público , ex- 
pressa ou implícita. Tal segurança jamais entrou nas cabeças dos contra- 
tantes , quando íizeráo o contrato com o Estado. Os que emprestáo di- 
nheiro ao Soberano, bem sabem, que o público, representado pelo Mo- 
narca ou Senado , não pode também empenhar senáo os bens públicos ; e 
liso he licito considerar bens desta natureza, senáo os de que se faz a col- 
lecta, por justos, e proporcionados impostos, sobre a massa geral dos ci- 
dadãos. Portanto so a renda dos impostos he que se pôde empenhar ao 
credor publico. Nenhuma pessoa pôde hypothecar a sua injustiça como pe- 
nhor de sua fidelidade. Se algumas pessoas deveriáo soífrer na revolução , 
senão so os próprios credores públicos, visto que feráo os únicos que con- 
tratarão com o Estado , e náo os Ecciesiasticos. He absurdo achar razão 
para se confiscarem os bens destes, por náo sei que nova , e cerebrina 
equidade, quando abas náo haviáo sido hypothecados no tempo dos empe- 
nhos contrahidos. r ' 
Esta laxidáo de fé pública , he a que se propoz na França como boa 
regra de filosofa , luz , liberdade , e direitos do homem. 




(.V ) 

A Dívida Pública , e â falta na Renda Pública, forão só preiexto<? pai 
ra a Revolução , e não causa que a podesse justificar ; pois o seu Minis- 
tro de Finanças Necl{er , n.i Conta Geral que apresentou em Maio de 1787, 
fez ver , que a França tinha huma Renda de Frario fixa de miais de 47$ 
milhões de libras tornezas ; e que todos os encargos do Estado (incluin- 
do o interesse de hum novo empréstimo de quatrocentos milhões,) não ex- 
cediáo de 531 milhões ; vindo portanto, na balança da Receita, e Despe- 
za , a ser o deficit unicamente de dous milhões esterlinos. EUe indicou cer- 
tos artigos de economia , e melhora na Renda presente , que , sem roais 
algum novo imposto, poderiáo fazer desapparecer tal deficit, que (segun- 
do diz com ironia ) tinha feito tão grande estrondo tia Europa. 

Quando todo o trem de fraudes , imposturas, rapinas , incêndios, as- 
sassínios , confiscos , moeda-papel forçada , empréstimos forçados , e todas 
as mais espécies de tyrannias , e cruezas , que se empregarão para susten- 
tar a revolução , produzio o seu natural effeito , o mal irreparável que da- 
hi resultou causou horror , náo só a todos os espirites virtuosos , mas 
também a todos que tinháo ainda algum resto de sentimento moral. Então 
os authores , e fautores de tão salvagem systema , se esganarão em decla- 
mações contra o velho governo Monárquico da França , e contra toda a 
casta de Monarquia. Depois de fazerem odioso com as mais negras cores 
o poder deposto , foráo igualmente declamadores contra os que náo pensavão 
tão negramente como elles ; como se os que desapprovão os seus novos 
abusos , fossem partidistas dos abusos velhos ; e como se os que execraváo 
os seus crus , e violentos planos de liberdade , devessem ser tratados co- 
mo os advogados da escravidão. 

Náo podeai os partidistas Francezes capacitar-se , de que haja hum jus- 
to meio , e terceiro objecto de escolha , entre as desordens antigas , e os 
horrores da sua Revolução, de que náo ha exemplo nos monumentos da 
historia , e que nem ainda foráo excogitadas pela imaginação dos poetas. 
As suas arengas, nem merecem o nome de sofismas, mas sim de desafo» 
ros. Náo ouvirão esses Senhores , que , em todo o circulo dos mundos 
de theoria , e prática, havia alguma cousa de difierença entre o despotis- 
mo de hum Monarca, e o despotismo da gentalha? Nunca- ouvirão fallar 
de huma monarquia dirigida por Leis, moderada, e balanceada por grande 
riqueza hereditária , e grande nobreza hereditária da Nação, e sendo tam- 
bém estas ordens do Estado , reguladas por judiciosa restricçáo da razáo , 
e do senso do povo, obrando sempre por devido, e permanente orgáo do 
poder politico ? Deve-se qualificar de má intenção , e de miserável absur- 
do , o preferir-se hum governo temperado , igualmente longe de dous ex- 
tremos de tyrannia , e anarquia ; e náo pôde pessoa alguma hesitar sobre os 
méritos da democracia , sem cahir em suspeita de ser amigo do despotis- 
mo , e inimigo do género humano ? 

Aristóteles, o grande Mestre de Politica , observa, que democracia 9 
e tyrannia sáo mui semelhantes : o demagogo que adula o povo he do 
mesmo péssimo caracter , que o cortezáo que lisonjeia o Déspota : hum , 
e outro vem a ser os validos do poder arbitrário , para o atiçar ás maio- 
jes enormidades. O certo he que a se ha differenga e ntre aqueilas duas es^ 



;. 



C v 3 

pecies de despotismos , lie para peior da paríe do governo popular. Porque ; 
na democracia , a parte rnaior dos cidadãos he capaz de exercer as mais 
cruéis oppressóes sobre a parte menor , e mais sábia. Em tal governo, 
quando os partidos adquirem força , a oppressáo se pôde exíender a muito 
maior número de pessoas , e com muito maior fmia, do que se pôde te- 
mer do dominio absoluto de hum só Déspota. Nas perseguições plebeias, 
os indivíduos que soffrem , se reduzem á condição mais lamentável , do 
que no estado de hum único tyranne. No governo de hum Príncipe Cruel, 
ao menos o que padece innoeentemente , tem por si a compaixão do gé- 
nero humano , a qual vem a ser hum bálsamo que conforta , e minga a 
dor das feridas , e os applausos do povo ânimáo a sua generosa constân- 
cia em seus padecimentos : mas os que estão sujeitos ás vilanias do go- 
verno da canalha , são privados de todas as consolações , e perecem aban- 
donados pelo género humano , e esmagados pela conspiração de toda a sua 
espécie. 

He fácil , e lugar commum dos ambiciosos, e descontentes , fazer lon- 
go catalogo dos erros , e defeitos dos Soberanos, e das grandezas decahi- 
das. Pela revolução Franceza , os que antes erão vis lisonjeiros dos gran- 
des , se converterão em austeros críticos das suas irregularidades. Mas os 
espíritos firmes, e independentes , que tem em seu entendimento hum ob- 
jecto^ táo serio de meditação ao género humano , corno he o governo, des- 
denha o tomar a farça de satyricos , e d fiamadores. EJles julgáo as in- 
stituições humanas, e os Administradores públicos, com a indulgência que 
çostumáo prestar aos indivíduos. Elles reconhecem, que, nas cousas mor- 
taes , sempre ha hurna sorte de mistura de bem , e mal. 

Havião abusos na Monarquia da França, accumuiados pelo curso dos 
séculos. Náo sou por natureza inclinado a fazer o panegyrico de cousa al- 
guma , que seja natural , e justo objecto de censura. Mas a questão náo 
he dos vicios da Monarquia , mas de sua existência. Era por ventura a 
Monarquia da França incapaz de reforma ? Estava-se em a necessidade de 
abater roda a fabrica "delia , e alimpar a área para a creaçáo de hum Edi- 
íicio theoretico em seu lugar > 

Ao ouvir fallar algumas pessoas , imaginar-se-hia que a Monarquia da 
França estava nas mesmas circunstancias que a da Pérsia debaixo da es- 
pada do sanguinário, e feroz Tahmas KouliKam ; ou era igual ao bárba- 
ro , e anárquico despotismo da Turquia, em que os mais belios, e mais 
Vividouros paizes do mundo sáo devastados pela paz , ainda peior que ou- 
tros o sáo pela guerra , onde as artes sáo desconhecidas , onde a sciencia 
he extincta, onde a agricultura he decadente, onde a raça humana definha, 
e amortece aos olhos do observador. Era por ventura esse ocaso da Fran- 
ça ? A sua Monarquia , temperada pelas varias ordens de Estado , era em 
si mesma hum bem , que muito emendava o mal que nella havia. Outros 
correctivos provinhão da religião, e das maneiras -do paiz , que, supposto 
o náo constituíssem de boa constituição , todavia faziáo que ahi o despo- 
tismo fosse mais na apparencia , do que na realidade. 

Hum dos critérios mais seguros para se julgar da bondade do gover- 
no de hunja Najáo, he a sua população. Feles 'bçns effeitos , se conclue 



C «5 

solidamente sobre a bondade das causas. De nenhum paiz , em que a sua po- 
pulação florece, e está em progressivo adiantamento , se pôde dizer que 
está sob muito máo governo. No fim do século decimo sétimo , se com- 
putava ter a França 18 milhões de habitantes. No meado do século decimo 
oitavo se dizia ter subido a sua população a 22 milhões : e o Financeiro 
Nccker (boa authoridade na statistiéa do paiz) poucos annos antes da re- 
volução, dava á França quasi 25 milhões de habitantes.. Todavia a Fran- 
ça não he em toda a parte hum paiz fértil, e tem além disto muitos na- 
turaes descontos. O meio termo da sua população he quasi de novecentos 
homens por legoa quadrada. Não attribuo a grande população Franceza 
sos cuidados do seu antigo governo ; pois não gosto de aitribuir ás deter- 
minações dos homens o que , no maior gráo , se deve á bondade da Di- 
vina Providencia. Porém , se o antigo desacreditado governo da França 
obstruísse, e náo favorecesse as causas naturaes 7 , que promovem a propa- 
gação da espécie, e que se deriváo da natureza do terreno , e hábitos de 
industria dos habitantes, era impossível verem-se no paiz os prodígios de 
população , que se observa em muitos lugares. Não se pôde suppor que 
fosse totalmente má a fabrica de hum Estado , e de suas instituições po- 
liticas , que , pela experiência , se acha conter em si hum principio favo- 
rável ao augmento do género humano. 

A riqueza do paiz, he outro critério para se julgar , se, no geral, o 
governo he protector , ou destruetivo. Sem duvida a riqueza da França 
não tinha ráo igual distribuição , nem tão fácil circulação , como a da Jn- 
glaterra. A differente forma dos governos fazia , que este paiz tivesse es- 
sencial vantagem sobre aquelle. Mas o citado Neckfr , muito hábil finan- 
ceiro , em 1784 affirmou , que na França circulava numerário , isto he, di- 
nheiro, ou moeda metallica , que montava a oitenta e oito milhões de libras 
esterlinas. Cansas externas , e internas deveriáo haver para attracçáo de táo 
prodigiosa somma pecuniária. Eu vi com os próprios olhos a magnificên- 
cia de suas cidades, e de seus canaes artificiaes , para navegação interior, 
e conveniência das communicações marítimas ; as estupendas obras dos seus 
portos, e todos os spparatos de sua Marinha para commercio, e guerra; 
as suas fortificações de atrevida grandeza, e magistral perícia, que apre- 
sentaváo huma frente armada , e huma barreira impenetrável a seus inimi- 
gos : Vi as suas florentes culturas , e manufacturas , que só erão inferiores 
ás nossas: Vi em fim a multidão de seus Sábios , Estadistas, e Escritores 
sagrados, e profanos. Tudo annunciava huma Administração, que fomen- 
tava opulência, artes, commercio, e litteratura. Náo se pôde condemnar 
temerariamente , no todo , hum governo , que he capaz de manter táo bel- 
las cousas, ainda que tivesse alguns oceultos defeitos, que todavia não o 
constituiáo incapaz de reforma , que exaltasse as suas excellencias , e cor- 
rigisse as suas faltas. Os Revolucionários , em lugar de tudo isto , só as- 
soalharão violência , mina , e miséria aos olhos do observador j e para en- 
cubrirem ao povo a immensa desgraça , que lhe sobreveio com a revolu* 
reo , e taparem a boca aos gritos da sua actual indigência , acclamárão a 
França Grande Nação , que com os seus trapos affecta soberano desprezo 
do resto do mundo. 

E 



■ 



V & 






( |4 ) 

Os gritos contra a nobreza são meras obras da cabala, O ser honra- 
do, e ainda privilegiado pelas leis , opiniões , e antigos usos do nosso 
paiz , ( o que já vem do prejuízo de todas as idades ) nada tem que pro- 
voque horror , e indignação em qualquer pessoa. A pertinácia em manter 
qualquer os seus privilégios , não he absolutamente hum crime. O esforço 
de cada individuo em preservar a posse , do que entende ser a sua pro- 
priedade, e merecida distincção , he.huma das seguranças contra a injusti- 
ça, e o despotismo ; e tai expediente se vê em todo o paiz , e está plan- 
tado em a nossa natureza. Isto opera como hum instincto , que fixa as 
propriedades, e perpetúi as Nações em hum estado firme. 

A Nobreza he o ornamento e a graça da Ordem Civil. Cicero , que 
foi Cônsul de Roma pela sua eloquência , e virtude , sendo aliás da clas- 
se plebéá, dizia , que todos os bons favorecias -a Nobreza. (*) Ella he 
çi capitel Corinthio da Sociedade polida. He na verdade hum signal de es- 
pirito liberal , e benévolo o inclinar-se decididamente qualquer pessoa civil 
á fidalguia. Náo sente em seu coração nobres estímulos , o que deseja ni- 
vellar todas as instituições artificiaes , que tem sido adoptadas para dar 
corpo á opinião , e permanência á estima fugitiva. He de huma disposi- 
ção perversa, acre , e invejosa, inimigo da verdadeira virtude, e até da 
sua própria imagem , e representação , o que sente alegria na queda , do 
que floreceo por longos tempos com honra , e esplendor. Náo desejo ver 
destruída a nobreza : isso produziria hum vazio moral na Sociedade , e da- 
hi viria ruina á face da terra. Merece em alguma parte reforma quanto 
aos abusos , mas náo abolição. 

A respeito do Clero da França , eu suspeito que o mal , que se dis- 
se contra elle , fora fingido , ou exaggerado ; pois os que fizeráo a accu- 
saçao , e condemnaçáo , unhão em visra aproveitarerr.-se do confisco dos 
seus bens. O inimigo sempre foi má testemunha , e o ladrão ainda he peior. 
Vícios , e abusos haviáo de haver nesta ordem do Estado , bem como em 
outras ordens. Isto era inevitável em Estabelecimentos velhos , e não re- 
vistos frequentemente. Mas náo vejo que se provassem contra o Clero cri- 
mes , que merecessem o espolio de roda a sua substancia ; e menos ainda se 
mostrou , que os cruéis insultes , e deshumanas perseguições a todo o Cor- 
po, erão bons substitutos em lugar de regulamentos , que o melhorassem. 
Os atheisticos diffainadores do Clero, que obrarão com os trombetei- 
ros para animarem a canalha a roubarem os Ecclesiasticos , (seculares, e 
regulares ) em nenhuma cousa insistirão com maior complacência , do que 
na devassa , que tirarão dos vicios da gente consagrada ao Culto Divino. 
Com a mais \d industria revolverão , e esquadrinharão toda a historia das 
antigas idades, para assoalharem os factos de oppressáo , e perseguição, 
que nzerao os que abusarão da religião , e de seus preceitos , para favo- 
recerem ao seu Corpo ; a fim de com isso justificarem as actuaes persegui- 
ções , e crueldades, praticadas na revolução contra os Clérigos, e Frades, 
usando de iníq uos , e anti-filosoficos prineipios da Lei de talião. Depois 

( * ) Omnes boni naturaliter favemus nobilitati. 



C?í5 

de destruírem todas as outras geneologias , e distincçôes de família , inven* 
táráo huma sorte de linhagem de crimes. Mas nunca foi justo castigar os 
homens pelos delictos de seus antepassados ; e muito menos quando os des- 
cendentes não sáo de linha natural , e que só tem o nome commnm da 
Corporação , que praticou a offensa. Este refinamento de injustiça só per- 
tence á barbara philosopbia deste , que se disse , século illustrado. 

Os Corpos de mão morta , e , em geral , as Associações incorporadas 
sáo immortaes para o bem de seus membros , mas náo para o castigo de 
todos. As Nações sáo Corporações desta natureza. Se o principio revolu- 
cionatio fosse boa regra , Inglaterra poderia fazer guerra implacável , e de 
extermínio , contra a França , e França contra Inglaterra , com o pretex- 
to das innumeravies , e mutuas hostilidades dos dous paizes , em vários pe- 
ríodos da historia. 

A lição da historia não deve servir para corromper os nossos espíri- 
tos , e destruir a nossa felicidade. A historia abre hum grande volume para 
nossa instrucçáo , contendo os materiaes de futura sabedoria, pelo útil exa- 
me dos nossos passados erros , e enfermidades do género humano. Se se 
perverte o seu ensino , elia só serve de armazém de punhaes , para os 
partidistas contra a Igreja, e o F.stado supp-irem com os máos exemplos 
os meios de terem sempre vivas , ou de fazerem reviver as nossas dissen- 
sões , e animosidades , acerescentando maior fomento de incêndio para a 
fúria civil. 

A historia , na maior parte , consiste na colfecçio das misérias , que 
tem vindo ao mundo pela soberba, ambição, avareza, vingança, hscivia, 
Sádiçáo, fanatismo, e por todo o mais trem de paixões desordenadas. Es- 
tes vicios sáo as causas das tempestades politicas. Religião , morai , leis , 
preroguivas , privilégios, liberdades, direitos do homem, sáo meros pre- 
tex os deli s : e sempre foráo pretextos com apparencia de bem real. Os 
grandes actores, e instrumentos nos grandes males públicos sáo Reis, Pa- 
dres, Magistrados, Senados, Juizes, Capitães. Porém não se cura o mal 
tomando-se a tesoluçío politica de que náo hajáo Soberanos , Ecclesiasti- 
cos , Ministros de Estado , Conselhos , Tribunaes , e Generaes. Só pode- 
mos mudar os nomes , mas as cousas permaneceráó sempre as mesmas , e 
unicamente em figura diversa. 

Sempre algum poder se deve confiar á algumas máos , dê-se-lhe o ti- 
tulo que se quizer. Os verdadeiros Sábios só applicáo os seus remédios 
aos vicios , e náo aos nomes ; ás causas que os occasionáo , e náo aos mo- 
dos transitórios , em que eiles apparecem. Pelo contrario , os pertendidos 
reformadores só se mostráo intelíigentes em theoria , e fátuos na pratica. 
A malícia he mais inventora do que a sciencia humana. O mesmo vicio 
muda de modo , e toma novo corpo : mas o seu máo espirito transmigra ; 
e longe de perder, pela mudança da apparencia , o seu maléfico principio 
de vida , antes renova os seus novos orgáos com fresco vigor , e activida- 
de juvenil. 

Aterramo-nos com forjadas apparições de máos espíritos, e náo adver- 
timos, que a nossa casa está assaltada de verdadeiros ladrões. Attendendo 
*ó a casca da historia , pensa-se fazer guerra á intolerância , soberba , e 

E z 



krueldade; entretanto que, com o pretexto de se aborrecerem os máos prin- 
cípios dos violentos partidos (que aíiàs já não existiáo ) das antigas per- 
seguições por causa de religião , se authorizáo , e aiimemáo os mesmos 
odiosos vícios , e talvez peiores , nas diíFerentes actuaes facções persegui- 
doras. 

Os cidadãos de Paris se prestarão em outro tempo como instrumentos 
á matança dos sectários de Calvino , e á infame carniçaria do celebre dia 
de S. Bartholomeu. Fodem-se por ventura justificar os mesmos Parisienses , 
porque agora, em despique, represento as abominações, e horrotes des- 
ses tempos , levando a sua extravagância até o ponto de fazer e.n panto- 
mina trágica , vir á scena o Cardeal de Lorena em vestimentas sagradas , 
dando ordem para geral assassinato ? Avivando-sc com tal espectáculo a 
salvagem disposição dos Parisienses , podia ; se fazellos execrar a persegui- 
ção religiosa , ou desgostallos da effusão de sangue í Antes isso sérvio de 
mais estimular-lhes o seu appetite Cannibal , que tão brutamente cevarão , 
até beberem o sangue das victimas de seus furores. Porque o s antigo Car- 
deal de Lorena foi hum rebelde , e assassino , póde-se a»ora lêr sem hor- 
ror a perseguição feita a tantos Arcebispos, e Bispos da^ França assassina- 
dos, ou fugitivos, que só eráo conhecidos pelo povo pelas suas orações, 
bênçãos , esmolas , e nobre uso das riquezas , e que procurarão asyío era 
Inglaterra, e"* entre os quaes náo seria difficil achar hum Fenelon 2 

Os que lerem a historia com elevados sentimentos da razáo , pondo 
os séculos diante dos olhos , e trazendo as cousas ao verdadeiro ponto da 
comparação, para ver-se o espirito, e a qualidade moral das acções huma- 
nas , só podem dizer aos presumidos Mestres do Falais Rnyal _ o Car- 
deal Lorena foi hum assassino do século decimo sexto ; e vós tendes a 
gloria de serdes iguaes assassinos no século decimo oitavo. «* Esta he a 
única differença , que ha entre ambos. 

Mas a historia no século decimo nono deve ser mais bem entendida , 
C melhor empregada. Confio que ella ensinará á posteridade civilisada abor- 
Tecer os attentadoã desses séculos bárbaros. Ella ensinará aos fu uros Eccle- 
siasticos, e magistrados o náo se despicarem, por vingança , contra os es- 
peculativos quietos athêos dos futuros tempos, pela representação das enor- 
midades commetridas pelos athêos práticos , e furiosos enthusiastas dos nos- 
sos dias. Ella ensinará á posteridade a náo fazer guerra contra a religião , 
e pbiÍQSophia , pelo abuso, que hypocritas tenháo feito destes dous precio- 
sos donativos, que nos são conferidos pelo Pai Universal. 

Talvez alguns Ecclesiasticos , pelos seus partidos , e alguns excessos , 
se temo mostrado viciosos além dos limites, em que se deve ter indulgên- 
cia com as fraquezas humanas. Concedo tudo isto : mas sou homem i 
e tenho a tratar com homens ; e provando a falta da racionavel tolerância 
de ,opiniões religiosas, náo desejo cahir no extremo da maior de todas as 
intolerâncias. Supporto as fragilidades , em quanto náo degeneráo em cri-: 
mes, Sem duvida o natural progresso das paixões, pela inclinação dos ho- 
mens aos vicios , deve ser prevenida por olhos vigilantes, e mãos firmes. 
Os revolucionários pintáo o Clero da França como se fossem monstros. 
Màs ha nisso verdade ? He crivei que o lapso de tempo , a cessação do* 



( V) 
Interesses rivaes, a lastimosa experiência dos males, que resultarão da raivát 
dos partidos, náo hajáo tido influencia alguma em melhorar^ os seus espíri- 
tos? Tem os [(eclesiásticos opprimido os Seculares com mão de algozes , 
e accendido em todos os lugares as ardentes fachas de salvagem persegui- 
ção? Eráo porventura infhmmados, como antigamente, com violentas dis- 
sensões , e contendas , por fogoso espirito de controvérsia ? Levados de 
ambição de soberania intellectual , procuraváo pôr fogo ás Igrejas heterodo- 
xas , e assassinar as pessoas de diverso Credo , para sobre as ruínas das 
outras seitas, e dos governos subvertidos, firmarem o império da sua dou- 
trina», forçando as consciências dos homens pela sua pessoal authoridade , 
reclamando ao principio liberdade para si em opiniões religiosas , e remar 
lando em abuso de poder ? Certamente náo. 

Tanto na França , como nos outros paizes civilisados , era visível o 
grande abatimento desses vicios , e excessos , que faziáo odioso o caracter 
dos tempos passados. Antes , considerando-se as cousas na equidade com- 
mum , o Clero era digno de louvor , respeito , e patrocínio ; por ter aban- 
donado o espirito violento , que deshonrou em outras idades a alguns dos 
seus predecessores , que perseguirão os povos, em lugar demostrarem arao-i 
deraçáo de animo, e doçura de maneiras , que eráo próprias de suas fun- 
ções sagradas. , 

Os revolucionários preferirão oatheismo a qualquer forma de religião ; 
e o atheismo triumphante os destruio. Ainda os fanáticos de qualquer seita 
náo se esquecem de todo , que justiça , e misericórdia fazem partes sub- 
stanciaes da religião. Os Ímpios, para fazerem proselytos, jamais se reco m- 
mendaráó pelas 'iniquidades , e cruezas , que praticarão no fitn do século 
decimo oitavo com os seus semelhantes , affeccando chamallos livres , e 
iguaes , para os tratar como escravos , e brutos. 

He cousa espantosa vêr aos novos Mestres da razão continuamente 
jactando-se de seu espi;ko de tolerância. Náo ha nisso matéria de mereci- 
mento para as pessoas, que relerão todas as opiniões religiosas, em razão 
de pensarem , que nenhuma he digna de estimação. Hum desprezo igual de 
iodas as opiniões, e seitas não vem a ser huma candura imparcial. A es- 
pécie de benevolência , que nasce do desprezo , náo he verdadeira carida- 
de. Em Inglaterra ha muita gente, que tolera as differentes seitas, e for- 
mas religiosas , no verdadeiro espírito da tolerância, EHes pensão , que to- 
dos os dogmas da religião são de momento, ainda que em differentes gráos ; 
e que entre elíes ha alguns (como em todas as cousas de valor) que tern 
justo fundamento de preferencia. Os Inglezes pcis favorecem a es-es , éTO- 
leráo a todos. Elles os tolerão , náo por desprezarem as opiniões differen- 
tes , mas por terem o devido respeito á justiça. Elles com reverencia , c 
afTeição protegem todas as religiões , porque veneráo , e amáo o Grande 
Principio , em que todas concordáo , e o Grande Objecto a que todas se di- 
rigem. Elles, na maior parte, cada vez melhor, e mais claramente conhe- 
cem , que nós todos temos huma Causa Commttm. Por isso não são arre- 
batados por espirito de facção. Para elles , o sacrilégio não faz parte da 
doutrina das boas obras ; e detestáo a pratica de proscrever homens inno^ 
cantes , e náo restituir os bsn§ roubados aos Eccksiasiicos 2 



mmmmmm 






■■ 



(?8) 

Os novos Legisladores da França , ( que se valerão das circunstancias 
para se apoderarem do poder do Estado ) reprováo a doutrina da prescri- 
pção, que alias he huma das melhores de 'seus antigos Jurisconsultos. Z>o- 
nmt disse a grande verdade , que tal doutrina faz pane da Lei da nature~ 
za. Eile nos ensina, que a positiva demarcação de seus limites, e a segu- 
rança de náo se fazer invasão contra tal direito, he huma das causas para 
que se instituto a sociedade civil. Se a Lei da prescripcao (*) for huma 
vez abalada, náo fica segura espécie alguma de propriedade, e se franqueia 
huma grande porta a insaciável cobiça do povo indigente, Vemos na Fran- 
ça a pratica perfeitamente corresponder ao desprezo desta grande fundamen- 
tal parte da Lei Natural. Vimos os seus Confi-cadores principiarem por se- 
questrar a Propriedade dos Bispos, Cabidos, Mosteiros, Frincipes de san- 
gue, Nobres; e desde entáo náo houve miis fim a confiscos de roda a sor- 
le de Proprietários. Infatuados com a insolência das proscripções , e infa- 
mes victorias , sempre apertados de misérias , causadas pelo seu lascivo , 
e execravel appetite do ganho, a fina! se aventurarão a subverter toda a pro- 

Í>riedade de todos os estados , e classes de gente por todo o Reino ; e 
orçáráo a todos os homens , em todas as transacções do commercio , e 
tratos da vida civil , a acceitar em pagamento papei sem credito de hum 
governo fallido , e fattuo , fazendo circular seus infinitos Asúguados , que 
cráo meros hierogiiphicos ridicuios , e nulíos de suas especulações de rapi- 
nas. 

Que vestigio restou de liberdade, e propriedade em táo grande Paiz ? 
Sem cerimonia, ou menor escrúpulo os levantados Legisladores vioíáráo os 
Direitos da Propriedade , da Prescnpçáo , da Moeda , da Fé Pubiica , e 
estabelecerão o mais inaudito despotismo. Assim o Corpo Legislativo da 
Nação, que dizia querer ser livre, assenhoreou-se , náo para segurança, 
mas para destruição, da Piopriedade Nacional, e náo só da propriedade, 
mas também de toda a regra e máxima que The pode dar estabilidade, e de 
todos os sólidos instrumentos que lhe podem dar circulação. Os seus pro- 
jectos foráo ainda avante, até o ponto de quererem, com o mais violento 
fanatismo, fazer proselyros de taes horrores em todos os paizes , que re- 
cebiáo , por cabalas insidiosas , os signaes de eonfraternidade , e as senhas 
de revolução, consagradas entre seus nefandos ritos, e mysterios, com li- 
gas federativas de perpetua amizade. 

Os presumidos Políticos , e Economistas da França nem ao menos , 
advertirão, que, confiscando-se tão immensa propriedade, e vindo ella de 
súbito para a cruei Hasta Publica , a sua violenta , e repentina entrada no 
mercado faria logo abater immenso o seu valor, resultando dahi permane- 
cer sempre o Estado sem os recursos , que se haviáo especulado , e ven- 
derem-se os mais inestimáveis bens por vil preço , e a vis pessoas, que as 
adquirirão com lesão enormíssima dos donos legítimos, tirando»se dos me- 
lhores, e immemoriaes possuidores? Que equidade (diise o Cônsul de Ro- 
ma ) se pôde considerar em se tirarem as terras aos senhorios de muitos 

(*) Esta Lei he , a que dá estabilidade aos dominios das Propriedades possuída* 
trinta annos pacificamente , por titulo legitimo. 



( 59) 

annos, e ainda de séculos, para se traspassarem a injustos compradoses ? 
Valem por ventura estes mais que os outros ? Melhorou a Nação ? Cessa- 
rão as discórdias civis ? Feio contrario , as desordens se propagarão até 
huma extenááo incalculável. 

A segurança das Dividas Publicas foi hum dos pretextos, e estímulos 
para taes desordens. As Nações estão a submergír-se cada vez mais no fun- 
do do Oceano de sua Divida Publica sem limites. As Dividas Publicas , 
que ao principio eráo seguranças para o Governo , fazendo , por meio delias, 
interessara muita gente na tranquillidade publica, vão, pelo excesso , a ser 
es meios de sua subversão. Se os Governos providenceiáo ao pagamento 
destas dividas impondo pezados tributos, hão de perecer, fazendo-se assim 
odiosos ao povo. Se não providenceiáo ao seu desempenho, serão destruí- 
dos pelos esforços dos mais perigosos de todos os partidos , isto he , do 
partido dos capitalistas prejudicados , e não extinctos. Os homens desta 
classe ao principio olháo , (como segurança do seu capital emprestado, ) 
para a fidelidade do Governo , e depois para o seu poder. Se vem o seu 
Governo velho , cascado , estéril , com as molas frouxas , e sem o s«ffi- 
ciente vigor para satisfazer os seus empenhos , procurarão novo governo 
que possua mais energia , e energia tal, que lhes possa pagar não por no- 
vos recursos legítimos , mas pelo desprezo da justiça. Revoluções são favo- 
javeis aos confiscos. Estes princípios que predominão na Fiança váo-se dis- 
seminando por todos os paizes, e por todas as classes de pessoas, que es- 
tão olhando para a propriedade , e indolência dos ricos, como para a sua 
segurança. A indolência dos grandes proprietários se arguira de inutilidade, e 
_esta inutilidade logo se representará como nociva ao Estado. Muitas par- 
les da Europa estão em desordem ciara : sente-se já confuso, movimento, 
que ameaça geral terremoto no Mundo Politico. 

Alguns dizem, que os confiscos da França não devem assustar as mais 
Nações ; pois que não se fizeráo por extravagante rapacidade , mas por 
grande medida de Politica Nacional , a fim de se removerem extensas , e 
inveteradas desordens. Por isso muita gente approvou o confisco feito dos 
bens dos Mosteiros, e a. abolição das chamadas Corporações de mão morta 

Jamais separarei a Justiça da Politica. A justiça deve ser sempre a Es- 
trella Polar de todos os actos do Governo na' Sociedade civil. Toda a 
grande aberração delia, em quaesquer circunstancias, faz suspeitar que não 
he a Politica que obra, mas a cubica de dominação. 

Quando os homens são animados a entrar em certo modo de vida pe- 
las leis existentes , e são protegidos nesse modo de vida como emprego 
legitimo de sua industria ; quando elles aecommodáo todas as suas idéas, e 
todos os seus hábitos ás occupaçóes respectivas j quando a policia publica 
tem feito , que a conformidade a essas regras seja o fundamento de repu- 
tação , e o desvio delias o fundamento de deshonra , e pena ; certamente 
Fazer qualquer Legislador violência aos espíritos, e sentimen- 



tos de seus súbditos , e o derriballos do seu estado , e condição , e ainda 
demais accrescentar vergonha, e infâmia ao caracter dos indivíduos, 



e aos 



costumes do paiz, que antes tinháo sido a medida de sua felicidade, e hor* 



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(40) 

râ. Náo he preciso ser mui sagaz para descobrir , que este brinco despóti- 
co , feito com os sentimentos , consciências , prejuizos , e propriedades dos 
homens, não se pode distinguir da mais atroz tyrannia, 

O homem encarregado de saudáveis reformas , que náo obra debaixo 
do influxo das paixões , que em seus projectos náo tem em vista senáo o 
bem publico , vendo que ainda as instituições originalmente viciosas , de- 
pois de tomarem raizes profundas , se misturlo e entrelaçáo com muitas 
cousas boas , e que por isso náo se podem desarreigar , sem ao mesmo 
tempo notavelmente se destruírem essas boas cousas 9 náo deve estar dis- 
posto a abolillas de repente. Ha em tudo justo meio. Recebendo alguém 
o governo de hum Estado , deve compoilo , e ornalio , corrigindo , e náo 
destruindo. Spartam accepisti , hanc exortia. 

Esta regra de profundo senso jamais deve estar fora do espirito de 
hum reformador honesto. Náo posso conceber ctímo hum homem chegue 
a subir a tal presumpçáo , que considere o seu paiz como nada mais que 
huma Carta branca , para escrever ndia , o que lhe der na vontade. Hum 
homem cheio de benevolência especulativa pôde desejar , que a Sociedade 
fosse constituída do modo differente do que a acha ; mas o bom patrioca , 
e o verdadeiro politico sempre considerarão o como se poderáõ melhor 
aproveitar das matérias , que acháo no próprio paiz , para as reformas in- 
dispensáveis. Disposição a conservar , e habilidade a melhorar serão sem- 
pre os padrões do Estadista. Tudo que he fora disto , he vulgar no con- 
ceito , e perigoso na execução. 

Ha momentos na fortuna dos Estados , em que certos homens são cha- 
mados a fazer ■melhoramentos , por grandes' esforços mentaes. Nesses mo- 
inentos , ainda quando gozem da confidencia de seu Príncipe e paiz , e se- 
jao revestidos de plena authoridade , nem sempre achâo instrumentos idó- 
neos para a obra. O verdadeiro politico , para fazer grandes cousas , deve 
entáo procutar descobrir a grande mola do mechanismo da benevolência 
civil , para saber extrahir o bem ainda do mal. 

Tem-se declamado muito contra as Corporações religiosas. Mas as suas 
rendas tinháo direcção publica. Os seus membros eráo dedicados a objectos 
públicos, e por princípios públicos. Ainda «que as suas instituições ao prin- 
cipio fossem obras de enthusiasmo , todavia forão depois os instrumentos 
da sabedoria. Náo mereceria ser havido por Homem de Estado de alta or- 
dem , quem destruísse temerariamente a riqueza , disciplina , e os hábitos 
de taes Corporações , e náo achasse expedientes de as converter em gran- 
de , e permanente beneficio de seu paiz. Só políticos destituídos de fundos 
mentaes, e que não entendem do officio, podião achar utilidade em extin- 
guiilas. 

Estas instituições (dizem) favorecem a superstição pelos seus mesmos 
princípios, eaalimentão pela sua constante , e inexterminavel má influencia. 
Náo entro nesta questão. Mas náo he menos certo, que derivamos sólidos 
benefieios de muitas disposições , e de muitas paixões , que , aos olhos da 
moral , são , pelo menos , de cor tio difvidosa como a superstição. A su- 
perstição he a religião dos espíritos fracos. Se inteiramente se lhes arran- 
ca , sem se darem logo melhores substitutos aos que náo concebem as eou? 



(4. ) 

sas melhor, também arrancamos os recursos necessários a soster as cousas 
mais essenciaes. 

A base da verdadeira religião consiste , em estar o Corpo do povo 
sempre seguro na idéa , e pratica da obediência á Vontade do Eterno So- 
berano do Mundo, ter confiança nas suas revelações, e aspirar á imiiação 
de suas perfeições. Os homens sábios não sáo violentos em condemnar a 
fraqueza do entender humano. A Sabedoria não he o mais severo censor da 
ignorância. As loucuras rivaes sáo as que se fazem mutuamente implacável 
guerra; e a que chega a predominar, logo se prevalece de suas vantagens 
para pôr no partido de suas censuras os espíritos vulgares. Pelo contrario , 
a prudência he hum mediador neutro. Se na contenda entre o afferro im- 
moderado a certas instituições, e a orgulhosa antipathia a causas , que, por 
sua natureza, náo sáo próprias a produzir efFervescencias de indignação, o 
homem prudente he obrigado a fazer escolha , comparando erros , exces- 
sos , e enrhusiasmos , pelo menos , julgará mais tolerável a superstição , 
que edifica , do que aquella , que destree ; a que orna o paiz , do que a 
que o deforma ; a que o dota , do que a que espolia ; a que dispõe das 
liquezas para benevolência , ainda que aliás menos bem entendida, do que 
a que estimula os homens á real injustiça ; a que recusa a si própria 
ainda os prazeres legitimos , do que a que rouba dos outros até a módica 
subsistência. Certamente este se achará ser o estado da questão entre os 
fundadores das Ordens Monásticas , e os pertendidos reformadores da su- 
persticiosa philosophia do século presente^ 

Em toda a Nação prospera, alguma parte do producto dá terra e in- 
dustria sempre excede as necessidades do consumo do productor respectivo. 
Este excedente forma o redito do senhor da terra, e dos capitalistas, quê 
adiantáo o fundo para a producção. Este excedente será despendido por 
estas duas sortes de proprietários, que aliás náo trabalhão directamente pa- 
ra a pioducção. Mas a sua arguida preguiça , (que he mera isenção de 
obra mechanica) vem a ser o estimulo do trabalho dos que náo tem ter- 
ra, capital., e o seu descanço he o incitamento á industria do principal cor- 
po do povo, O interesse do Estado sò he que os capitães empregados pa- 
ra fazer render a terra, tornem outra vez para as mãos industriosas, don- 
de elles vieráo , e que a despeza dos fundos da natureza , e arte seja diri- 
gida com o menor possivei detrimento- -da moral, tanto daquelles, que a 
fazem, como dos obreiros, para quem os capitães tornáo , a fim da renova- 
ção dos trabalhos , e constante reproducçáo dos fructos da terra , e indus- 
tria. 

Em todas as considerações de receita , despeza, e emprego pessoal , 
hum Legislador prudente deve cuidadosamente comparar os caracteres do 
possuidor dos rundos, aquém se aconselha expellir , e do estrangeiro , que 
se prepóem para substituir o seu lugar. Além dos inconvenientes que resul- 
ta© das violentas revoluções da propriedade por extensos confiscos, deve-se 
estar certo, que o novo possuidor será mais trabalhador, mais virtuoso , 
mais sóbrio, e menos disposto a extorquir irracional proporção dos ganhos 
do lavrador , ou a consumir comsigo mais quantidade do c>ue a ordinária 
medida do consumo de qualquer individuo , ou a despender de modo mais 



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U* ) 

firme, € ig^al , que melhor corresponda á" utii despeza politica , que os 
antigos instituidores haviáo destinado. Quem demonstrou que estas vantagens 
estão da parte dos que adquirirão os bens da Igreja , e das Ordens religiosas ? 

Os frades ( dizem ) sáo inertes. Sejáo. Supponha-se que não se occu- 
pao senáo em cantar no coro. Pelo menos sáo tão utilmente empregados 
como os que cantão no iheatro. Incomparavelmente peior he a occupaçáo 
de milhares de indivíduos de condição servil , empregados pelos grandes 
ricos seculares em vis , e pestíferos ministérios. A humanidade , e a politi- 
ca antes justificarão o livrar a estes de seus máos, e inúteis empregos, do 
que o perturbar o tranquiilo repouso da morada monástica. Ora quando 
as vantagens da posse estão ao par , não ha motivo para mudança de 
possuidores. 

Compare-se porém a vá, e perniciosa despeza , que os grandes pro- 
prietários seculares frequentemente fazem , com a que a maior parte dos 
.Prelados, Cabidos, e Mosteiros fazia em accumulaçáo de vastas livrarias, 
que contém a historia da foiça , e fraqueza do espirito humano ; de grandes 
collecçóes de manuscriíos , medalhas , moedas , que attestáo , e explanáo 
as leis , e costumes da antiguidade ; de nobres pinturas , e estatuas, que, 
imitando a natureza , parecem extender os limites da creaçáo ; dos grandes 
monomenros dos mortos, que fazem continuar zs lembranças, e connexóes 
da vida ainda além do sepulchro ; dos variados musêos , que assoalháo as 
maravilhosas amostras da opulência da natureza , e que sáo a nssembiea re- 
presentativa de todas as classes , é famílias do mundo , que , pela sua dis- 
posição scientifica , e excitando a gerai curiosidade , abrem as estradas da 
Sciencia. Se por grandes estabelecimentos permanentes todos estes objectos 
de despeza estão mais seguros do inconstante jogo do capricho, e da extra- 
vagância pessoal , póde-se crer que estariáo peior nas máos dos que linháo 
feito , e accumulado táo úteis trabalhos , do qne nas de indivíduos separa- 
dos , e sem o espirito preservativo das Communidades , ainda que nelles 
prevalecesse hum gosto igual ao delias? 

Por ventura o suor do pedreiro, e carpinteiro não corre tão aprazível, 
e saluiiferameme na construcçáo , e reparo dos majestosos edifícios da reli- 
gião , como na fabrica de casas de opera , officinas de jogo , e obras de 
phantasia , para nutrir o luxo, e o orgulho, como v. g. obeliscos no Cam- 
po de Marte etc ? O produero supérfluo de vinho , e azeite do paiz será 
peior empregado na frugal sustentação de pessoas , a quem as ficções de 
piedosa phantasia deráo a dignidade de estarem sempre em louvor , e ser- 
viço de Deos , do que em innumeravel multidão de criados , que sáo man- 
tidos com desperdícios , só para nutrirem a soberba de seus amos ? Os or- 
natos dos templos seráo despezas menos dignas de hum homem sábio , do 
que as festas com laços nacionaes , e innumeraveis fofices , com que a opu- 
lência dos seculares alarcêa a enorme carga de suas superfluidades? Tolera- 
mos estas cousas , não por amor delias , mas pelo receio de que em seu 
lugar entre ainda cousa peior. Toleramo-las , porque a propriedade , e a 
liberdade , até certo gráo , requerem a tolerância de taes usos nas socieda- 
des. Como se poderia logo com razão proscrever os estabelecimentos , e 
dispêndios , que em todos os pontos de vista , sáo do mais louvável uso 



t!os Emdosi Pode ser justo fazer violação efe tefa n propriedade, e, por 
ultraje de todo o principio de liberdade , muda-los á força do melhor para 
o prior? As corporações da Igreja no uso de sua propriedade são os obje- 
ctos mais susceptíveis de direcção publica da parte do poder do Estado : o 
regulamento dos modos , e hábitos de vida dos seus membros vem a 'ser 
mais fácil do que he , ou deve ser , a respeito da economia dos cidadãos 
particulares. Esta consideração he muito essencial para se tentar alguma 
cousa, que mereça o nome de empreza politica. 

Nenhum excesso he bom. Assim como não convém , que despropor- 
cionada quantidade de terras esteja em poder dos Corpos de máo morta , 
e dos grandes Prelados , também não se mostra razáo , porque a posse de 
algumas se traspasse violentamente do poder de alguns, que muitas vezes, 
de facto , tem feito bom uso de antigas propriedades , que passarão sueces- 
sivamenre a pessoas de eminente virtude, e, sabedoria ; que dáo ás mais no- 
bres famílias renovação, emantença, e ainda ás das ciasses ínfimas os meios 
de dignidade , e ellevaçáo ; propriedades , a cuja posse he annexa a obri- 
gação de executar algum dever moral , e que , posto os seus possuidores 
nao cumpráo perfeitamente os seus encargos, que se exigem deiles , com 
tudo lhes fazem rer hum caracter de, ao menos, exterior decoro e gravi- 
dade , e que , de ordinário , são applicadas á hospitalidade generosa , consi- 
derando-as habitualmente os possuidores como hum deposito confidenciai 
para exercido da caridade. As pessoas , cujo destino , e ónus publico no 
uso de taes propriedades he ostentar virtudes , naturalmente as administra- 
rão melhor , e serão mais comedidos , e regulados na sua economia , do 
que os seculares , que náo tem regra , e direcção de suas despezas senão 
as suas vontades. 

Sempre olharei com piedade, e reverencia para os erros daqúelles re- 
formadores, que são timoratos nos pontos, que impíicáo com a felicidade 
do género humano. Só Políticos máos , e ignorantes são nisso ousados , 
assemelhando-se aos Gavalleiros de industria , que nada tem a perder e 
náo sentem paternal sollicitude do bem publico ; que não temem fazer a 
amputação n'huma creança , só para tentarem huma experiência perigosa. 
Estes taes, na vastidão de suas promessas, e na confiança de seus prognós- 
ticos , excedem todas as jactâncias dos charlatães. 

Estou convencido que na Assemblea Nacional da França entrarão ho- 
mens de muita habilidade , e alguns desenvolverão eloquência em suas fal- 
ias e escritos , o que se não pedia executar sem grandes , e cultivados 
talentos. Mas a eloquência pôde existir sem proporcional gráo de sabedo- 
ria. Com • tudo , no systerrra que propozeráo para segurança , e prosperida- 
de dos cidadãos, e para se promover a força, e grandeza do Estado, con- 
fesso náo ter achado huma só cousa, que denotasse obra de espirito com- 
prehensor, e providente , e nem ainda de entendimentos capazes das provi- 
sões de prudência vulgar. 

A gloria de rodos os grandes Mestres em todas as artes consiste em 
confrontar, e vencer as difficuldades ; e quando tem vencido a primeira, 
a convertem em: instrumento para vencer novas difficuldades j e assim ad- 
quirem a possibilidade de.extender o império da sua sciencia, e ainda trans- 

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(44) 

pollo alérn do alcance de seus originaes pensamentos , transcendendo até 
fora dos marcos da imelligencia humana. A diffículdade he hum instrumea- 
to severo , estabelecido por suprema ordenança do Pai , e Legislador Omni- 
scio , que nos conhece melhor do que nós nos conhecemos. O que luta com 
nosco , fortifica os nossos nervos , e aguça a nossa perspicácia. O nosso 
antagonista vem a ser o nosso auxiliar. O amigável conflicto com a diffí- 
culdade nos obriga a adquirir mais intimo conhecimento do objecto propos- 
to, e nos impelle a considerallo em todas as suas relações, não soffrendo 
que sejamos superficiaes. O que foge de tal luta mostra náo ter nervos 
do entendimento para a sua tarefa. 

O degenerado appetite de fazer tudo em pouco tempo com enganosas 
facilidades , e ( como dizem os francezes ) golpes de mão , tem sido em 
muitas partes a causa de se crear no mundo governos de poder arbitrário. 
Entáo as faltas de sabedoria sáo suppridas pela plenitude de força , e os 
povos nada ganhão na mudança. Começando taes reformadores os seus tra- 
balhos por principio de preguiça (que náo medira, nem combina) tem a 
fortuna commum da gente preguiçosa. As diificuldades , que elles mais il- 
ludíráo , do que resolverão , tornáo a apparecer no curso do edifício , e 
sáo involvidos n'hum lnbyiintho de confuso manejo , e n'huma industria 
estouvada , e sem direcção. Assim fazem a sua obra viciosa , e sem segu- 
rança. 

A Assembiea Nacional só ladeou pelas diificuldades , sem as resolver, 
nem evitar; e por isso, começou os planos de reforma com a abolição e 
destruição. Em demolir a picarête , e arrazar hum edifício , mostra-se habi- 
lidade ? O mais rude entendimento , e a máo mais salvagem he capaz de 
tal obra : raiva , e phrenesi pôde derribar em huma hora mais , do que 
p.udencia , deliberação , e pericia podem edificar em cem annos. 

Os erros , e defeitos dos estabelecimentos velhos sáo visíveis , e pal- 
páveis : náo he precisa muita sagacidade para -apontallos : e onde se estabe- 
lece poder arbitrário, basta huma palavra para destruir vicios, e juntamen- 
te os estabelecimentos úteis. A mesma preguiçosa , e inquieta disposição , 
que ama a inércia, e aborrece o socego, dirigio os políticos da França para 
aibater a sua Monarchia , com tudo o que também havia de bom nelía , 
sem aliás supprir devidamente o lugar das cousas destruídas. Hum dos 
do Corpo Legislativo , que ali tinha ascendente , exprimio assim o seu 
Grande Principio destructivo: nada he mais simples. „ Os estabelecimentos 
j, -da França coroáo a infelicidade áo povo. Para o fazer feliz, he necessa- 
„ rio renovallo : mudar suas ideas ; mudar suas leis; mudar seus costumes ; 
,, mudar os homens; mudar as cousas; mudar as palavras... destruir tu- 



do... sim tudo destruir , pois que tudo 



este arengueiro fosse escolhido para Presidente da casa dos orátes , poderia 
ser havido por ente racional ? 

Preservar e reformar he cousa mui diversa desta Proposta. Quando se 
pertende concertar, e acerescentar hum grande edifício , sem destruir as par- 
les úteis, deve-se ter hum espirito vigoroso, de perseverante attençáo , do- 
tado de talentos para comparar , e combinar , e hum entendimento fértil 
em expedientes vigorosos, que entre em 'conflicto com a confederada força 






(45 ) 
dos vícios oppostos , a saber , da obstinação , que rejeita todo o melhora- 
mento, e da leveza, que se fatiga, e desgosta até com o bem , de que está 
de posse. Mas este processo he lento ., e náo he próprio para phanrasticos 
Legisladores, que se gloriáo de executar em poucos mezes a obra, que re- 
quer séculos. Huma das prorogaúvas , que "deve acompanhar o methodo de 
reformar com prudência, he , que hum dos seus assistentes seja o tempo, 
que faz a sua operação , quazi imperceptível. 

Se a circunspecção, e cautela sáo partes da sabedoria, ainda quando a 
obra he só de matéria desanimada , sem duvida mais constituem parle do 
nosso dever , quando o objecto da demolição , ou construcçáo náo he obra 
de pedra, e páo , mas de racionaes sensíveis, que se podem fazer miserá- 
veis em grande multidão , pela repentina alteração de seu estado , condi- 
ção , e hábitos de vida. Com tudo em -Paris a predominante opinião he , 
que hum coração insensível , e huma presumpçáo il limitada sáo as únicas 
qualificações para hum perfeito Legislador. Porem mui differentes devem ser 
as idéas deste alto ofrício. 

O .verdadeiro Legislador deve ter hum coração cheio de sensibilidade: 
deve amar, e respeitar a sua espécie, e tremer de seu amor próprio. Re- 
gulamento politico he obra para entes sociaes. Nelle o espírito deve cons- 
pirar com os outros espíritos. A nossa paciência pôde melhor acabar a obra , 
do que a nossa força. A experiência tem mostrado , que náo ha plano , 
que náo tenha sido melhorado pelas observações dos que alias em entendi- 
mento eráo mui inferiores ás pessoas , que haviáo dirigido o negocio. Pelo 
lento , e bem sustentado progresso do exame o eífèito de cada passo he 
observado; o bom ou máo suecesso do primeiro dá-nos luz ao segundo ; e 
assim de luz em luz somos conduzidos com segurança por toda a série das 
operações. Por este modo attendemos a que as partes do systema náo com- 
batáo entre si. Os males escondidos nas mais especiosas apparencias sáo 
remediados logo que se divisão. Cada vantagem he assim menos sacrificada 
á outra. Compensamos , conciliamos , balanceamos. Deste modo somos ha- 
bilitados a unir em hum todo coherente as varias anomalias , e princípios 
contradiciorios , que se acháo nos espíritos , e regulamentos dos homens* 
Dahi se origina náo a excellencia na simplicidade, mas (o que lhe he su- 
perior) a excellencia na composição. Como os interesses do género humana 
se transminern por longa suecessáo de gerações , também a suecessáo dé re- 
formas se deve transmiti ir por meditadas resoluções , que profundamente 
combinem seus interesses. 

Por isso os melhores Legisladores tem muitas vezes achado mais con- 
veniente conservar o estabelecimento de algum seguro , e solido principio 
de governo, que reja a Policia publica , do que adoptar Planos de perfeição 
ideal, que podem ser falliveis na pratica. Proceder assim, he proceder com 
principio previdente , e energia prolífica , que he o critério da verdadeira 
sabedoria. O que os políticos francezes pensão ser os signaes de hum gé- 
nio activo, e transcendente, sáo só provas de deplorável falta de habilida- 
de. Pelos seus violentos processos, com desvio dos processos da natureza, 
vieráo a abandonar se cegamente a qualquer projectista, e aventureiro , em- 
pírico , ç alchymista. Eiies na sua medicina do Estado afísctáráo náo em- 



m 



C40 



pregar ingrediente , qus fosse comrnum. Dieta não lhes he nada no syste- 
ma dos remédios. A sua desesperação de curar por methodos regulares pro- 
cedeo ainda menos de falta" de eomprehensáo , do que -de malignidade de 
temperamento, Taes legisladores formarão suas opiniões à respeito das pro- 
fissões , e ordens, e officios dos homens , pelas declamações , e chocarrices 
dos satyricos. Olharão para as cousas unicamente da parte dos defeicos, e 
vícios , e ainda a estes debaixo da cor da exaggeração. 

Em geral he huma verdade, que os habituados a não verem senão as 
faltas dos outros, são incapazes da obra da reforma; pois que os sejus es- 
píritos não estão bastantemente suppridos com padrões do bom e bello , e 
só se deleitão na contemplação da malícia ; e por isso aborrecem os ho- 
mens. Dahi nasce a maliciosa propensão , que taes reformadores tem para 
destruir tudo com a sua actividade quadrimania, Elles intentarão reformar 
tudo pelo5 paradoxos de enthusiastas eloquentes, e loucos , corrio Rousseau , 
o qual todavia, ainda, nos seus lúcidos intervalíos, se espantaria da rema- 
tada loucura dos seus estudantes, e servis imitadores, que se lembrarão de 
applicar á Sociedade extravagâncias , que só forão escritas para excitar as 
phantasias com idéas maravilhosas , em lugar dos antigos romances de má- 
gicos , e fadas; descobrindo taes discípulos assim fé implícita, ainda na sua 
incredulidade. 

As pessoas, que emprehendem cousas de importância, ainda por metho- 
dos regulares , devem dar fundamento para se presumir nellas habilidade 
superior. Com maior razão o medico do Estado , que , não satisfeito de 
pertender curar enfermidades parciaes , emprehende regenerar constituições , 
deve mostrar talentos extraordinários , principalmente quando se jacta de 
jrião recorrer á pratica dos outros, nem ter modelos, que imite. Os anti- 
gos estabelecimentos são experimentados pelos seus efíèitos. Se com elles os 
povos são felizes , unidos , opulentos , guerreiros , e poderosos , bem pode-, 
mos daqui presumir o resto. Com razão concluímos , que he boa a causa ,- 
donde se deriva bom effeito. Nos estabelecimentos antigos , tem-se achado 
vários correctivos para as suas aberrações da theoria. Elles são resultado de 
varias necessidades ,'e conveniências : não são construídos em consequência 
de theorias ; antes as theorias se tem formado em virtude das experiências 
de séculos no governo humano. Os meios ensinados por estas são melhor 
accommodados aos fins políticos, ainda que ás vezes não pareçáo perfeita- 
mente consiliaveis com o Plano original. Isto se pôde curiosamente exem- 
plificar na Con&tttuiçáo Biirannica. 

Mas os edificadores Francezes não se embaraçarão com isso, nem fize- 
rão esforços de adaptar o novo edifício ao velho, quer nos alicerces, quer 
nas muralhas. Praticarão como os jardineiros vulgares , que formão tudo 
em hum exacto nível , propondo levantar a archiiectura do Estado sobre 
três bases, geométrica , arhhmetica , e finanças , a que chamarão i.* base do 
Território, 2. a base da População, ^. a base do Imposto. 

Na base geométrica , dividirão a área de seu paiz em 88 quadrados re- 
gulares, que chamarão Departamentos, tendo cada hum 720 districtos, que 
chamarão Communs , e subdividindo estes em medidas quadradas, a que de- 
rão o titulo de Camões. Nesta vista geométrica não se acháo grandes ta- 



(47) 
lentos legislativos. Com olho , cordel , e theodolito , qualquer trivial me- 
didor desempenharia a tarefa. Neste novo pavimento de quadrados , feita 
a organisaçáó pelo sysiema de Empédocles , e Euffon , e náo sobre princi- 
pio politico , he impossivel', .que tíaiii náo resultassem innumeraveis incon- 
venientes locnes , a que os homens náo estavão habituados. A bondade do 
terreno, numero de gente, sua riqueza, mais ou menos facilidades de con- 
tribuição , e infinitas outras circunstancias , fazem a medida do quadro hum 
ridículo padrão do poder de qualquer Estado. A igualdade em geometria he 
a mais disigual de todas as medidas na distribuição dos homens. 

A sublime sciencia Franceza , que assim se introduzio pelo campo da 
geometria , manifestou a sua ignorante methaphysici jurídica na arithmeti- 
ca da População. Dizendo, que os homens sáo inteiramente iguaes, e que 
por isso tinháo iguaes direitos ao governo , decretarão , que todo o ho- 
mem podesse votar em pessoa , que o representasse no Corpo Legislati- 
vo , com tanto que pagasse" ao Estado o valor de três dias de trabalho. 
Como ha innumeraveis pessoas das Ínfimas classes , que podem viver de 
seu escaco jornal ,'que apenas lhes dá mingoada subsistência de cada dia , 
ficarão excluídos de vetar os que tinháo mais necessidade de protecção , e 
defeza. Também excluirão de voto os-criados. Eis logo de hum golpe sub- 
vertido o inculcado principio da igualdade dos Direitos , que diziáo ter, 
a natureza dado gratuitamente em o nascimento a cada individuo 3 e de que 
nenhuma authoridade legitima o podia privar. 

Na base do Imposto perderão inteiramente de vista os direitos do ho- 
mem. Esta base he inteiramente estabelecida na propriedade. Ora esta he 
incompatível com a pertendida igualdade. Os novos legisladores , vendo-se 
embaraçados com suas idéas contradictorias , , diziáo que , destruindo-se a 
igualdade pessoal, se estabeleceria a aristocracia dos ricos; e todavia diziáo, 
que os ricos devem ser respeitados , e que tem titulo a mais larga parti- 
lha na administração dos negócios públicos. Sem duvida , elles sáo sujeitos 
á inveJ2 , e a inveja conduz ao ataque da propriedade. Por isso , dando°se- 
íhes o direito de terem mais votos, e de escolherem mais membros para a 
Representação Nacional , também sujeitarão a maiores impostos directos as 
que chamarão massas aristocráticas. 

Mas nada he mais desigual que os impostos directos. A contribuição in- 
directa , que provém dos Direitos exigidos sobrer os artigos de consumo , 
he na verdade a melhor medida dos impostos : ella descobre e segue a ri- 
queza mais naturalmente , do que a contribuição directa. Na verdade he 
difficil fixar a medida da- preferencia local j ' pois que algumas províncias 
podem pagar mais , não por csusas intrínsecas , mas pelas que se origináo 
dos mesmos districtos , sobre que tem alcançado preferencia. Huma grande 
Cidade, como Paris, deve pagar incomparavelmente mais direitos, que- as 
Cidades das províncias interiores; visto que attrahe os produetos, que vern^ 
destas, e que dalii se exportáo. Os Proprietários ricos das províncias, que 
gastáo na Corte as suas rendas , e que sáo os creadores das Cidades respe- 
ctivas , contribuem para Paris com parte dos produetos das suas provín- 
cias , na proporção das rendas , que delias lhes vem. A contribuição directa 
he assentada sobre a riqueza real , ou presumida ,ea riqueza lgcal pôde 






■ 



s 






(48) 

provir de causas não locaes ; e por tanto , em regra de equidade , não de- 
vem produzir preferencia loca]. 

O espirito de destribuiçáo ge@metrica , e de regulamento ariíhmeiico 
induzio aos reformadores Francezes a tratarem o seu paiz como a hum 
paiz de conquista, subjugado pelos mais salvagens conquistadores, que des- 
prezarão o povo submettido , insultando os seus sentimentos , e destruin- 
do rodos os vestígios de sua religião, policia, leis, e maneiras, produzindo 
geral pobreza. Fizeráo a França livre, da maneira que os outros (tão sin- 
ceros como elles ) amigos dos direitos do homem , os Romanos , fizeráo 
livre a Grécia , e as mais Nações, des:ruindo os vínculos da sua união, 
com o pretexto de segurar a independência de seus governos. 

Taes Legisladores se arrogarão a árdua tarefa da reforma , sem mais 
preparativo, e apparato do que a methaphysica de Graduados, e a maihe- 
maiica, e arithmetica de Dizimeiros , Doutores de Taboada. Elles náo con- 
siderarão , em cousa alguma , a natureza do homem , e do cidadão, nem 
estudarão os eííeitós dos hábitos , que são communicados pelas circunstancias 
da vida civil , que constitue outra natureza , e produzem huma artificial 
combinação , donde nascem muitas diversidades entre os homens conforme 
a seu nascimento , sua educação , suas profissões , suas difFerentes idades, 
suas residências em cidade ou no campo , seus vários modos de adquirir , 
e fixar a propriedade , e conforme a qualidade das mesmas propriedades ; 
o que tudo os forma artificialmente como differentes espécies de creaturas» 
Dahi resulta a necessidade , que tem o Legislador de dispor os cidadãos 
em taes classes , e situações do Estado , para que os seus particulares há- 
bitos melhor os qualificão , e de lhes conceder privilégios apropriados , que 
lhes dem segurança , protecção , e força , no conflicto e contenda , que se 
occasiona pela diversidade dos respectivos interesses, que sempre existem, 
e não podem deixar de existir em toda a sociedade complexa. 

Seria cuberto de vergonha o Lavrador, que fosse tão grosseiro, e tão 
destituído de senso commum , que , tendo variedade de carneiros , bois , e 
cavallos , pertendesse igualar todos , como, pertencendo á espécie geral de 
animaes , sem prover a cada hum delles com o respectivo apropriado sus- 
tento , curral, e emprego. Mas os Economistas da França, dispondo a ar- 
bítrio da sua própria espécie em methaphysica aérea, náo se cançárão em 
considerar particularidades de classes , e caículáráo somente a grége civil , 
como só composta de homens em geral. Estes Legisladores methaphysieos , 
rnathematicos , e chimicos , tentarão confundir todas as sortes de cidadãos 
em huma massa homogénea, e dividirão o seu montão, assim amalgamado, 
em incohere.ntes republicas. Nem ao menos attenderáo ás melhores lições 
da Methaphysica racional , que justamente estnbeleceo varias Cathegorias , 
e diversos predicamentos das cousas, bem distinguindo substancias, e quan- 
tidades , ordenando, que, em complexas deliberações, se attendesse á qua- 
lidade, relação , acção, paixão , lugar, tempo , circunstancias , e hábitos» 
Quizeráo estabelecer huma liberdade compulsória ; e corromperão o exerci- 
to para desertar, e rrahir a seu Soberano: depois ordenarão que esse exer- 
cito fizesse fogo contra o povo: o seu.máo exemplo induzio a insurreição 
das colónias, e a dos negros contra os coionistas. Quizeráo contradictorú- 



C 49 ) 
mente , e com Força armada continuar o systema Colonial. Em que espira- 
lo do Colleg.o dos Direitos do -homem se lê, que he parte dos Direitos do 
homem poder huma parte da Nação monopoiisar. e restringir o commercio 
da outra parte , para beneficio da que faz essa violência? Ha opposição : 
a resposta he tortura, violência, tropa, matança. 

Eis os fruetos de declarações metaphvsicas , extravagantemente feitas-, 
e vergonhosamente .retractadas! Como podia haver IiberdaJe sem* sabedoria 
sem virtude , sem inviolável guarda do direito da propriedade? Sem isso, 
,ella he o maior de todos os males : possíveis ; e vem a ser sandice, vicio , 
.e demência sem tutei3 , nem restricçáo. 

'As reformas em Finanças acabarão de mostrar a incapacidade das cabe-' 
ças-frrancezas; ellas destruirão completamente o seu paiz. Os revolucioná- 
rios, presumidos de Financeiros , náo virão nada mais no Redito publico 
semuy Assignados, Mandados Territoriaes , Annuidades , Ordenadas &c 
sem perceberem que prudentes operações de credito sáo boas cousas, quardo 
*ao effeiíos da boa ordem civil. Elles affectáráo copiar nesses expedientes a 
pratica de Inglaterra ; mas contradictoriamente tentarão estabelecer o credito 
Publico com exemplos de rapina , e estrago de toda a fé humana. Quizerár» 
forçar a receber o seu papei do governo, sem saberem, que a liberdade de 
ncceitar taes cédulas he a que as constitue moeda corrente. O papel francez 
.nao foi (como devia s,er ) o representante da opulência Nacional, mas sim 
da penuna publica ; elle não foi a creatura do credito publico , mas só ào 
-poder revolucionário Imaginarão que o florente Estado de Inglaterra era 
revido ao papei ao Banco, e náo que o credito do papel do Banco fosse 
o eííeito da florente condição do Commercio Nacional. Náo advertirão 
que na circulação náo se recebe hum só sbelíin , senáo por livre escolha das 
partes contrahentes , e que por isso facilmente se converte em dinheiro O 
nosso papel tem muito valor no Commercio , porque a lei náo lhe dá' al- 
gum no foro. He poderoso na Praça s e impotente na Corte. Cs=da credor 
de dez shellins pode recusar o seu pagamento em todo o papel do Banco de 
Inglaterra. Por isso ahi a riqueza em papei de credito facilita a entrada , 
sahida, e circulação do oiro, e praia , e. tende a augmentaila na quanti- 

Os objectos do Financeiro sáo : segurar amplo credito ao Estado ; esta- 
belecer impostos com discrição e igualdade ; empregallos economicamente, 
e , quando a necessidade o obriga a fazer uso do credito , segurar- os funda- 
mentos do mesmo credito, logo no primeiro empréstimo publico, e sempre ^os- 
tello peia clareza, e candura nos seus procedimentos, exacção do seus cál- 
culos , e solidez dos seus fundos. Grandes expectações se excitarão em to- 
da a Europa a este respeito da França -pela sua Revolução ; perém mallo- 
gráráõ-se. . v 

A dignidade de cada emprego depende da quantidade , e espécie de vir- 
tude , que se pôde exercer nelle. Todas as grandes qualidades do espirito, 
que operáo no publico, e que náo sáo meramente passiv.is, e scffredoras , 
requerem força para o seu desenvolvimento. Como a Rmdá" do Es>ado he 
o movei de todo o seu poder , a sna administração vem a ser huma esphe- 
i.a de toda a virtude activa. Sem tal virtude, he impossível boa administra- 



■ 



■ 



■ 

i. 



(50) 

cão, A virtude publica, sendo de natureza activa e esplendida , e destinada 
á grandes cousas, e exercida sobre grandes "interesses , requer grande espa- 
ço para as suas opraçóes , e náo se pôde desenvolver, e difTundir achan- 
cjo-se apertada em circunstanciai estreitas, e sórdidas. O Corpp politico só 
póie por meio de justa Rendi do Estado obrar conforme o seu génio , e 
caracter , desenvolver a sua virtude collectiva , e caracrerisar bem os que . 
movem, eque sáo , por assim dizer, a sua vida , e pnneipio director. Da- 
hi heque, náo só a magnanimidade , liberdade, beneficência, fortaleza, pro- 
videncia, e a .tutelar protecção das boas artes, deriváo o seu sustento, e 
a força de seus órgãos-, mas também o trabalho, vigilância , frugalidade , 
continência tem o seu próprio elemento na provisão , e distribuição da ri- 
queza publica. 

Por isso com razão a Sciencia das Finanças especulativa , e prática* 
(que se ajudáo por muitos ramos auxiliares dos conhecimentos humanos) 
he tida e.m alta estima pelos mais sábios, , e melhores homens : e como esta 
sciencia cresce com o augmento do "seu objecto , também a prosperidade , e 
melhora das Nações tem -geralmente crescido com o augmento de sua jus- 
ta Renda Publica , quando a balança dos esforços dos indivíduos , e do Es- 
tado em fazer adiantar tem proporção reciproca, e se acháo em harmonia e 
correspondência. Mas os sophistas francezes , só declamando vagamente con- 
tra Estancos Reaes , em lugar de algumas justas reformas nos objectos, e 
modo da colíecta das Rendas do Estado , em breve tempo fizeráo desappa- 
recer, a que antes existia , e destruirão a força do Reino , perdendo jun- 
tamente a sua phantasuca Republica. Os seus Financeiros foráo cruéis , e 
náo económicos. Ao principio penendèrâo supprir o Estado só com volun- 
tárias contribuições do povo: e logo depois recorrerão á empréstimos for- 
çados, confiscos, assignados i mandados territoriaes. , e.á todos os mais ab- 

com infernal confiança na omnipo- 

con- 
pro- 



sao notórios 



surdos , e horrores , que 

tencia do -roubo, e assassinato; descompondo a natureza das cousas , 
vertendo á indigência em recurso, pagando- o interesse com trapos, e 
vendo o Credor publico á ponta da baioneta. # 

Os Revolucionários- da França, por incomprehensivel espirito de delí- 
rio e engano , -jogarão o mais desesperado jogo. Tendo 'destruído todas as 
seguranças de huma liberdade moderada , e as indirectas restricçóes do des- 
potismo absoluto , se ã Monarchia for estabelecida outra vez na França ,. 
na mesma, ou noutra ,dyriastia , provavelmente, se não for voluntariamen- 
te regulada pelos sábios ,. e virtuosos conselhos do Príncipe , firmar-se-ha 
o mais completo poder arbitrário que jamais appareceo na Terra, lai será 
o fiai âo Monstro da Revolução. Os enganosos sonhos da regeneração K 
com as visões da igualdade, liberdade, e direitos do homem , se submergi- 
rão no sorvedouro Serbonio , (*) com profundo abysmo de miséria, e es- 
cravidão, para sempre. 

Humanos olhos náo se podem levantar para ver os grandes peccados > 
que bradarão da França ao Ceo , o qual a castigou com tão vil cativeiro » 



(*) Este he o celebrado horrível pântano d'Asia , onde o Imperador Roma* 
no Dt;cio se atolou ? e submergio cora todo o seu exercito. 



■ ÇíO 

e tão infame dominação , em que não se encontra conforto , nem ainda a 
compensação , que ás vezes se acha nos falsos esplendores de algum doce 
despotismo estabelecido , que , fazendo a sua brilhante pantomina thearral 
sobre as outras mais escuras tyrann ; a5, obsta que o género humano se sin- 
ta desKonrado ; ainda quando he opprimido. 

Boa ordem he o fundamento de todas as boas-cousas, O verdadeiro 
politico, na reforma dos Estados ; deve sempre ter em vista fazer , que o 
s povo , sem ser servil , seja sempre tractavel , e obediente. Jamais se deve 
por arte desarraigar dos seus espíritos os ess?ncines princípios da subordi- 
nação civil. Deve-se habiruallo..a respeitar as propriedades, de que não po- 
dem participar. Deve-se-Ihe pcmittir, que alcancem, por meio de seu tra- 
balho , tudo que se pôde obter pela energia da industria honesta ; mas de- 
ve-se-lhe sempre ensinar o reiig qso sentimento , de que achando (como he 
mais commum) os seus esíòrços desproporcionados a conseguir melhor sor- 
te , esperem para consolação de suas fadigas o obterem na vida futura âs 
proporções compensatórias tia Divina Justiça. Os que priváo o povo destas 
consolações náo fazem seftáo amortecer a sua industria , e oortáo pela raiz 
os meios legítimos de toda a adquisiçáo , e de toda a conservação. O que 
assim pratica , he o mais cruel oppréásor , e implacável inimigo -dos 
pob:es, e miseráveis; e ao mesmo tempo expõe os fructos da industria fe- 
liz, e as accumuiaçóes da fortuna aos auaques dos indivíduos indigentes-, e' 
desditosos , -que mallc^ráráo os seus projectos de melhorarem de condição. 

Embora se escreva^ lances generosos , e iliustres sentimentos de virruo- 
sa liberdade, que servem a dar calor ao coração, alargar os espiritos com 
Jiberdade de pensamentos , e animar o valor em tempos de conflicro. Eu 
mesmo leio com prazer os sublimes êxtases dos Poetas Lucano , e Corneil- 
le sobre esse assumpto. O bom politico deve sacrificar ás Graças 5 e com- 
prazer com a razão. 

Fazer governos he. eousa que não. requer grande sclenciá : estabelecen- 
do-se o poder em hum lugar, e forçando-se á obediência, a Obra está fei- 
ta : mas, para fazer o que se diz governo livre , requer-se espirito reflexi- 
vo , combinador , e poderoso , para conciliar os oppostos elementos de li- 
berdade, e restricçáo em huma Obfa coherenie. 

Os aduladores do povo jamais podem ser seus .Legisladores , e guias. 
Se 'algum mais inteliigente deljes propõe hum systema prudente de liber- 
dade-, contida nos justos limites , immediatamente os rivaes lançáo maior 
preço na Praça , e promettem licenças ,"e felicidades maiores.. Immediata» 
mente se levanta suspeita de infidelidade á su3 causa contra os mais sábios; 
a moderação hé sentenciada por virtude de cobardes; e a Concordata se jul- 
ga prudência de traidores. Assim ou òs bons sáo sacrificados á ignorância 
do povo, e á rivalidade dos competidores; ou, com vilania, e torturadas 
próprias idéas seguem a torrente do partido mais iníquo, e consumáo pelos 
próprios talentos a ruina da Nação. 

Eis os naturaes resultados das Revoluções, principiadas com falsos pre- 
textos, ou zelos indiscretos de súbitas reformas. Náo nego que entre o in- 
finito numero de actos de violência , e loucura dos Reformadores F a cezes 
náo fizessem estes algum bem , e não removessem algum abuso. Os que fi- 

G z 



CM ) 

zerão tud'3 de novo , não he maravilha que támbem fizessem alguma cou- 
sa benéfica. Porém os seus melhoramentos foráo superficiaes , e os seus er- 
ros foráo fundamentaes. 

Náo obremos jamais como os Francezes , que , presumrndo-se supe- 
riormente illuminados , procederão a fazer reparações do Estado , sèm ter 
por princípios rectores a cautela politica , a circunspecção philosophica , e a ti- 
midez, moral , procedendo sem a devida , e forte convicção da ignorância, 
e fallibiiidade do Género Humano. Accrescentemos novos bens , se for pos- 
sível ; mas conservemos o solido , que gozamos , sobre a constante, e fir- 
me base da Constituição Nacional , e náo, siguamos os desesperados voos 
dos aeronautas da França. Do contrario passaremos (como diz hum dos nos- 
sos Poetas) por grandes variedades de cousas náo experimentadas , as quaes, 
em todas as suas transmigrações , só serio depois purificadas por fogo e 
sangue. . 



, OBSERVAÇÕES 

Sobre ô génio e caracter da revolução Franceza , e sofae a necessidade ãã 
guerra, centra a Facção _ Usurpadora* 



A 



s, minhas rdéas , e os meus príneipios' we conduzem a considerar a 
França , náo como Estado , mas como hurna Facção. A vasta extensão içjr-. 
sitorial deste Paiz , a sua immensa população , as suas riquezas naturaes y 
e industriaes , e os seus bens de Commencio , e de Convenção, todo o ag- 
gregado. desta grande massa de cousas, que, nos casos ordinários, consti- 
tuem a força dos Estados, sáo para mim objectes de consideração secunda- 
da. Elles tem sido muitas vezes balanceados peia Gram Bretanha, e' sobe- 
jamente contrapezados. Ainda que sejão grandes aquelles meios de ataque, 
com tudo náo fazem a Faeçáo formidável. O que a constitue tal , he o mia 
espirito que possue o '..Corpo da França; que informa a sua<alma politica 5. 
que dá' a estampa á sua ambição ; que' distingue os seus habitantes dos Ou- 
tros homens , e dos outros povos., Áquelie espirito he o que lhe sopra hu- 
ma nova , pernicioza 3 e destruetiva actividade. Segura destruição está im- 
minente sobre os" infamados Príncipes no eonrlieto , era que se acháo , se 
se deixáo iiludir «pelos Facciosos. Seguir a estrada batida, he ir direito ao 
precipício. . 

A Facção náo he local , ou territorial , he hum mal geral. Onde pa- 
rece estar menos em acção , sempre está em vigor de vida. O seu espi- 
rito esíá na corrupção da nossa natureza. EUa existe em todos os paizes 
da Europa, e entre todas as ordens de homens de qualquer paiz, queolháo 
para a França como a Cabeça commum. O centro ahi está. A circunferert- 
Gã abrange qualquer regiáo onde exista Europeo. Em toda a parte a Faeçáo 
lie militante $ pa França he triurnphante. A franja he 9 Banco do degq* 



■ 



ííto , e o Banco da circulação de tedos os perniciosos princípios , quê" estão 
fermentando em cada Estado. 

A verdadeira natureza da guerra jacobina foi , no tempo da declara- 
ção , bem sentida , reconhecida , e declaada pelos Príncipes Confederados 
de huma maneira a mais exacta. No Manifesto publicado juníamente pelo 
Imperador da Allemanha., e Rei da. Prússia', esres Monarchas expressarão 
pelos- mais claros termos os seus . princípios. Se tivessem sido bem segui- 
dos , e executados-, elles náo deixariáo.de elevar a taes Soberanos a par. 
dos primeiros bemíeitores do Género Humano. Aqueíle Manifesto foi ( di« 
zem ) publicado para fazer certos- á presente geração, como também á pos- 
teridade , os seus motivos , e intenções , e o seu desinteresse de quacsquer 
desígnios pessoaes j declarando , quê to.ma'ráo as armas para o fim único de 
preservar a Ordem social , e politica entre todas as Nações civilizadas , e 
assegurar a cada Estado a sua religião , felicidade , independência , territó- 
rio , e legal constituição. Com este fundamento esperaváq , que todos 08 
Impérios , e Estados fossem unanimes na Confederação , e viessem a ser 
os firmes Guardas da felicidade do Género Humano , unindo seus esforços 
para livrar a humá táo populosa Nação ., como a França , âa, sua própria 
furia , e salvar a Europa do retorno ao barbarismo , e o Universo da anar- 
chia, e subversão , com que estava ameaçado. Esta declaração foi táo ge- 
nerosa, e heróica, como era sabia , e politica a empreza da guerra, pela 
total renuncia de todos os projectos de engrandecimento. Por- estes princí- 
pios, e náo por outros, desejava , que o nosso Soberano, e Paiz accedes* 
se á Communidade da Europa. Assim pensei , que se faria a guerra entre 
os partidistas àã antiga, civil, e moral ordem da Sociedade, contra huma 
seita de fanáticos , ambiciosos , e infiéis , que asjpiraváo ao Império Univer- 
íal , começando pela corfquista da França. 

Infelizmente os Confederados recusarão tomar o passo , que podia fa- 
Zçr o assalto logo no coração dos negócios. Paredão náo querer ferir o ini- 
migo ern .parte alguma vital. . No todo obrarão , como se realmente dese- 
jassem a conservação do Governo Revolucionário. Só tiveráo em vista pe- 
quenos objectos. Sempre estíveráo na circumferencia - 7 e quanto mais largo, 
e remoto era o circulo da Confederação , mais anciosamente o escolherá^ 
para esfera da acção nesta guerra centrífuga. Elles deixarão ao inimigo to- 
dos os meios de destruir a sua extensa linha de fraqueza. Neste plano , a-in- 
da com melhor fortuna , enfraqueeendo-se sempre o vencedor , se punha 
longe de alcançar o seu objecto. Logo que houve alguma apparencia.de fe> 
licidade , o espirito de engrandecimento , e consequentemente o espirito de 
mutuo ciúme , se apoderou das Potencias Alíiadas. Algumas procurarão aug- 
memo de território á custa da França ; varias á custa de algum Alliado ; e 
diversas á custa de terceiro Estado ; e quando desandou a roda da fortuna, 
e sobrevieráo desastres , julgarão , que o infortúnio, commum procedia dos 
vínculos, da fé , e amizade. Foi só em nome, guerra, de alliatiça. Náo po- 
de haver verdadeira companhia em sociedade de pilhagem, Náo* pôde haver 
commum interesse , onde cada Sócio náo espera huma tal partilha , que lhes 
eê forte ardor para os ganhos respectivos. Desde que a guerra se eonside» 
& fflerargeme gwrw de pweitç a nág yena |pi| a ffl guerra de ellinn^ 



(54) 

Que equivalente poderiáo dar, ou esperar os Príncipes dá Confederação fa- 
zendo pa2 separada; Que obteve com isso a Hespanha ? Ah j Hespanha, 
já está fora da questáo : ella he agora província do império jacobino: ella 
fará paz ou guerra ,, segundo a ordem dos assassinos rrancezes. Quanto ao 
effeito, e a-" substancia , a sua Coroa he fendo dos regicidas. (* ). 

Ou devemos entregar a Europa com pés e máos ligadas á França, ou 
devemos resgatalla do seu poder, mudando o plano da guerra. Se, em lu- 
gar de attacalia no cemitério das índias Occidentaes , desembarcássemos hum 
exercito de cem mil homens de Infanteria , Cavallaria , e Artelharia no pró- 
prio território da sua usurpaçá na Europa , a nossa gente , animada por 
principio, por eruhiisiasmo ,.e por vingança, achando cooperação propor- 
cional d'Austria, teria feito prodígios 'para desconcertar o systema atheis- 
rico dos Revolucionários da França , levando logo as nossas armas íCapu 
tal da Injustiça, Se fossemos desieitos , tomando-se antes as precauções , 
seria secura a"* retirada. Ficando estacionários , e só sustentando os Realis- 
tas, impenetrável barreira, e inexpugnável baluarte se formaria entre o ini- 
migo , e o seu poder naval. -Então a guerra teria systema correspondente, 
e direcçlo certa. Porém por desgraça , as duas Coroas, Britànnica, e Aus- 
tríaca não mostrarão ter relação s e harmonia. O terror dos Çannibáes foi 
mais ppderoso , que a influencia. "Áustria , e Hespanha , com tantos víncu- 
los de sangue , apostatáráo da causa çòmmum , e tudo foi perdido. Guerras 
duvidosas sempre terminarão em pazes humilhantes. 

Na Revolução da Ff anca ? duas sortes de homens deráo principalmente 
impulso , e caracter ás çuas determinações , a saber , os que presumiáo de phi- 
losophos , e políticos. Elles tomarão diversas veredas, mas todas foráo con- 
vergentes ao mesmo alvo. Os philosophos tiyetáo o predominante objecto 
(que proseguiráo com a mais fanática fúria) da total extirpação da religião, 
A questão do Império lhes era subalterna. Elles antes querenáo dominar em 
huma aldèa de atheos , do que ser os regedores do mundo chnstão, A sua 
ambição temporal era subordinada ao seu espirito de proselitismo; etn que 
nem Mahomet os excedeo, -. \ 

Os que mal tem feito snperficiaes estudos na historia natural do espi* 
rito humano 5 consideráo as opiniões religiosas como as únicas causas do ze- 
lo eathusiasueo dos propagadores de qualquer seita. Não tem advertido , 
aue não ha doutrina , que os homens queiráo espalhar com ardor , que não 
tenha o mesmo effeito. A natureza social do homem o tmpelle a propagar 
os seus princípios com igual força , que os impulsos p^sicos o estimulao a 
propavar a sua espécie. O entendimento para de3ig.n0 , e systema , e as pai- 
xões dão zelo , e vehemencia,. Todos os. homens se movem sob a disciplií 
na de suas opiniões. 

A religião , sem duvida , he huma das causas mais poderosas do en- 
ihusiasmo. Quando alguma matéria sobre este ponto vem a ser objecto de 
muita meditação , ella não pôde ser indirTente ao espirito. Os que nao armo 
a religião, temdhe ódio. Os rebeldes á Deos tem perfeito ódio ao Author 



(*') Que espirito presago de Mr. Burke em 179$ ! Que diria hoje se vivsfoi» 
fe, vendo a sua prophecia tão fatalmente completa ? 



(55) 
do seu ser. Files o aborrecem de todo o seu coração , de todo o seu espi- 
rito , de toda a sua "alma , -e com todas as suas forças. Deos náo se lhes 
aprezenta aos seus pensamentos senão com ameaça, e terror. Elles náo po- 
dem- tirar o Sol do Ceo , mas forcejáo , quanto podem ,• para fazer na ter-' 
ra fumaças , com' que o obscureção , e apartem dos próprios olhos. Náo 
tendo a possibilidade de se vingarem de Deos , deleitão-se em arrancar ào 
coração dos homens sua imagem , cu ao menos em a offuscar , confundir;, 
e desfigurar. Náo se julgue "do que fariáo os Atheos pelo que. náo fizeráo 
em quanto náo estava© incorporados ,- e com. Chefe. Entáo náo tinháo espe- 
ranças de dar hum universal curso ás suas opiniões , e eráo, levados na or- 
bita geral da religião , e da sociedade , sem o sentirenv Mas fogo que tive- 
ráo possibilidade de dominação , e de poderem propagar as $uas impiedades 
sem resistência, tirada a mascara da hypocrisia , e tendo mais a ganhar que 
perder na atrevida confissão de seus princípios , entáo a natureza deste espirito 
infernal , que teria o mal por seu bem , appareceo em toda a perfeição, líntáo 
fallaráo com todo o rancor , e malícia de suas línguas , e de seus corações , 
e ostentarão verdadeiro fremsí contra a religião , e contra todos os que a 
professaváo. O seu atheismo foi fanático , e homicida. 

A outra sorte de homens que promoverão a Revolução Franceza , fo- 
ráo os políticos] Para os que tinháo meditado pouco sobre a religião , esta 
náo lhes 'era objecto de amor , ou ódio. Elles não criáo em nenhuma, e 
isto era todo o seu fundo de saber. Sendo neurraes sobre esta parte , con- 
siderarão o aspecto dos negócios políticos pelo lado que melhor poderia cor- 
responder á sua combinação. Logo virão, que nada podiáo "obrar sem os phi- 
losophos; e estes assentarão, que a destruição da religião era o grande sup- 
pridor de tudo. O curso dos successos produzio entre os philosophos , e 
políticos renhidas contendas, mas todos concordarão no fundo dos objectos 
dos seus destinos, isto he , i* religião , e ambição, 

Nesta estupenda obra náo se deixou de empregar principio algum de 
acção , com que. ao mesmo tempo se vigorasse , e corrompesse o espirito 
humano ; mas o seu pensamento transcendente foi o engrandecimento exte- 
rior do poder Francez. Já antes de Revolução todo o systema Offieial da par- 
te Diplomática do Governo, desde os Ministros d'Estado até aos Amanu- 
enses das Secretarias , cooperava para esse fim. Todos os intrigantes nas 
Cortes Estrangeiras , todos os espiões assalariados, e todos os candidatos 
para empregos, obraváo por este principio. Isto se patenteou sem a menor 
replica nos livros publicados da Correspondência secreta de Mr. Favier , in- 
titulados Conjecturas Raciocinadas sobre a situação da França no systema po- 
litico da Europa , cuja copia se achou no Gabinete de Luiz XVI. , e que na 
■França se proclamou ser Novo Beneficio da Revolução. Inextricável cabala 
se tinha formado de pessoas das altas ordens , e das classes inferiores , que 
de dia a dia augmentou hum corpo de polittcos , activo , aventureiro , am- 
bicioso, e descontente, cujos membros desprezaváo a Corte , que os em- 
pregava, e as em que eráo empregados. Aquelie bom Soberano veio a ser 
a viciima da falsa politica de seu Antecessor , que foi a causa da negra , 
e tortuosa intriga , que preparou tamanha desgraça á Europa , pondo em 
movimento as paixões da Nação Franceza, a mais enérgica, e adira de r,ç>- 
- «ias as Nações , ainda antes da sua Revolução, 






O Governo da França agora differe essencialmente de todos os Gover- 
nos, que estáo formados. Ainda que o seu designio seja imrnoral , impio , 
e oppressivo , he com tudo espirituoso, audaz, intolerante , e systematico : 
he simples no seu principio , e tem unidade, e coherencia. O systema de 
engrandecimento se desenvolve em todos os espíritos ; as" paixões violentas 
só disputarão nos meios. Pertenderáó atacar a* Inglaterra no seu elemento , 
isto he , no seu Commercio , e Marinha. Para obter isto , náo lhes custa 
crmenor momento de anciedade cortar hum inteiro ramo de seu próprio Com- 
mercio , extinguir huma manufactura, destruir a circulação* da moeda, vio- 
lar o credito publico , suspender o curso da agricultura , ainda queimar hu- 
ma Cidade , C até devastar huma sua província inte'ra. A esta casta de gen- 
te , as necessidades, dezejos , liberdade, trabalho, industria, e 'sangue dós 
seus semelhantes , sáo nada. Cada cousa he referida ao systema de força. 
Tal systema de guerra he militar nos seus princípios, nas suas máximas, e 
em todos os seus movimentos. O Estado tem a dominação , e conquista por 
únicos objectos da sua Politica; império sobre os espíritos pelo proselytis» 
mo , e império sobre os corpos pelas armas. Com immenso reservatório 
de meios naturaes de fazer mal a França tem plena unidade na $ua direc- 
ção. Assim destruio no Esrado todo o recurso , que depende da opinião , 
è boa vontade dos indivíduos. Na falta de moeda metgllica , se fizerio as- 
signados , e outras espécies de f^lso papel-moeda. Estas imposturas expira- 
rão , ficando sem menor credito , e valor , e nós nos rimos. 

Mas que -significa o íado destes bilhetes de loterias, e papeladas do àçs* 
potismo ? O despotismo logo acho,u outros meios despóticos de supprir o 
seu lugar. Elles achio sempre com seus golpes de mito as produções da na- 
tureza , que os outros povos sáo obrigados a adquirir pelo labyrinthp do 
intrincado estudo, e da 'complexa industria da sociedade. Não se contentáo 
com roubar o fructo do trabalho alheio , mas tampem dispõem á seu arbí- 
trio da pessoa do trabalhador. 

Nunca faltarão recursos a Conquistadores taes como Gengis^am e A<fa- 
homet , tendo unidade de desígnio , e perseverança. Os Regedores da Fran- 
ça acharão os seus recursos nos crimes , e na tremenda energia, com que 
o Governo náo respeita sorte alguma de propriedade. Quando o Estado tem 
a propriedade particular , e publica em completa sujei.çáo , náo ha mais re- 
gras para os espiritos de homens desesperados. Esta descoberta he horrí- 
vel , e vem a ser para malfeitores huma mina inexgotavel : elles tem tudo 
a ganhar , e nada a perder. Tem huma herdade infinita em esperança : náo 
ha meio para elles entre a mais alta elevação, e a morte com infâmia.^ « 

Ou o novo systema da França deve ser destruído , ou elle destruirá 
a Europa. He geral loucura , e perdição deixallo estabelecer no meio da Eu- 
ropa , e em hum posto , onde a França commandando, a todos os outros 
Estados , eminentemente confronta , e ameaça a todos os Reinos , com a 
sua central geographia , e sua fronteira de ferro. ( * )• 

(*) Expressão do celebre Frederico o Grande ,„ Rei da Prússia , o qual dizia ; 
C|ue era vão esperar debellar a frança , em quanto tivesse a fronteira ée ffrr§ d# 
tantas linhas de Praças frites. 






(57) 

Na França todas as cousas estão postas em hum universal fermento , 
€ na decomposição da sociedade. Se nos não animarmos a arrostar a por- 
tentosa energia Gallica , que se náo embaraça com as cousas de Deos , ou 
dos homens; que está sempre vigilante, e sempre em ataque , que náo per- 
ir.itte a si mesma repouzo , ,e que náo soífre , que pessoa alguma fique im- 
pune ; se intentarmos resistir a esta energia com pobres máximas vulgares, 
e lugares communs da Politica velha , sempre com medos , duvidas, sus- 
peitas , com languida , e inerte hesitação , e meramente com espirito officiaí , 
e carregado de formalidades , que abandona o propósito a cada obstáculo , 
e que náo vê as dificuldades senáo para ceder a ellas , até se precitar no 
profundo abysmo , só a Omnipotência nos pôde salvar. 

Temos a combater com hum inimigo de viciosa , e destemperada acti- 
vidade : a virtude he limitada nos seus recursos : somos obrigados a obrar 
dentro do circulo àã nossa Moral. Gomo somos os principaes no perigo, 
devemos ser os principaes nos esforços. A Europa náo pôde ser salva sem 
a nossa intervenção. 



PENSAMENTOS 



Sobre a "Proposta de Paz, entre a Inglaterra e França , fúâ 
Burlie intitulou Paz Regicida em 1796* 

\^JS desgraçados suçcessos , que se tem seguido fiuns apoz d'outros, em 
longo e náo interrompido trem funeral , movendo-se em procissão , que pa- 
rece náo ter fim , náo sáo as principaes causas do nosso descorçoamento. 
Mais devemos temer o que nos ameaça no interior da Nação , do que os 
desastres exteriores , que se receáo nos hajáo de opprimír. A hum povo, 
que chegou a ser altivo e grande , e grande porque he aírivo , a mudança 
no espirito nacional he a mais terrível de todas as revoluções. 

3á náo vivirei para ver o desenvolvimento da intrincada conspiração, 
que faz escuro , e perplexo o pavoroso drama , que agora se está repre- 
sentando no theatro moral do mundo. Estou no fim da minha carreira , e 
mal posso discorrer,, e trabalhar. Em que parte da sua orbita a Nação 
actualmente se mova , náo he fácil conjecturar. Talvez tenha chegado ao 
seu aphelion (*). 

ò'em nos perdermos no infinito vácuo do mundo conjectural , pode-se 
dizer, que os nossos negócios iráó a peior , ou melhor, conforme a sabe- 
doria, ou fraqueza dos nossos planos. 

Em todas as especulações sobre homens ., e negócios humanos , he de 



(*) Na Astronomia se chama aphálion o ponto mais remoto do Sol, a que che« 
ga a terra na sua orbita, 

H 



I 

I 



C#5 

nao pequeno momento distinguir as causas de accidente das suas causas cons* 
tantes , e dos effeitos , c]ue náo podem ser alterados. Alguma irregularidade 
cm os' nossos movimentos náo he total desvio da nossa carreira. Náo sou 
do espirito desses especuladores, que parecem estar ceguros , que necessa- 
riamente , e pela constituição das cousas , todos os Estados tem os mesmos 
períodos de infância , tidolescencia , e velhice, que se acháo nos individues, 
que os compõe. Paralíelos desta sorte apenas fornecem semelhanças para 
illustrar , e ornar conjecturas, mas náo para nos supjprir com argumentos 
de solido raciocínio. Os objectos , que se tem temado força^ por analogia, 
náo se acháo nas mesmas classes "de existência. Os indivíduos sáo entes 
physicos, sujeitos is Leis universaes , e invariáveis. A immediata causa, 
que obra por estas^Leis pôde ser escura , mas os resultados geraes sáo ob- 
jectos de calculo certo. As Nações porém náo sáo entes physicos, mas es- 
sências meraes. Elias sáo combinações artificias > e 5 nasua próxima ef- 
ficieme causa , vem a ser as arbitrarias producçóes do espirito humano. Náo 
estamos ainda instruídos das Leis , que necessariamente influem na estabiii- 
dade deste género de obra , feita por esta espécie de agente. Náo ha na 
Ordem physica huma causa , pela qual algumas destas fabricas hajáo de ne- 
cessariamente brotar , fíorecer , e cecahir. Duvido se a historia do Género 
Humano he/ou jamais foi , assas completa, para dar fundamentos^ a huma 
lheoria segura sebre as causas internas , que necessariamente aheráo a for* 
tuna dos Estados. Estou longe de negar a operação desras causas ; ^ porém 
dias sáo infinitamente mais incertas , e muito mais escuras , e difficeis de 
se investigarem, do que as causas externas , que tendem a levantar , de- 
primir, e ás vezes subverter a huma Nação. 

He muitas vezes impossível nestas investigações politicas achar alguma 
proporção enire a força apparente de algumas causas moraes_, que possa- 
mos assignar , e a sua conhecida operação. Somos pois obrigados a attri- 
buir a sua operação ao mero acaso, ou, filiando mais piedosamente (tal- 
vez mais racionavelmente) á intervenção , e irresistível mão do Grande Re- 
gente , que dispõe de todas as causas. Temos visto Estados, que durarão 
por séculos quasi estacionários , sem fluxo , nem refluxo de prosperidade. 
Abuns parecerão exhaurir o seu vigor logo no seu começo. Vários brilha- 
rão* em gloria pouco ames da sua exiincçáo. O meridiano de alguns tem si- 
do o mais esplendido. Outros , em maior numero , tem fTuctuado , e expe- 
rimentado, em differentes períodos de sua existência, grande variedade de 
fortuna. No mesmo momento, em que alguns pareciáo submergir-se em in- 
sondáveis abysmos de desgraça , tem decúbito exaltado a cabeça sobre o> 
pélago do infortúnio, e principiando nova carreira , parecem abrir nova con- 
ta , e , ainda nas ultimas ruínas de seu paiz , tem posto os fundamentos 
de huma fimie, e durável grandeza. Tudo isto tem acontecido sem alguma 
apparente prévia mudança nas geraes circunstancias , que occasionáráo a 
sua infelicidade. A morte de hum homem em conjunctura critica , seu des- 
gosto , sua retirada, sua desgraça , tem feito sobrevir innumeraveis calami- 
dades á sua Nação (*). A J s vezes hum soldado razo tem de repente mu- 

'dado a face da s ua fortuna , e quasi da soa natureza % 

Ç*~) 4indã~qúe a historia faça menção de grandes guerias , e até de ruínas de 



C 0) 

Por estás cdwsas algumas Monnrchias de longa durâçSo tem commum» 
mente experimentado este fado. Assim aconieceo a França» Poucas tem ap- 
parecido com maior gloria. Algumas vezes muito elevada , outras vezes aba- 
tida , teve sempre mais crescimento, que diminuição , e continuou náo só 
a ser poderosa , mas formidável , até a hora da sua total ruina. A queda 
desta Monarchia esteve mui longe de ser precedida por alguns symptorsas 
exteriores de declinação. Mui pouco tempo antes da sua mortífera catastro- 
phe havia hum género de esplendor extrínseco na situação da Coroa , que 
de ordinário dá força á authoridade do Governo no interior da Nação. El- 
le parecia rer alcançado alguns dos mais esplendidos objectos de ambição dos 
Estados. Nenhuma das Potencias do Continente da Europa era inimiga da 
França. Todas el.las tacitamente se achaváo dispostas em seu favor, ou pu- 
blicamente se lhe tinháo confederado. A Nâçáo Britannica , que era a sua 
preponderante rival, tinha sido por ella humilhada ; e, quanto ás apparen- 
cias , se tinha enfraquecido ; e certamente foi assas posta em perigo pelo 
grande corte, que soffreo, de huma parte do seu império na America do Nor- 
le , a qual de dia em dia cada'vez mais se augmentava em gente , e riqueza* 

Deste auge de prosperidade , e grandeza humana a Monarchia da Fran- 
ça cahio por terra, sem resistência. Ella çahio sem algum daquelíes vícios do 
Monarcha , que tem sido ás vezes as causas das quedas dos Reinos.- Elle 
apenas tinha leves nódoas no seu caracter. As faltas no Thesouro Publico 
foráo só os pretextos , e instrumentos dos que maquinarão a ruina desta 
Monarchia , mas náo as suas reaes causas. A França , privada de seu an- 
tigo Governo se mostrou aos especuladores vulgares mais objecto de dó , 
ou insulto , conforme a disposição das Potencias vizinhas , do que o fiagéi- 
io e terror de todas. 

Porém do Sépulchro da assassinada Monarchia surgio hum vasto , tre- 
mendo , e informe Espectro, na mais terrível forma, que jamais táo pa- 
vorosamente assustou a imaginação , ou subjugou a fortaleza do homem. A- 
vançando em linha recta ao seu fim , não amedrontado por qualquer peri- 
go , não retido por algum remorso, desprezando todas as máximas ordiná- 
rias, e todos os meios eommuns , este horrendo Fantasma aterrou a todos, 
que náo Criáo que elle fosse possível , ou que jamais existisse. O veneno 
dos -outros Estados he o alimento deste novo governo. A bancarrota , cu- 
jo receio : foi huma das causas , que se assignou para a queda da Monarchia , 



Nações , que procederão de causas insignificantes , com tudo não se pôde contestar 
que ha causas regulares , e constantes , que mi não a constituição dos Corpos políti- 
cos , e preparão a sua ruina, como no corpo humano, que tafnbem , por unanime 
reconhecimento dos Médicos, tem causas predisponentes de moléstias , que de repen- 
te arrebentâo em symptomas mortaes, A França estava nestas circunstancias : três gran- 
des causas se podem assignar : I. corrupção da moral publica , pelos devassos escritos 
ímpios, e costumes sobremaneira licenciosos, que já náo se olhavão ahi com a divi- 
da detestação , mas antes erão objecto de riso , e passatempo : II. a guerra em fa- 
vor dos Anglo-Americanos , impolitica , deshumana , e dispendiosa , que occasionou 
airazos no Redito , e Credito Publico : III. contagio de vagas idéas republicanas da 
snthusiastas vindos dos paizes transatlânticos. 

»" Bi 



m 



veio a ser o fundo capital , com que ella abrio o sen trafico com o mundo. 

O Governo dos regicidas , depois de aniquilar a Renda Publica , des- 
tuir manufictuns , arruinar o Commercio , deixar sem cultura os campos- 5 
despovoar a metade do paiz , descontentar, empobrecer , reduzir á escravi- 
dão, e esfumar o povo, passando com rápida, excêntrica, e incalculável 
carreira , desde a mais sai vagem anarchia até o despotismo o mais feroz , 
tem actualmente conquistado as mais bellas partes da Europa , e ao mesmo 
tempo aftícto , desunido , desconcertado , e feiro em postas todo o resto 
da Europa ; havendo de tal modo subjugado os espirites dos Regedores de 
cada Nação, que já não descobrem presentemente outro recurso em si mes- 
mos , mais do que o ficarem com titulos pela insultante mercê daquelle 
Monstro, ostentando a sua própria franqueza , e humilhação. A única" am- 
bição destes consiste em serem admittidos á mais favorecida ciasse na Ordem 
da escravidão á Potencia Dominante. Parece que os Soberanos só sáo emulos 
em Hasta Publica , dando lanços á porfia contra a sua própria estima. Pa- 
recem ter reconhecido' a preeminência dos regicidas, e que de bom animo 
tacitamente descem abaixo da cathegoria dos seus assassínios sacrilégios, como 
se fossem os seus naturaes Magistrados , e juizes. A dignidade agora só he 
a prerogativa do crime. He porém do interesse do Género Humano , que 
a destruição da Ordem civil não seja- o titulo da Realeza , nem o crime & 
base da honra. 

Aquelle parece agora ser o modo de pensar do dia. No principio da 
Revolução , a força da França foi muito desprezada ; agora he em excremo 
temida. Como huma coragem inconsiderada foi seguida de hum medo irra- 
cional , deve-se esperar , que , por meio de huma deliberação prudente , che- 
guemos á huma fortaleza solida. Quem sabe , se a indignação não suecederá 
ao terror, e a reprodução de altos sentimentos, desvanecendo a illusáo de 
huma segurança comprada á custa de gloria , náo arrojará á desesperação 
generosa, que muitas vezes tem obstado á dissolução dos Impérios, a que 
antes se não achava remédio em conselhos sábios? Não devemos abandonar 
a Naçáo ao seu fado, -ou proceder, e aconselhar, como senão tivesse re- 
médio. Náo ha razão de temer , que , por faltarem os meios ordinários , 
mo se possáo apresentar outros, que sustentem o espirito publico, e afor- 
tuna publica. Quando o coração está inteiro, acharemos , ou faremos taes 
meios. O coração do Cidadão he a perenne fonte da energia do Estado. 
Forque o pulso ás vezes parece intermittente em enfermidade perigosa, náo 
se deve concluir , que terminará logo a vida. O Publico náo se deve con- 
siderar incurável. 

No piineipio da que se chama a gtterra de sete annos , suecedendo al- 
guns revezes, parecemos abandonar a nós mesmos, e até fazer directa con- 
fissão de nossa inferioridade á Fiança ; e quando já muitas pessoas estavão 
promptas a proceder na Carreira da Administração conforme ao senso des- 
ta inferioridade , poucos mezes bastarão para eíféiiuar mudança nos espíri- 
tos ; pois, dos gritos do descerçoamento especulativo , a Nação se elevou 
ao mais alto cume de vigor pratico. Jamais , como então , se manifestou 
com maior energia o espirito masculino de Inglaterra , nem o Génio Na- 
cional voou com mais altiva pieemjaençia sobre a Franja^ 



C Si 3 

Não desespero da fortuna publica , nem cio espirito publico. Devemos 
caminhar por novas estradas: sem isso, náo encontraremos o nosso inimi- 
go na sua carreira extraviada. Náo nos enganemos a nós mesmos. Estamos 
no principio de grandes desordens. Reconheço , que o actuai estado dos ne- 
gócios públicos íie infinitamente menos esperançoso do que o mencionado , 
e que a salvação de todas as Potencias da Europa he mais intrincada , e 
critica , e acima de toda a comparação. Ha porém huma sabedoria animo- 
sa , como também ha huma falsa , e reptil prudência , que he o resultado » 
náo da cautela , mas do medo sob o pezo de infortúnios. Entáo os nervos 
do entendimento sáo tão relaxados , e o perigo táo urgente , que absoluta- 
mente confunde todas as faculdades racionaes , e í*áo deixa providenciar de- 
vidamente aos riscos futuros , nem justamente avalialios , ou cabalmente vèl- 
los. Como os olhos do espirito sáo deslumbrados , e amortecidos com ab- 
jecta desconfiança de nós mesmos , e extravagante admiração do inimigo , 
náo se nos apresenta outra esperança senáo a de ham compromisso com o 
seu orgulho , e inteira submisáo á sua vontade. Submergimo-nos em o ne- 
gro fundo do desmaio com toda a temerária precipitação do terror. A natu- 
reza da coragem he (sem duvida) o familiarizasse com o perigo ; e , por 
seguro instincto , ainda em a palpável noite dos seus terrores , os homens 
chamáo, a sua coragem a resistir-lhe. Os fracos procuráo o refugio dos pró- 
prios medos nos mesmos medos , e consideráo a cobardia » que contempori- 
za , como o único recurso de segurança. 

As regras da prudência raras vezes podem ser exactas , e universaes. 
Náo nego , que pequenos Estados deva® fazer temporário compromisso com 
a Potencia , que tem os meios de fazer desappareeer a sua insignificante 
existência; porém hum grande Estado , sendo muito invejado, e muito te- 
mido, não pôde achar segurança na humilhação. Poder, eminência, e con- 
sideração náo sáo cousas que se peçáo por esmoíla. Elias devem ser impe- 
riosamente sustentadas ; e os que supplícáo mercê de outros , náo podem 
esperar justiça. A Justiça , que se pode obter da caridade do inimigo , de- 
pende do caracter deste , e o devem conhecer bem , os que confiáo nelle 
coai fé implícita. 

Temos vastos interesses a salvar , e grandes meios pára os manter ; 
porém devemos lembrar-nos , que também o artífice pode ser mui sobrecar- 
regado £om os próprios instrumentos, e que os nossos recursos nos podem 
servir de embaraços. 

Quando a riqueza he o obediente e laborioso escravo da virtude , e da 
honra publicai então a riqueza está no seu lugar , e tem o seu devido uso j 
mas se esta ordem he mudada , e a honra he sacrificada á conservação das 
riquezas , as riquezas que não tem olhos , nem mãos , nem alguma cousa 
verdadeiramente vital em si mesmas , náo podem muito sobreviver á exis- 
tência daquellas duas potencias vivificantes, que sáo os seus legítimos Senho- 
jes , e os seus poderosos protectores. Se temos império sobre a nossa ri- 
queza, seremos ricos, e livres j se a nossa riqueza tem império sobre nós, 
seremos verdadeiramente pobres. Seremos comprados pelo inimigo com os 
thesouros dos nossos próprios cofres. Grande juizo do valor de hum inte- 
jesse subordinado pócje ser realmente a for^e do aosso real perigo, e iguai- 



mente â ruína certa dos interesses de huma ordem superior : multas vezes 
os homens tem perdido todos esses interesses, por náo quererem arriscar tu- 
do por defendelíos. 

A ostentação de nossas riquezas diante de Ladroes náo he o meio de 
restringir a sua ousadia , ou de minorar a sua rapacidade. Temos a tratar 
com hum inimigo , que náo olha para a contenda como negocio de medir, 
é pézar bolsas. Fie o Gallo , que pôe a espada na baiança. Elle he mais 
tentado com a nossa riqueza, como despojo , do que amedrontado com el- 
la } como poder. Onde a essencial força publica (de que o dinheiro faz par- 
te) está em aigum gráo ao pár na contenda entre as Nações , o Estado que 
se tem resolvido antes a arriscar a sua existência , que abandonar os seus 
grandes objectos, tem infinita vantagem sobre o que está decidido a ceder, 
antes do que levar a sua resistência além de certo ponto. Humanamente fat- 
iando , o povo que regula os seus esforços até os limites da própria exis- 
tência , deve dar a Lei á Nação , que náo leva a sua opposiçáo avante da 
sua conveniência. 

Se náo olharmos mais do que á nossa condição interior o estado da 
T^açáo está vigoroso , e ainda cheio > mas , se imaginarmos , que o nosso 
paiz pôde por muito tempo manter o seu sangue , e alimento , separanao- 
se da Gommunidade do (jenero Humano , tal opinião náo merece refuta- 
ção , por absurda , náo menos que insana. Táo improvidente , e estúpido 
egoísmo náo vale a menor discussão. Nós náo podemos na presente conjun- 
ctura fazer paz com o inimigo , sem abandonarmos os interesses do Géne- 
ro Humano. 

Se olharmos somente para o nosso ténue pecúlio adquirido na guerra, 
sem duvida já obtivemos algumas pequenas vantagens , mas ambíguas em 
sua natureza , e a muito custo compradas, Náo temos porém , ainda no 
niais leve gráo , diminuído a força do inimigo commum em alguns dos pon- 
ios , em que a sua particular força consiste j e ao mesmo tempo se levan* 
táráo contra nós novos inimigos , e alijados dos regicidas , por estranha 
Confederação formada dos fragmentos da antecedente nossa geral Aliiança. 
Quanto a nós , considerados como partes da Gommunidade da Europa , e 
interessados no seu fado, o estado das cousas náo pôde ser mais duvido* 
so , e perplexo., 

Quando Luiz XIV. se fez Senhor das mais extensas , e importantes 
províncias da Hespanha , correo a Lombardia , b.ueo ás portas de Turim , 
e invadio os territórios d'Alemanha , o estado da Europa era verdadeira- 
mente pavoroso. Então o grande recurso da Europa foi Inglaterra ; náo a 
Inglaterra destacada do resto do Mundo, e divertindo-se eom a ostentação 
theatral de sua Marinha (que náo pôde ser de gloria, quando são precá- 
rias as fontes deste poder , e de toda a outra espécie de poder) mas a In- 
glaterra incorporada á Europa, que sympathizava com a sua adversidade, 
e com a felicidade do Género Humano , reconhecendo , que nada nos ne* 
gocios humanos lhe he estrangeiro, 

Devemos considerar como seguro axioma , que nenhuma Confederação 
pode existir contra a França, com effeito , ou duração , de que Inglaterra 
»áo só seja parte, mas também a cabeça | e nem Inglaterra pôde perten» 



der etebeHàr a França, senão confederando-se com o Corpo da Christandade. ' 

Em a nossa comi de guerra com a França , como Guerra de Comnm- 
nkão , no instante em que principiarmos a fazer acções , e insinuações de 
paz , vem a ser guerra de desgraça. As vantagens independemes , que te- 
mos obtido á custa da causa commum , se ellas nos enganáo sobre os nos- 
sos mais importantes, e seguros interesses, devem-se contar enrre as nos- 
sas rnniores perdas. 

Os Alliados da Gram-Bretanha tem sido miseravelmente illudidos, por 
hum grande erro fundamentai, isto he , que está em nosso poder fazer paz 
com hum Monstro , cujos desígnios o fazem formidável. Muitos Estadistas 
imagináo, que o cessar de resistir-lhe , he o certo expediente de segurar os 
Governos. Este pallido pensamento tem enfraquecido todas as suas empre- 
zas , e desconcertado todas as suas tortuosas politicas. Não podéráo , ou an- 
tes náo quizeráo , ver nas mais explicitas declarações do inimigo , e no seu 
uniforme procedimento , que maior segurança se pode achar na mais. árdua 
guerra , do que na amizade desta casta de gente. A sua amizade hostil náo 
pôde ser alcançada em outros termos , que náo involváo a impossibilidade 
de resistir-se depois a seus designiòs. Este grande prolífico erro foi a causa 
de fazer os nossos Alliados indifferentes na direcção da guerra. Os reve- 
zes , que o Estado dos assassínios sofFrêráo , tem uniformemente occasionado 
novos esforços , com que náo só repararão as suas perdas , mas também 
os prepararão a novas conquistas. Os revezes dos Alliados, pelo contrario, 
só forão seguidos por deserção , desmaio , desintelligencia , abandono da sua 
politica, desvio de princípios, admiração do inimigo, mutuas accusações , 
e reciproca desconfiança da própria causa, e de seu poder , e valor. 

* Grandes difficuldades nos apertão de toda a parte em consequência des- 
ta errónea politica, Longe de pailiar o mal na sua representação , desejo 
para meu fundamento firmar a verdade , de que nunca existio maior mal 
do que o que temos a combater. No momento, em que se receia algum sú- 
bito terror pânico , pôde ser prudente occuitar por algum tempo algum 
grande desastre publico, e ir revelando-o por grãos, até que o espirito do 
povo tenha intervalio para resurgir , e o seu entendimento tenha descanço 
para se reanimar , e também para que mais firmes conselhos possáo preve- 
nir algum acto desesperado , estando-se debaixo das primeiras impressões 
de raiva , e terror. Mas a respeito do geral estado das cousas , que proce- 
dem dos successos j e causas já conhecidas em grosso, náo ha piedade nes- 
sa espécie de fraude , que encobre a verdadeira natureza de taes successos , 
e de suas causas ; pois só resoluções erróneas podem resultar de representa- 
ções falsas. As providencias, que nos desastres ordinários são proveitosas, 
náo são , nas grandes desgraças nacionaes, , outra cousa senão entrar em 
farça com o rnai. O peior phenomeno he vêr-se, que tudo he seguro, ex- 
cepto o que as Leis tem feito sagrado ; tudo he vilania , e languidez, on- 
de náo ha mais. que fúria , e facção. 

He impossível náo observar que , á proporção que nos avizinhamos 
ás peçonhentas garras da anarchia , o encanto parece irresistível. A' propor- 
ção que somos attrahidos para o frio o mais enregelado da irreligião , e 
immoraiidade , logo todos os venenosos, e phosphoricos insectos <jo Esta« 



■:>■< 









(«4) 

do se íevâíitáo para ostentar a sua vida. Está em a natureza, destas enfer- 
midades eruptivas do Estado o apparecerem, e desapparecerern taes excres- 
cências ', mas o fermento da moléstia remanece , e náo mitiga a sua mali- 
gnidade ; e só se espera por mais livre communicaçáo com a fonte do re- 
gicídio , para desenvolver , e augmentar a sua força. 

Estamos em guerra de particular natureza. Náo se trata com huma Na- 
ção ordinária , que he inimiga , ou amiga , que , segundo a paixão , ou o inte- 
resse , possa dictar as hostilidades ; nem ainda com hum Estado , que faz 
guerra por extravagância, e que a abandona depois de cançado. Temos guer- 
ra com bum syslem/t , que, pela sua essência, he inimigo de todos os Go« 
vernos, e que faz guerra ou paz, conforme a guerra, ou a paz pode me- 
lhor contribuir á subversão dos mesmos Governos. 

Temos guerra com Doutrina armada. Ella vem a ser , por sua natu- 
reza , huma facção de opinião, de interesse, de enthusiasmo , em todos 
os paizes. Para nós he como o Collosso de Rhodes , que aspira a cavalgar 
o nosso canal. Elle tem hum pé na praia do Continente , e outro no Solo 
Britânico. Nada pôde tão completamente arruinar a qualquer dos amigos 
Governos, e o nosso em particular, do que o mostrarmos reconhecimento 
(claro ou implícito ) de algum género de superioridade deste novo poder. 

Isto funda-se na inalterável Constituição das cousas. Ninguém pôde 
esperar cousas grandes , senão o que tem, força de sorJrer grandes perdas. 
Os que fazem seus ajustes logo no principio da desventura , põem o sêjlo 
ás próprias calamidades. Huma sorte de coragem pertence ás Negociações 
dos Gabinetes , como ás operações do Campo. Hum Negociador Politico 
deve muitas vezes mostrar , que arrisca todo o êxito do Tratado , se elle 
p deseja segurar em algum ponto principal, 

Aos que náo podem contemplar com prazer a queda das grandezas hu- 
manas náo conheço mais mortificante espectáculo, do que o verem a reu- 
nida Magestade das Testas Coroadas da Europa esperando , como criados 
na antecâmara de regicidas, que, quando lhe apraza, abráo as portas aos 
seus altos, e poderosos Clientes, repartindo favores de etiquetas aos Ple- 
nipotenciários da Real Impotência , conceden Jo-ihes precedências conforme 
a antiguidade de sua degradação , apresentando os murchos restos das graças 
da antiga Corte com insultante , feroz , e sardónico rizo de hum sanguinário 
amounador , que talvez ainda lhes esteja medindo com os olhos a estatura 
proporcionada para a guilhotina. Estes Embaixadores poderão voltar como 
tons Cortezáos , porém nunca tornarão com verdad.-ira affeiçáo a seu Sobe- 
rano , e á Constituição , Religião , e Legislação do seu paiz. Ha grande 
perigo, que elles entrem rindo-se nesta cova de Throphonio. Elles yiráõ a 
ser os verdadeiros conduetores do contagio a todos os paizes, que tiverem 
© infortúnio de enviallos á matriz de tal electricidade. Pelo menos , se fa- 
raó indirFerentes á huma Constituição, ou á outra, e não se poderáó elevar 
ao nivel da verdadeira dignidade , e da casta estimação das próprias pes- 
soas , contaminando-se pelo contacto , obsequio , e afabilidade com tanta gen^ 
te nefaria. v 

Os regicidas foráo os que primeiro nos declararão a guerra. Nos ago« 
?a somos os primeiros a solicitar a paz. Em proporção 4* humildade , e 



C ^5" > 

perseverança,' que mostrámos em as nossas propostas, cresceo a obstinação 
de sua arrogância em rejeicallas. A paciência do sen orgulho se cançon com 
a importunidade da nossa cortezia , e redobrow os insultos. Muitas vezes 
acontece , que por cimbres dos Governos se rejeitáo ofrerecimenios públicos 
do inimigo , quando aliás o interesse bem entendido secretamente dieta a 
acceitaçào da vantagem. He o caracter da humanidade submetter-se á força 
das cousas. Ha consanguinidade entre benevolência , e condescendência em 
justos termos. Sáo virtudes do mesmo fundo. A dignidade he de boa pro- 
sápia ; mas pertence á famiíia da fortaleza. No espirito desta benevolência 
procurámos obter paz do Directório dos regicidas , para poupar as Vidas 
de infelizes pessoas da primeira distincçâo , e que estando sob a protecção , 
e no serviço da Gram-Bretanha , por desastres do mar foráo lançados so- 
bre a praia Franceza , mais barbara, e deshumana , do que o inclemente O- 
Ceano na mais cruel de todas as tempestades. Deo-se entáo a opporiunidade 
de exprimir as misérias da guerra , quando a fortuna da guerra se declarou 
pelos regicidas. 

Náo digo que os procedimentos diplomáticos deváo ser como os pro- 
cessos parlamentarios , ou judiciaes , exactamente conformes aos. Arestos pre- 
cedentes. Mas hum grande Estado deve sempre ter em vista as amigas má* 
ximas , principalmente onde he necessário mostrar toda a dignidade nacio- 
nal , e aliás concorrem também aos bons propósitos as regras da prudência-; 
e sobre tudo quando as circunstancias do rempo requerem , que se resista 
ao espirito de innoraçáo , que tende a humilhar as Potencias Soberanas. 

A proposta da paz foi êâ parte da Gram Bretanha hum acto voluntá- 
rio , procedido do desejo de accommodaçáo , e da geral pacificação da Euro- 
pa. A repulsa dos regicidas em não quererem tratar com a Gram Bretanha 
em Congresso das Potencias Alliadas , dá matéria para a mais seria refle- 
xão, Desunindo-se assim cada Estado huns dos outros , como a Corsa re- 
lida separando-se das companheiras , toda a Potencia he tratada conforme 
ao grão de seu merecimento, em qualidade de desertora da causa commum. 
Nesta Diplomacia de traiçáo, os regicidas, achando a cada Soberano solitá- 
rio , e desprotegido , vem a dar-lhe a Lei com a maior facilidade. Por tal 
systema , irremediável desconfiança se disseminou entre os Conferados ; e , 
para o futuro , toda a Alliança se faz impraticável. Assim tratarão com a 
Prússia, Hespanha, Sardenha , Estados Ecclesiasticos , e outros ; e estes Es- 
tados recusarão tratar de outro modo, apostatando da Grani Bretanha. Peio- 
res que cegos, náo viráo , que, desviando-se da regularidade do systema, 
neste caso, e em todos os outros, elles adoptarão o mais terrivel plano 
para total destruição da própria independência ; nio advertindo , que náo 
poderiáo achar refugio senão ligando-se immoveímente á causa commum. 

Os regicidas responderão cathegoricarnente affectando sinceridade , e di- 
zendo que ,, o Acro Constitucional náo lhes permittia consentir em aliena- 
ção alguma dos paizes conquistados , que , conforme as Leis existentes, 
constituem o território da Republica ; que sobre outros interesses políticos , 
e commerciaes, estariâo promptos a receber as proposições que fossem jus. 
tas , racionáveis , e compatíveis com a dignidade da Republica. „ 

Nos Annaes do orgulho hão existio jamais táo insultante declaração, 

1 




H' 



i;S 



(Í6) 

Ella he insuhante nas palavras , nas maneiras , na substancia , e he , em 
cima disso , pavorosa. He huma amostra do que se pòie esperar dos Se- 
nhores , que estamos preparando para o nosso humilhado paiz. A sua af- 
fectaia candura consiste em directo Manifesto do seu Despotismo, e Ambi- 
ção. Na sua unidade , e indivisibilidade da posse do que roubáráo , e se apro- 
priarão dos Estados de seus vizinhos , elles amalgamáo , e submergem im- 
mensas , e ricas províncias , cheias de praças fortes , e de populosas , flo- 
rentes , e opulentas Cidades. Tudo isso não he já matéria de discussão di- 
plomática. E porque Lei? He a Lei das Nações. ? He alguma reconhecida 
publica Lei da Europa : Ha alguma presa ipçáo de posse immemorialde 
sua parte ? Não. He huma declaração feita pendendo a lide , _e no meio de 
huma guerra , cujo principal objecto foi , na origem , a defensão natural das 
Nações contra huma Nação , que adoptou furiosos princípios anarchicos , pa- 
ra destruição de todas 



e desorganização da Ordem civil. 
A estranha Lei dos anarchistas não foi feira para hum objecto trivial ; 
nem para hum porto , ou para huma fortaleza ; mas pari hum grande rei- 
no , e para a religião , moral , leis , liberdade , vida , e fortuna de milhões 
de creaturas humanas , que , sem consentimento próprio , ou do seu legiti- 
mo Governo, sem ceremonia, e sem mais cumprimento , só por Actos ar- 
bitrários de hum Governo , á que humicidas , e regicidas chamáo Lei , são 
incorporadas na sua tyrannia. Elles com hum feixe de Leis , e Legisladores de 
seu molde dissiparão todas as Constituições, e Leis reconhecidas, e até náo 
escrupulizáráo em profanar os ftindamentaes sagrados direitos do homem , 
reduzindo a nada , e com ignominia , o Santo Código, da Lei da Nature- 
za , pertendendo , que só ã sua forjada Lei despótica, e revolucionaria se- 
ja invulnerável , impreterível , e immortal. Arrogando-se o Magistério, e 
o Senhorio de todas as cousas divinas , e humanas , só na sua omnipoten- 
te legislatura se acháo sem o poder de fazer piz compatível com a tranquil- 
idade , e honra de seus vizinhos. Só sáo poderosos em usurpar , neas im- 
potentes em restituir. Pela sua potencia , e impotência igualmente se engran- 
decem , enfraquecendo , e empobrecendo todas as outras Nações. 

Com razão pois o Governo Brkannico respondeo , que, etn quanto 
persistissem estas disposições no Governo Francez , nada restava ao Rei , 
senão proseguir em huroà guerra igualmente justa, e necessária. 

Depois "desta resposta, os Regicidas devastarão toda a Europa, e até 
Portugal se curvou ao seu jugo. Toda a demonstração de implacável ran- 
cor , redobrada animosidade , e inaomito orgulho , foráo os únicos estimu- 
los , que recebemos das nossas supplicas. Quando a guerra se fez dez vezes 
mais necessária , a nossa resolução de proseguir nella se amolgou com o ca- 
lor da estação. 

Se a humilhação he o elemento , em que devemos, viver , confesso , que 
náo me enamoro da idéa de expor as nossas chagas lazaras aporta de ca- 
da soberbáo servidor da França. O caliz d'amargura náo tem ainda sido 
bebido a tão grandes tragos , como em se propor paz á França. Procurá- 
mos Mediador em hum Ministro de Dinamarca , em cuja pessoa a dignida- 
de Real tinha sido insultada, e envilecida a Sede do orgulho plebeo , cora 
o aireviaiento o mais insolente de levantados proclamadores > e missiona? 



C*0 

tios de geral Rebellião. Experimentámos outra repulsa, com a sua ordiná- 
ria invectiva centra o Ministro Inglez, arguindo-o da proverbial perfídia puni* 
ca, eaffirmando-se , que náo podia ser de boa fé o desejo de paz da parte do 
Governo Britannico ; visto que esta lhe arrancaria a sua Preponderância Ma- 
rítima, restabeleceria a Liberdade dos Mares, e daria novo impulso ás Ma- 
rinhas de França, Hespanha , e Hollanda , e elevaria ao mais alto gráo 
de prosperidade a industria , e o Commercio destas Nações , em que aiiàs 
sempre Inglaterra tinha encontrado rivaes , considerando-as como inimigas 
do seu Commercio. Accrescentaváo o insulto dizendo „ He preciso, que o 
Governo Britannico abjure o injusto ódio que nos tem , e que a finai abra 
os ouvidos á voz da humanidade. „ 

Jamais em Diplomacia appareceo papel tão incendiário , como Preli- 
minar de negociação de paz. Poucas declarações de guerra tem manifestado 
mais atroz malevolencia. Omitto a afronta dessa rhapsodia. Náo fallo mais 
de dignidade nacional: o timbre Inglez está a expirar.. Só farei observações 
politicas sobre este negocio baixo , com que os algozes regicidas quizeráo 
lançar o baraço á garganta da Gram Bretanha. 

A idéa de Negociação de paz suppõe sempre alguma confiança na fé 
das propostas do Negociador: deve-se-lhe dar credito nesse tempo, e acto. 
Aiiàs os homens recajeitrão com triplicada força contra o estimulo, que os 
fere. Soppor traição por base do trato de paz , he excluir toda a esperan- 
ça, e seguridade ca transacção amigável. Isto he o mais fatal agoiro de eter- 
na hostilidade. Insistir em novas propostas , quando o inimigo attribue per- 
fídia a;é nas Credenciaes, he dar fraqueza aos plenos poderás concedidos ao> 
caracter do Embaixador. 

A França requer, que se ouça a voz da humanidade. He extraordiná- 
ria demanda : he pôr-nos cera nos ouvidos , como o astuto Ulysses ordenou 
a seus marinheiros contra as Sereias do Oceano. Que terno, ahSnado , e af- 
feemoso canto he este da douce hmvanicé (doce humanidade) do Choro dos 
eonriscacores , e assassinos, que estabelecerão hum systema destruetivo de 
ioda a ordem publica, e o "mantiveráo por meio de proscripções , extermí- 
nios, sacrilégios, matadouros, e huma rebelliáo , que se náo pode recordar 
sem horror , e paver , peio exeeravel par?ieidio do mais justo , e beneflco> 



■Soberano da própria Nsçáo , e de hm 



■e Pr ince za, que com immo- 



vel animo tinha participado dos mesmos infortúnios 3 e sofTnmentos de seu 
Real Consorte j que abertamente confessarão o propósito de subverter to- 
das as instituições da Sociedade , e porfiáo em espraiar sobre todas as Nações a 
niesnm confusão , que produzio a miséria da França ! 

Com toda a justiça pois o Governo Britannico pela ainda restante ener- 
gia do Governo prociamou á Kuropa , que, náo podendo existir o presen- 
te estado das cousas, sem arrastar a hum perigo commum todas as Poten- 
cias circumviZinhas , a justa prevenção de tal desastre lhe dava o direito, 
e impunha o dever , de fazer parar o progresso deste mal , que existia so- 
mente pela suecessiva violação de ioda a Lei , e de toda a Propriedade , e 
que atacava os funJamentaes princípios , pelos quaes o Género Humano he 
unido em os laços da Sociedade Civil. Com toda a razáo o Ministério In- 
glês declarqu 4 face. do Muu4o, q u S Sua Magesude Britanniea nada dese« 



m 



% 



(■■«■) 

java mais sinceramente do que terminar huma guerra, que em váo se es- 
forçou evitar, e que iodas as calamidades, que se tem seguido, se deviáo 
unicamente attribuir á ambição, perfídia, e violência daquelles, cujos cri- 
mes involvèrio o seu paiz em miséria , e descompozeráo todas as Nações 
civilizadas. 

Esta Declaração fez valer os sentimentos da verdadeira humanidade; 
Taes sentimentos náo se podem extrahir da Cirurgia da morte, em que he 
eminente a Diplomacia regicida , nem as ulceras , que elia fez arrebentar 
com seus cautérios , se podem adoçar por cataplasmas emollientes dos seus 
roubos , e confiscos , que constituem a quinta essência dos amores, e cura- 
tivos republicanos. 

Por estranhas revoluções, que tem sobrevindo peio modo de pensar dos 
homens, tem-se suggerido , que, por bons termos de huma capitulação, 
se pôde ceder em hum tempo, para depois fazer-se em melhores dias revi- 
ver o espirito nacional com duplicado ardor. He ás vezes necessário re- 
cuar p-ara melhor saltar conforme o adagio francez. 

Porém forçar á dieta a hum doente até o ultimo grão de fraqueza , e 
langor , he mais de hum Medico empírico , e charlatão , que de hum Me- 
dico racional. Essa náo he a melhor disciplina paia formar homens destina- 
dos á lutta heróica , delicado senso de honra, e vivo resennmento= das in- 
jurias ( * ). Longo habito de humilhação náo he bam preparatório para se 
conservar varonil , e vigoroso sentimento - T e muiio menos quando se ensi- 
na a considerar o poder do inimigo como irresistível , e o povo de Ingla- 
terra se agrada das mercês de hum sysrematico inimigo estrangeiro , combU 
nado com perigosa facção no interior do Estado , sem por o tundo de sua> 
segurança no próprio patriotismo y e valor. 

He absurdo confiar a garantia do Império Britannico da compaixão dos 
regicidas ; (empenhar a sua religião á impiedade de aihêos ; implorar a cle- 
mência de calejados assassínios ; e entregar a sua propriedade á salva-guar- 
da de ladrões por inclinação , por interesse, por habito, e por systema. .Se 
o nosso animo assim está deliberado , verdadeiramente merecemos perder o 
que, com tal abatimento, he impossível conservar, o Nome de Nação. 

Náo pode haver unanime zelo na causa da salvação geral, e resistên- 
cia ao inimigo commum , onde se tem de combater no inte/ior do Paiz com 
huma continua desdita , repugnância , e trapaça. 

França, a Más de monstros, e mais prolifíca em prodigios monstruo- 
sos que o antigo fabuloso paiz chamado Ferax Monstrorunt , manifesta já os 
symptomas de estar exhaurida em todo o género de maldades , se a paz não 
renova a sua infernal fertilidade. Para que por nossa leveza ( náo por nos- 
sa depravação) lhe deixaremos recrutar os seus bruraes restos de vida mons- 
;ruosa , que ainda náo estáo destruídos ? Os homens bons náo suspeitáo , que 
haja gente atraiçoada , que attente á ruina da Nação por meio das virtu- 
des da mesma Nação. Os turbulentos náo escrupulizáo em abalar a tran- 
quilidade do seu paiz até o centro , levantando continuo clamor de paz com 
a França , assemelhando-se ás importunas gallinhas de Guiné , que gritáa 

(*) Ut lethargicus hic , ckoi fie pugil, et medicum urges — Horat. 



em huma só áspera e continua altisona até nota, dia e noire. O seu mote 
he paz tom os regicidas , pensando que vem a ser paz com todo o mundo. 
Os Jacobinos sáo mui habilidosos : nas convulsões politicas, as paixões 
fortes exaltáo as faculdades: elles grháo por paz, porque, conseguido este 
ponto , estão certos , que o resto virá por si mesmo. Como pôde ser 
Dom , e fundado em a natureza , que os homens se rejáo pelos conselhos de 
seus inimigos? Náo se deve antes tremer, quando se quer persua< 



se deve viajar pela mesma estrad 
diciáo 



que 
e pousar no mesmo lugar , que elles 



Em 17:59 o Governo Inglez foi forçado pelo povo, e pelos políticos , 
e até pelo3 poetas do tempo , a declarar guerra á Hespanha : e póde-se di- 
zer , que então essa guerra foi guerra de roubo. No presente conflicto com 
regicidas , he forçado por gritos vulgares a fazer huma paz dez vezes mais 
ruinosa que a mais desastrada guerra , e quando aliás ha todos os motivos 
de appellar para a nossa Magnanimidade , e Razão. Os Ministros , que ce- 
derem por fraqueza , deverh, ser condemnados pela Historia. Então a con- 
tenda era sobre Guardas-costás , e a Convenção de Madrid. Agora trata-se 
da nossa existência politica , e da causa da civilização , em que se precisa 
de espirito forte , e perseverante , o qual só he capaz de supportar as vi- 
cissitudes da fortuna , e os encargos de huma longa guerra : digo émphatica- 
mente longa guerra ; pois , sem tal guerra , nenhuma experiência histórica 
nos diz , que huma Potencia perigosa podesse ser reduzida á razão , e jus- 
ta medida de poder. Não he preciso subir á antiguidade, e trazer á memo- 
ria a guerra do Poloponeso de 27 annos ; nem as duas guerras Púnicas, 
a primeira de 24 , e a segunda de 18 annos ; nem a mais recente dos tem- 
pos modernos concluída pelo Tratado de Westphaíia , que continuou por 
30 nnnos. Só fallo da que toca mais immediatamente ao nosso paiz áesdei 
1680 até 171:5; nesse intervallo quasi que náo houveráo 5 annos de paz. 

Neste periodo , nas pazes de Ryswicb , Gertrudemberg , e Utrecbt , sem- 
pre as proposições de accommodaçáo vieráo da parte do inimigo. Em taes 
guerras a Revolução do povo fez sempre a sua força. Entáo os nossos re- 
cursos eráo incomparavelmente menores que hoje. Náo tínhamos exercito 
consideravej. As nossas Finanças achaváo-se, se he possivel, em peior es- 
tado. O nosso credito publico , na verdade já entáo grande, ambiguo na 
opinião de muitos , que nos prognosticavão muitas vezes* que eile seria a 
causa da nossa ruina (o qual todavia já por hum século tem sido o cons- 
tante companheiro , e , ás vezes, o meio da nossa prosperidade, e grande- 
za) teve a sua origem, por assim dizer , na pobreza, e quasi na bancar- 
rota. 

Presentemente, Capitalistas oferecerão , á porfia, adiantar ao Gover- 
no o fundo de 18 milhões esterlinos , á juro moderado. Mas naquelie ien> 
po, ao Ministro Montagu , o pai do nosso Credito Publico , para alcan- 
çar incomparavelmente menores somraas , afiançando elle o Estado , em 
companhia do Lord Mayor de Londres, foi necessário andar, como o Mor- 
domo do Hospital , solicitando , com o chapéo na mio , de loja em loja , 
o empréstimo de cem libras , e ainda de menos , a interesse de doze por 
«ento. Até o Papei do, Bmçq (Hoje ao pár do dinheiro corrente, e getaí« 



(70) 

mente preferido í elle} soítru o desconto de vinte porcento. Por isto só, 
bem se pôde julgir sobre a fraqueza dos nossos meios de guerra naquella 
epocha. As nossas exportações , que ora sobem além de 46 milhões ester- 
linos , náo montaváo eruáo a dez. Quanto ao credito particular , náo havia 
nesse tempo em Londres 12 Bancos de Capitalistas ; mas estas machinas 
de credito nacional são vistas agora em quasi todas as cidades e mercados ; 
o «que demonstra o assombroso augmento òà confiança particular , da geral 
circulação , da eoncurrenáa interna , e o proporcional accrescimo do Com- 
mercio estrangeiro. Náo obstante as expostas desvantagens do Estado ha 
hum século , nunca o Espirito Nacional desmaiou com a fortuna adversa ; 
e resistindo ás imperiosas propostas do inimigo , veio a concluir paz honro- 
sa. A Politica , destreza , e perseverança do Rei , fizeráo consolidar a in- 
dependência, e gloria da Naçáo : elle propoz ao Parlamento o conservar á 
Gram Bretenha a preponderância , e influencia , que gozava nos Conselhos, 
e Negócios estrangeiros, para que visse a Europa, que os Jnglezes não fal- 
tar ião a si próprios. 

O Equilíbrio dos Estados da Europa entáo se fixou com hum gráo , 
antes desconhecido , de coherençia , firmeza, e fidelidade. O Architecto des- 
ta immensa e compheada maehina morreo logo depois de a fabricar. A obra 
foi formada sobre os verdadeiros princípios da Mechãnica Politica : ella 
continuou em movimento pelo impuiso recebido do primeiro Motor , que 
bem mostrou ser a Nação Britannica hum Povo Grande. Elle apontou co- 
mo, e porque meios, devia ser exaltado sobre o seu nível, e proseguir no 
ascendente , que já tinha tomado na ordem dos Estados independentes. 

Nesta guerra, continuada 14 annos contra Luiz XIV. , o Governo náo 
poupou trabalho algum para satisfazer á Naçáo ; a qual , ainda que anima- 
da com desejo de gíoria , todavia náo tinha a gloria por seu ultimo objecto , 
tnas sim o "que lhe era -mais caro , isto he , a sua religião , lei , liberdade , 
e tudo o que está no coração dos Inglez.es , como homens livres , e como 
Cidadãos da grande Republica da Chnstandade , sempre circunspectos , e 
animosos para pievenirem perigos, e proverem ao fumro. Isto era conhe- 
cer a verdadeira arte de ganhar os aftectos do povo , isto eia entender a 
natureza humana. 

As paixões das ordens inferiores sáo famintas , e impacientes ; so as- 
piráo á guerra mercenária. O calculo do proveito em taes guerras he falso. 
B.ilanceando-se as contas de taes guerras, mostra-se, que mil caixas de açú- 
car são compradas a preço dez vezes maior do que ellas valem. O san- 
gue do homem náo deve ser derrr.mado senáo para remir o sangue injus- 
tamente desparzido. Convém que só o dêmos por nosso Deos , nosso Paiz , 
nossa família, nossos amigos, nossa Espécie: só isto he virtude ; tudo o 
mais he crime. ' , , TMrT , , 

Guerra para prevenir que assassínios de Luiz XVI. nos imponnao a 
sua irreligião , he guerra justa. Guerra para prevenir a operrçáo de hum 
systema , que faz a vida sem dignidade , e a marte sem esperança , he guer- 
ra justa. Guerra para preservar a independência politica , e a liberdade ci« 
vil das Nações , he justa guerra. Guerra para defender propriedade , vida , 
ionra , da certa e universal carnificina , a que Francezes condçwAáç 9 Biu%i 



(7* ) 
do , he guerra justa , necessária , piedosa , varonil, e somos obrigados a per- 
sistir nelia por todo o principio divino , e humano ; pois que se trata da 
existência de todos contemporâneos, e vindouros. 

A França he a única Potencia da Europa, pela qual he possível que 
sejamos conquistados. Viver em continuo medo de tal mal (que he sem me- 
dida) he a mais tormentosa calamidade. Viver sem medo , he converter o 
perigo em desastre. A influencia da França he igual á guerra ; e o seu 
exemplo he mais devastador , -que buma irrupção hostil. Elia está em es- 
sencial , e habitual hostilidade comnosco , e com todo o Povo civilizado.^ 

Governo -de hurna natureza tal como existe na França , náo foi ja- 
mais visto , ou imaginado na Europa. He cousa mui séria ter connexáo com 
hum povo, que só vive de instituições positivas, arbitrarias , mudáveis, e 
náo sostidas , nem explanadas por alguma reconhecida regra da sciencia mo- 
ral. Elle destruio os elementos, e principlos da Lei dasNações ,~que he o 
grande ligamento do Género Humano. Com ella destruirão todos os Semi- 
nários , em qye se ensinava a Jurisprudência , e igualmente todas as Cor- 
porações estabelecidas para a sua conservação. Elles tem posto fora da Lei 
a si mesmos , e tem igualmente proscripto do foro das Leis Naiuraes a to- 
das as Nações. 

Jacobinismo he rebeMão dos talemos ousados , emprehendedores de hum 
paiz contra toda a Propriedade, Quando os homens fazem revoluções para 
destruir todas as antecedentes leis , e instituições do seu paiz j quando elles 
«eguráo para si hum exercito, dividindo entre o povo , que náo tem pro- 
priedade, as herdades de seus antigos , e legítimos preprietarios ; quando o 
Estado reconhece , e ratifica taes actos ; quando o Governo náo faz confis- 
cos para os crimes, mas os crimes pasa confiscos ; quando os seus princi- 
paes recursos sáo ofensas da propriedade, e assassinatos de todos, que re- 
sistem, e combatem pelo seu amigo legal governo , e suas legaes , heridi- 
tarias, e adquiridas possessões , eu chamo isto Jacobinismo por estabelecimento. 



Os que estabelecerão tal le 



i viciarão 



e iniiammaráo a imaginação , e 



perverterão o senso moral dos homens, e levarão o delirio a ponto de fa^ 
zer vir aos seus Tribunaes a alguns sceler^dos, que se diziáo Pais , a pedi- 
rem o assassinato de seus filhos, jaetando-se de que Roma teve hum Bru- 
to , o qual poz á morte ao próprio filho , mas que os Francezes poderia» 
mostrar centenares de Brutos. Foi- igual, e reciproca a maldade dos filhos 
contra os pais. O fundamento de tal Estado foi estabelecido em paradoxos ; 
o seu patnmopio he prodígio. Todos os exemplos , que se acháo na historia, 
reaes , ou fabulosos , de duvidoso espirito publico , em que a moralidade 
fica perplexa , a razáo se assombra , e a natureza estremece , sáo os seus 
escolhidos , e quasi os únicos modelos para instrucçáo da mocidade. 

Todo o trem das instituições dos Francezes he contrario aos das mais 
Sábios Legisladores de todos os paizes , que destinarão a perfeiçoar os ins- 
tinctos , para constituir a moral pura, e enxertar as virtudes sobre o tron- 
co das affèições naturaes. Elles náo omiuírão trabalho algum para extirpar 
todas as benévolas , e nobres propensões do espirito dos homens. Elles pen- 
são, que he indigno do nome de virtude publica tudo o que náo indica violen~ 
cia nos particulares. As suas npvas LeijS cortão pela raiz a nossa nature? 
2a social. 



.** 



■ 



Ç 7* 3 

Todos os Legisladores , conhecendo ser ò èâsâftênto a origem íe te? 
das as relações , e em consequência o eíemeaio de todos os deveres , esfor- 
çarão se , por todos os meios, em fazello sagrado. A Religião Christá , li- 
mitando o matrimonio aos pares , e constituindo-o indissolúvel, tem, só 
por isso , feito mais para a paz , felicidade , firmeza dos Estados , e civili- 
zação do mundo , do que talvez por todos os outros preceitos da Sabedo- 
ria Divina. Porém a Synagoga do nnti-Christo da França tomou o curso 
contrario; e forjou na manufactura de todo o mal, a Assembka Constituin- 
te de 1789, a obra (por assim dizer) de profanar , e deshonrar o estado 
Áo matrimonio , (que todos os Legisladores tem constituído sancto , e ho- 
norifico) fazendo a mais estranha declaração , de não ser o casamento senão 
hum contrato civil, e hum trafico commum ; permitrindo ás filhas-familias 
as uniões mais licenciosas, e ás mulheres casadas o divorcio arbitrário, sob 
pretexto de Jibertallas da tyrannia dos pais , e maridos. Por taes infames 
actos, de táo horríveis consequências, pôz-se o sexo feminino fora da tu^ 
tela, e protecção do sexo masculino , com evidente transgressão da ordem 
da natureza, 

A pratica do divorcio , ainda que permittida em alguns paizes , foi sem- 
pre mal vista , e de-a:reditada em todos. Felizmente hoje em as Nações 
civilizadas o divorcio não he frequente artigo de registo publico. Mas na 
França náo só he artigo regular, mas ate já se acha posto em honra. Era 
Inglaterra, por Exame decretado pelo Parlamento , mostrou-se , que, em 
cem annos, apenas se contão cincoenta divórcios (que alias são mais sepa- 
rações de tboro , do que absolutas dissoluções dos vínculos do matrimonio.) 
Em Paris, só em três mezes , em 1705 hou verão $61 divórcios. 

A esta pratica se accrescentou a do camiibalismo , com que os Jacobi- 
nos até bebião o sangue das victimas da sua ferocidade , e commettião o§ 
mais atrozes, infames , e nunca ouvidos actos de obscena salvajaria sobre 
os cadáveres. A muitas victimas náo concederão ao menos o gozarem da» 
ultimas consolações do Género Humano , e dos direitos da sepuliuia, que 
indicão a esperança da vida eterna , e com que a natureza ensina em todof 
os paizes a allivar as afflicçóes, e soffrer , com resignação á Providencia, 
as enfermidades da nossa sorte mortal. Procurando persuadir ao povo, que 
os homens náo são meihores que as bestas ; todo o corpo de suas institui-» 
çóes tende a fazellos tigres furiosos. Para esse rim foráo disciplinados a os- 
tentar huma ferocidade sem parallelo ( * ). 

A certa, e tremenda operação destes perigosos , e seductores princí- 
pios , e exemplos , nos obriga a recorrer aos verdadeiros Cânones Sodaes* 
Náo obramos com sabedoria, quando nos fiamos nos interesses dos homens, 
como únicos e seguros penhores dos seus negócios. Os interesses muitas ve- 
zes <]uebrantáo as justas convenções , e as paixões pizáo frequentemente 
quaesquer interesses , e convenções. Entregarmo-nos inteiramente a huma , 

e outra cousa, he náo conhecer o Género Humano. 

( * ) Ainda peior de tudo , ostentavão 3 mais feroz alegria no meio de suas ma- 
tanças , e hornbilidndes , divertindo se em theatros , e até fazendo ao mesmo tem- 
po pantomimas nas praças das execuções , para tornar mais cruéis , lensiveis , e do* 
bíosas as angustias das victimas da guilhotina. 



C7?) 

. Os homens não se ligâo huns aos outros por papeis , e sellos. F.Hes 
sao insensivelmente conduzidos a se associarem por semelhanças , confor- 
mídades, e sympathias. As Nações obráo como os indivíduos. Não ha tão 
forte vinculo de amizade entre Nação, e Nação , como o da correspondên- 
cia em leis, costumes, maneiras, e hábitos de vida. Estas causas tem mais 
torça , do que quantos Tratados haja. Sáo obrigações escritas no coração. 
EJtas aproximáo o homem ao homem, sem hum conhecer a outro, e sem 
terem _a intenção de se unirem. O secreto , invisível, mas firme laço do tra- 
io habitual os tem em harmonia, ainda que a sua perversa, e litigiosa na- 
tureza os incite a contender , esgrimir , e guerrear sobre os termos das obri- 
gações escritas. 

Quanto á guerra, ella he o único meio de sustentar a justiça entre as 
Nações contra a injuria, e violência reciproca. Nada pôde banilla do mun- 
do. Os que dizem o contrario , mentem a si , e aos outros. He hum dos 
maiores objectos da sabedoria humana mitigar os males , que ella náo tem 
a potencia de remover. A conformidade , ou a analogia da religião , leis , 
e maneiras, de que tenho fallado , ainda que seja impotente para preservar 
perfeita confiança, e tranquillidade entre os homens , tem com tudo a ten- 
dência mui forte de facilitar a accommodaçáo , e produzir geral esquecimen- 
to do rancor em seus queixumes. Peía diversidade de leis, religião, e ma- 
neiras, muitas Nações, que estão apparentemente em paz, estáo na reali- 
dade mais separadas humas das outras , do!que as Nações da Europa , ain- 
da no curso das mais longas , e sanguinosãs guerras. A causa disso se de- 
ve_ procurar na semelhança de religião * leis, e maneiras. Os Escritores da 
Lei das Nações tem por essa razão" chamado Republica da Europa o adre- 
gado de taes Nações. Ella he virtualmente hum Grande Estado , que tem 
a mesma base da legislação geral , só com leve diversidade de costumes pro- 
yinciaes, e Estabelecimentos loeaes. 

As^ Nações da Europa tem a mesma Religião Christá , concorde nas 
fartes iUodamentaes , variando pouco em ceremonias , e doutrinas subordi- 
nadas. (*) Desta fonxe emanou hum systema de maneiras, e educação, 
que as constuuia quasi semelhantes nesra porção do Globo , e que soscinha, 
unia, e reunia as diversas cores de toda a população. Pouca ditferença ahi 
havia na forma das Universidades para ensino da mocidade , e também quan- 
to as Faculdades Sciencias, e mais géneros de erudição liberal. Por isso, 
sahindo qualquer pessoa da sua Nação, náo se podia chamar inteiramente 
hum estrangeiro, e desterrado. Só se encontrava huma aprazível variedade, 
para recrear, e instruir o espirito , enriquecer a phantasia , e melhorar o 
coração. O viajante sensato náo parecia semir-se fora d? seu paiz. 

Mas o systema da Revolução Franeeza veio perturbar toda esta haN 
morna, e conformidade. Nem se póie assignar outra razão, senão esta pa- 
ra os Francezes alterarem todas as idéas , nomes, uso; , leis, e religião do 
mundo civilizado. Çom estudada violência ti verão em .desígnio pôr-se em 
apostasia da Humanidade , e fizeráo scisma com o Universo; e a quebra 

'. ( * ) Todavia a Religião Catholica tem artigos dogmáticos essenciaes , que diffe- 
wm dos de alguns ramos heterodoxos do Christianismo. 

K 



(74) 
fã união Foi tão completa , que iwpcssibilUJrão o commercio social, tendo-o 
corrupio , e destruído no seu principio. Assim fizerão por attrahir a todo 
o Género Humano ao seu systema , e o forçarão a viver em perpetua ini- 
mizade com o Estado o mais poderoso, que jamais se vio. Pód >se imagi- 
nar que , offerecendo elies ao Género Humano esta desesperada alternati- 
va, náo tenháo sempre hum espirito hostil, contra todos os povos, e go- 
vernos , estando com tantos meios de força para offender sem responsabili- 
dade? ; . ; 

Ha leis civis, que náo sáo totalmeme positivas, massimples conclu- 
sões da razão natural , e pertencentes á Universal Equidade , as q«iaes por 
isso sáo applicavers em todas as partes. Tal he a Lei da Vizinhança , que 
náo deixa a cada individuo mostrar-se inteiramente o absoluto Senhor do 
seu próprio terreno. Quando hum vizinho vê fazer á sua porta huma no- 
va obra , que seja de natureza prejudicial , tem direito de representar ao 
Juiz o seu gravame, e justo receio de damno, e este tem o direito de em- 
bargar a oSra ç para náo se continuar , e ainda para se demolir depois de 
já feita , mostrando-se o mal , ou o imminente perigo de sua existência. 
Ninguém pôde fazer itmovação a risco do vizinho. 



Toda a doutrina da lei 



', 



civif sobre a denunciarão da nova obra ( * ) he fundada nesta justa razão, 
que não he licito a huma pessoa fazer uso da liberdade natural para fazer 
obra em sua propriedade, donde com razão se possa recear detrimento, e 
prejuízo grave do vizinho. A denuncia então he prospectiva , e olha amda 
para o damno futuro, e anticipa por prudência a prevenção do mal , ainda 
tão feito. Este direito he igualmente favorável a ambos os vizinhos. Por 
elle se acautela, e removerem tempo opportuno , hum damno, que, de- 
pois de feito , talvez seja irreparável , ainda que alias o não seja destinado 
pelo arehi tecto da nova obra. .. 

As regras da equidade, e a urgência do caso justiíicáo o remédio. As 
vezes a prevenção do mal precisa de celeridade , e a dilação he perigosa. 
Os vizinhos se presumem saber os factos dos seus vizinhos , como se diz 
em 'huma regra de Direito Civil. Sáo pois todos mui interessados , que 
liuhs náo abusem das suas faculdades com injuria alheia , e com perigo dá 
existência dos outros. 

Este principio he ainda mais verdadeiro a respeito das Nações, O Di- 
leito pois da Grande Vizinhança da Europa concede a cada Estado hum de- 
ver , e hum claro titulo de prevenir qualquer capitai innovaçáo em outro 
Estado, que possa equivaler á formação de obra nova prejudicial á tranquil- 
idade , e independência dos mais circumvizinhos. Aquella regra justifica a 
Declaração cathegorica do Governo Britannico de z6 de Outubro de 1793, 
íjue o estado de cousas, que existe na França náo pôde continuar , sem 
involver todas as Potencias da Europa em commum perigo , e sem lhes dar 
o direito, e impor o dever, de fazer parar o progresso de hum mal , que 
ataca os princípios fundamemaes , pelos quaes o Género Humano he útuàò 
em sociedade civil. 

O que em sociedade civil he fundamento de lide , na sociedade politica 

( * ) Vejão-se as Leis do Digesto de Novi operis nuneiationej e de Damno injecte» 



(7Í> 

ha fundamento âe guerra. Quando todas as combinações de atrozes factos 
de vizinho injusto , e innovador de más obras , tirão toda a esperança de 
cessar elle de tal novidade , e violência começada , , as regras da prudência 
náo restringem , mas ordenáo a guerra. 

A obra Franceza náo he huma má obra velha , cuberta com prescri- 
pção ; he nova demolição , e decomposição de todo o Edifício da sociedade 
cívjI , e infame archkeetura de covil de ladrões, assassinos , e arheos : obras 
de rapina , matança , e impiedade , longe de serem tiiulos a cou*a alguma , 
sáo por isso só publicas declarações de guerra ao Género Humano, 

Esta guerra porém tão he feita d França , mas á cáfila dos salteado- 
res , j}ue exterminarão de suas casas-os respectivos proprietários ; pois as 
Nacoes sáo Essenciaes moraes , e náo Superfícies geográficas. 

Supponha-se, (o que Deos náo permuta) que o' nosso amado Soberano 
fosse sacrilegamente morto ; a sua exemplar Rainha , a Cabeça das matronas 
da Terra, tivesse o mesmo fado; as suas Prineezas , que peia sua belleza , 
e modesta elegância, sáo as flores do paiz, e os modelos das virtudes do 
seu sexo, soffressem igualmente cruel, e ignominiosa traição, com cem ou- 
tras mais, rilhas, e senhoras da primeira distincÇcío ; os Príncipes de Gal- 
les , e York, esperanças, e timbres da Nação , com todos os seus Irmãos , 
fossem obrigados a fugir dos punhaes de assassinos ; todo o corpo do nos- 
so excellente Clero fosse assassinado , roubado , e desterrado ; a Religião 
Christá , em todas as suas communhóes , prohibida , e perseguida ; a Lei 
da Terra, fundamental, e totalmente ahrogada ; os Juizes conduzidos ao 
cadafalso por Tribunaes revolucionários ; os nobres , e plebeos esbulhados 
de suas possessões âié a ultima geira de terra , e em cima empobrecidos , 
e aviltados; todos os Officiaes do Serviço Civil , Militar, e de Marinha 
sujeitos aos mesmos desterros , confiscos, e perigos ; os principaes Banquei- 
ros , e Commerciantes arrastados ao patíbulo , para o matadouro geral dos 
crue náo tinháo outra culpa senáo o ter dinheiro , e fazer Cornmercio ; os 
Cidadãos das Cidades mais populosas, e florentes encadeados, e juntos 
em huma Praça , e ahi destruídos a milhares com metralha de artilheria , 
e descargas de canhonada, por náo se acharem patíbulos , machinas, e algo- 
zes sufficientes para expeditas execuções capitães ; trezentos mil outros sen- 
tenciados a huma situação peior que a morte, prezos em pestilentes , e in- 
fernaes calabouços 3 em taes circunstancias calamitosas chamaríamos por ven- 
tura Inglezes a Faceio dos malvados , que praticassem taes desordens , e 
horrores i Seria o paiz , onde se vissem taes tragedias , a Inglaterra , táo 
admirada, honrada, amada, e querida? Náo reputaríamos antes por únicos 
compatriotas os fugitivos leaes deste paiz ? A terra de seu temporário asy- 
]o náo se deveria considerar a verdadeira Cram-Bretanha \ Poderia eu ser 
considerado como traidor a meu paiz r e digno de perder a vida com infâ- 
mia , se andasse por todas as Nações da Europa batendo a todos os Pa- 
ços e Corações dos Príncipes da Christandade , para soccorrer os meus ami- 
gos , e vmgallos dos seus inimigos ? Podia nunca rr.ostrar-me meihor Pa- 
triota ? Que se deveria pensar dos Príncipes , que insultassem a seus Irmãos 
perseguidos pelos rebeldes, e que os tratassem de vagabundos , e mendi- 
cantes? Que generosos sentimentos se poderiáo considerar nos quemosuan- 

h K 2 



(7*) 

do-se Geographos , cm lugar de Reis , reconhecessem como os idênticos 
paizes nacionaes as cidades assoladas , os campos dezertos', e os rios man- 
chados de sangue , só por terem a mesma medida geométrica , depois de 
lies cruezas , para continuarem com os usurpadores , e malvados as mes- 
mas antecedentes relações politicas ? Que juizo faríamos da barbara protec- 
ção dos cjue , attendendo ás cabalas ,■ e intrigas ; e declarações dos levanta- 
dos . lhes entregassem as victimas da Lealdade de seu paiz*, que lhe tmháo 
ido snpplicar refugio no Altar da Compaixão , para serem sem muerjcordia 
abandonados aos Tribunaes dos bebedores de sangue , e parricidas de seu So- 
berano ?" 

A oppressao , e sensibilidade fazem loucos os homens sábios ; mas , ain- 
da assim mesmo, a sua loucura he melhor do que o juizo dos néscios* O sea 
fcrado he a voz sagrada da humanidade , e miséria , exaltada no santificado 
phrenesí da inspiração, e piophecia. Na amargura d'alma , na indignação 
da virtude soffiredora , no parocismo da desesperação , no espirito da leal- 
dade Brisannica , júo clamaria eu por cem bocas, e denunciaria a imminenre 
destruição, que espera os Monarchas , que consideráo a fidelidade do Y'as- 
sallo como torpe vicio, e que toleráo , que eila seja punida como ddicto 
abominável, e que só se tenha veneração aos rebeldes, traidores, regicidas, 
e furiosos escravos , que quebrarão os grilhões , e correm a rédea solta a 
devastarem a terra , deixando-nos adormentar por dormideiras de adulado- 
xes , que nos albciáo a descançar nos braços da morte ? 

Alguns citáo o exemplo da paz , que temos feito com os Barbarescos. 
Os que fizeráo essa descoberta, e dáo igual conselho, querem preparar-nos 
para a escravidão. Ha (dizem) cousas, que os homens náo approváo, mas 
-que a ellas se submettem , por se precaver maior mal. Respondo. 

For isso mesmo que )á temos feito .hum acto de humilhação , devemos 
ter cautela em não tolerar segundo , a fim de que a humilhação náo ve- 
nha a ser o nosso estado habitual. Matérias de prudência são do império 
das circunstancias , e náo de analogias lógicas. Porém , ainda que a Consti- 
tuição de Alger se assemelhe á da França, com tudo, pela nossa respecti- 
va situação , Alger náo nos dá perigo de existência. Náo he assim a Fran- 
ça como hoje está, revoltada, e regida por Atheos fanáticos. Sou seu vizi- 
nho : posso vir a ser seu escravo. Os que pertendem ter achado o feliz 
paralleío , náo advertem na infinita distancia de quem está d porta , ou de 
quem está em mui remota distancia , e sem iguaes meios de mai fazer. Alem 
disto. Em Aiger ha huma barreira de idioma , e costumes , que previniria a 
corrupção das horríveis novidades 03 França. Pos30 contemplar sem medo 
o Tigre Real, ou Nacional das regiões do Pegú: até o posso olhar com a 
curiosidade dos que váo a ver animaes carniceiros na casa das feras. Tenho 
mais susto de hum gato do mato na minha amecamera , que de todos os 
ieões , que urráo nos desertos da Mauritânia. Alger náo he vizinho de In- 
glaterra , e n£o faz obra nova. Esse Estado , bem que bárbaro , náo está infe- 
ctado de princípios da desorganização Social : o seu governo he de antiga 
origem , e os seus damnos se podem calcular com certeza. Quando Alger 
se Traspassar a Calais , verei entáo o que se deva pensar , e fazer. Entre- 
tanto , o Aresto da paz coa* Alger náo faz authoridad* de causa julgada^ 



(77) 

Os Homens de Estado sSo postos em eminentes atalaias para vck... 
dalto hum mais vasto horizonte , sobre que possáo dar Ordens. Elles sáo 
es nossos naturaes regedores. Sem duvida Razoes de Estado exigem ás ve- 
zes modificação das gemes Máximas de Governo : porém nunca poderáó se- 
guir desejos, e conselhos de nossos implacáveis inimigos , sem serem res- 
ponsáveis a Deos , e á Naçáo : fazer paz só em nome , e com precipita- 
ção, he a maior calamidade, que póie sobrevir ao Publico. He nada o exem- 
plo da França ? He tudo. O exemplo he a escola do Género Humano : 
elle não tem outra. Esta guerra he guerra contra tal exemplo. He guerra 
por toda a dignidade , propriedade, honra, virtude, e religião de Inglaterra, 
e de todas as Nações. 

Direi huma palavra em minha apologia. Porque nSo me converto com 
tão grandes Potencias , e tão grandes Ministros , que tem feito a sua paz 
com os regicidas? He porque estou em 1796 com os mesmos sentimentos* 
em que todos os Soberanos da Europa estavlo em 1793. Não me posso mover 
com esca amicipacao de equinoxios , que nos está preparando o retorno da 
idade de oiro , ou de alguma nova era ; que terá o nome de algum novo 
metal. Nesta crise, ou devo reter a minha lingua , ou fallar com franque- 
za. Falsidade, e illusâo nunca sáo permittidas j mas ha também economia 
da verdade, como no exercido de todas as virtudes. Ha huma sorte de tem- 
perança , pela qual os homens devem dizer a verdade com medida , para 
que se possáo depois melhor explicar. O que disse, direi sempre. O que 
escrevo he de natureza testamentária. Pôde nos meus escritos haver fra- 
queza ; mas elles tem a sinceridade de declaração de moribundo ; visto que 
poucos dias me*rcstáo, e em breve serei separado da tumultuosa scena do 
mundo. 



APOLOGIA 

De Edtmmd Burke , por si mesmo , sobre a sua Tensa? 
do Governo. (*) 



i5 Er maltratado em qualquer congresso , ou escripto , pelos enthusiastas 
<3a nova seita de falsa politica , de que algumas nobres pessoas pensão com 
tanta caridade , e outras julgão com tanta justiça , não he matéria de an- 
gustia, ou admiração. Ter incorrido no desagrado de taes pessoas, he rece- 
ber a única honra , que ellas podem dar ; e he prova de haver eu obtido 
huma parte dos meus esforços na Causa da Humanidade. Náo dei de modo 

(*) Deo motivo a esta Apologia o publico ataque , que no parlamento , e poi 
escrito , fez o D. B. contra Mr. Burke , sendo o Chefe do Partido da oppoziçáo na 
Çamera Alta 2 e o mais rico Proprietário de Inglaterra por antigas doações da Coroa, 



(78) 

algum offensa pessoaf a esses , que se intitula© patriotas í a parte que to- 
mão contra mim , he sò por zelo do seu partido. 

Retirado , como estou , do mundo , e de todos os seus negócios , e 
prazeres , aquelles Senhores soprarão em mim a faísca dos sentimentos qua- 
si extinctos , dando-me viva satisfaça» de ser assim por elles atacado. He 
algum lenitivo ás dores do meu espirito o ter sido recommendado á Bene- 
ficência do Throno por hum hábil, vigoroso, e bem instruído Homem d' 
Estado }• digno de si mesmo, e de sua causa , pelos serviços, que fiz á sal- 
vação da Fessoa , e do Governo do nosso Soberano , e consequentemente 
para Segurança das Leis, liberdade , moral, e vidas do seu povo. O ser 
unido a táo grandes objectos , na verdade he distineçáo. A melancolia náo 
pôde deprimir-me tanto , que me faça insensível a tal honra. 

Porque me náo deixáo os partidistas da Revolução Francezà na escu- 
ridade e inacção? Receáo, que, se me restar hum átomo de vida, a Seita 
ainda tenha alguma cousa a temer ? Mas quando eu fosse aniquilado , dei- 
xaria , Como o antigo João Zisca , a minha pelíe , para se fazer hum tam- 
bor , que com seus golpes retumbasse bem ao longe , a fim de animar a 
Europa á guerra eterna contra a tyrannia , que ameaça esmagar o Conti- 
nente , e a toda a raça humana. 

A matéria, he de tremenda meditação. Os annaes históricos ainda náo 
cem fornecido hum exemplo de completa revolução como a da França. Es- 
ta revolução parece haver-se estendido até a constituição do espirito huma- 
no. Ella tem em si o prodígio , que Bacon diz das operações da natureza : 
he perfeita, náo só nos seus elementos, e principios, mas em todos os 
seus órgãos, e membros. O phenomeno moral da França dá hum padrão 
único no seu género, e nunca visto no mundo ; e he, que todos , que o 
admirão, logo se lhe assemelhao. Eile vem a ser o inexhaurivel repertório 
de toda a casta de mãos exemplos» Até na minha miserável condição , ain- 
da que já apenas me possa classificar entre os vivos, náo estou seguro. 
Os Sectários do Partido Francez tem tigres pata cahirera sobre qualquer 
força animada : tem hyennas para preiarem os cadáveres. A collecçáo de 
feras he completa , e feita pelos primeiros physioíogistas do século, e só 
he defeituosa na sua natureza salvagerjn. Elles me assaltáo ainda no mais es- 
curo retiro , e urrio perante os Tribunaes revolucionários. Nem sexo , 
nem idade, nem o santuário da sepultura, he para elles cousa sagrada. El- 
les negáo ainda aos mortos a immunidade do tumulo. Sso capazes de ve- 
xarem o sepulchro dos que predisseráo o seu fado , ainda que lhes br.tdem 
*« deixem-me , *-, deixem-me repousar „, . 

A minha Pençao mortuária ( * ) náo foi o frueto da venalidade , nem 
a producçáo da intriga, nem o resultado de compromisso, nem o effeito 
de solicitação ao Soberano, ou a seus Ministros. Bem lhes era conhecido, 
<jue eu estava resolvido a total retiro. Executei este desígnio. Estava intei- 



(*) He a que se chama Pensão do otlum cum dignítate de j mil libras esterlh 
nas cada anno , que o Governo dá aos grandes Servidores no ultimo quartel d? 
vida. 



(«O 

ramente fora do estado de servir ou empecer a algum Estadista , ou Par- 
tido, quando os Ministros táo generosa, e espontaneamente me impetrarão 
o beneficio da Coroa. Quando ^nio podia mais ser lhes de préstimo, elies 
contemplarão a minha situação ; quando náo podia mais incommodar a nin- 
guém , os do Pai tido Revolucionário espezinharão a minha enfermidade. A 
minha gratidão foi igual ao beneficio conferido. Elle me veio em hum tem- 
po de vida, e em estado de espirito, e corpo, que nenhuma circunstancia 
de fortuna me podia dar prazer. Náo tive culpa , em que o Bemfeitor 
Real, e os seus Ministros, dignando-se reconhecer o mérito d'e hum Ser- 
vidor Publico invalido , adoçassem as afflicções de. hum homem desconsolado. 

Náo me está bem o fazer jactância de cousa alguma : porém ficar-me- 
hia mal desapreciar o valor de huma longa vida , consumida com exem- 
plar trabalho no serviço do meu paiz. Pois que os meus serviços , em 
razão da industria , que nelles mostrei, e firmeza de minhas^ intenções , tem 
conseguido a acceitaçáo de meu Soberano, seria absurdo pôr-me á par dos 
Cabeças , Membros , e Protectores da Sociedade correspondente (*) , ou , 
quanto em mim está , permittir disputa sobre a taxa da recompensa , que 
foi fixa pela Amhoridade Suprema, estabelecida peia Conútuiçáo do Paiz 
para avaliar taes cousas. 

Libellos soltos devem-se deixar passar em silencio, e desprezo. Quem 
serve ao Publico, está sujeito ás calummias da malicia , e aos juizos da 
ignorância. Mas alguns adquirem importância pela nobreza das pessoas , 
que os fazem , e pelo lugar onde se divulgáo. He então necessário tomar 
conhecimento delles. )ustificar-nie não he vaidade, e arrogância; he deman- 
da da justiça ; he demonstração de gratidão. Se sou indigno da remunera- 
ção, os Ministros foráo peiores que pródigos. Deve-se-me conceder neste 
ponto huma liberdade racionavel ; pois estou em necessidade de defeza : 
iiem â hum réo ordinário se impede defender a sua causa em ferros. De- 
sejo guardar a possível decência. De qualquer modo que eu seja visto aos 
olhos das nobres pessoas dos meus accusadores , a sua situação me impóe 
profundo respeito. "Se passar as balizas, como elles quizeráo a baixar- se ao 
meu nivel, a confusão dos carac;éres pôde produzir alguns erros * e ainda 
fazer prescindir tíe privilégios. 

Com esse protesto , já dou de suspeitos a todos os Tribunaes revolu- 
cionários , onde se tem posto homens á morte , sem outra razão mais, do que 
o terem recebido favores da Coroa. Reclamo , náo a letra, mas o espirito da 
velha Lei íngleza, de ser sentenciado pelos meus pares. Por isso interponho 
Decíinatoria á Jurisdicçáo dos que são de ordem superior. Além de que , no 
Coryphèo do partido , quaesquer que sejáo as suas habilidades, não posso re- 
conhecer , pelos seus poucos , e inertes annos , a legal competência para 
julgar da minha longa, e laboriosa vida. Pobre ricaço! Elle apenas pô- 
de saber alguma cousa da industria publica nos seus esforços de avaliar 



(*) Assim se chamava o Clube ou, .Congrego Inglez em Londres presidido por 
Priestley , e que tmha aberta, e notória correspondência com a Revolucionaria As* 
iemblea da França. 



C 8o ) í :*3 

o saíaríò dos seus obreiros mechanicos , quando a obra está Feír4. Náo 
duvido da sua destreza em todos os cálculos de Arithmetica vulgar; mas 
suspeito, que he pouco estudante na theoria das proporções moraes , e que 
náo tem aprendido a regra de três na Arithmetica poii;ica. 

Pen§a o meu Censor que tenho alcançado muiio. Respondo , que os meus 
esforços, qi.iesquer que sejáo , foráo taes , que nenhuma esperança de pre- 
mio pecuniário poderia jamais recompensar. Entre dinheiro e taes serviços, 
senJo íei.os por homem mais hábil do que eu, náo ha principio commum 
de comparação : sáo quantiJaies incommensuraveis, Dmheiro serve para 
conveniência da vida animal. Porém náo pôde haver remuneração de dinhei- 
ro para obras, que a mera vida animal só pôde manter, mas nunca pô- 
de inspirar. Poderei sustentar diante de Sua Magestade, que não tenho re- 
cebido mais do que mereço ! Náo : mui longe isso de m;m. Na Real Pre- 
sença , náo reclamo absolutamente direito algum. Tudo para mim foi fa- 
vor , e bondade. O esnlo para o Magnifico Bernfeitor he hum , e para o 
orgulhoso , e insultante inimigo he outro. 

Pertende-se aggravar a minha culpa , merepandose-me pela acceitaçáo 
que fiz do donativo de Sua Magestade, como aberração das minhas idéas, 
e do espirito do meu anterior procedimento ofíicial , e systema de Econo- 
mia Publica. Mas eu náo contradigo as minhas idéas de economia, mas so- 
mente as idéas de economia do meu Censor. Tal acceitaçáo náo traz in- 
coherencia alguma á letra, e espirito dos meus Actos do Parlamento, quan- 
do em 1780 propuz a Reforma Económica do Paiz. O primeiro systema 
custou-me trabalhos incríveis. Se o systema Militar, ou a geral Economia 
das nossas Finanças, tiveráo nisso melhoramento, deixo a Julgar aos que 
tem conhecimento do Exercito, e do Erário. Nessa épocha , ainda só o 
tentar introduzir methodo, e algumas limitações no Serviço, excitava cla- 
mor, e se dizia ser absurdo. Nada entáo se propunha senáo grosseiro cór* 
te de penspes , ou o mais grosseiro plano de impostos, sem desígnio, sem 
combinação , e sem a menor sombra de principio. O meu Juvenil Censor 
deve pedir informação sobre esse tempo , que foi hum dos mais criueos 
períodos nos nossos annaes, 

O meu nobre Censor considerourme só como Economista. Quando , des- 
de a mhria mocidade, fiz a economia politica objecto dos meus humildes estu- 
dos , çsperei sempre, que os meus serviços ao Esrado sêriáo de algum valor* 
Desde que propuz a dita reforma Económica, esforcei-me em converter a 
minha vida publica em permanente vantagem da Nação. Náo reservei pa- 
ra mim' senáo a intima consciência da boa intenção ; e náo omitti trabalho 
algum em animar , disciplinar , e dirigir as habilidades do paiz para o ser- 
viço publico, e polias na melhor via de aliantarem, e ornarem os seus 
dotes. Professei a liberdade civil , como inseparável da ordem, virtude, 
moral , e religião ; mas náo a segui com hypocrisia , e fanatismo j certo 
de que, sendo tal liberdade a primeira das bemaventuranças j quando he re- 
tida nos justos limites , todavia , pela sua perversão , se pôde constituir a 
maior praga do Género Humano. Náq, procurei popularidade, e poder , 
Como he p alvo dos que se tem distinguido em propor huma liberdade if^ 
/acional, e indefinida, qual se proclama na França bàibmizdz* , 



(8i ) 
As minhas reformas económicas náo consistem na extlnçlo de huma 
pensão ,. ou de hum emprego de mais , ou de menos. A economia nos 
meus Manos he , como deve ser, secundaria, subordinada, e instrumen- 
ai Lu obro por Máximas de Estado. A Reforma vão he mudança tia sub- 
stanciadas cousas imas directa applicação do remédio aos gravames, de que 
ha justa qtietxa. Removido* aquel'es,\> mais vai seguro. * 

Reformar nao he tnnovar linha por linha. Os Revolucionários France- 
zes quc.x.irao-se de tudo , e nada reformarão: quizeráo mudar tudo, e as 
trum consequências de suas phantasias estão ante nós, e sobre nos. Elles 
abalarão a segurança publica; tolherão a paz, e o gozo das famílias ; aca- 
nharao o crescimento das creancas ; turbarão o descanço dos velhos ; fize- 
rao parar ao viajante na estrada; atropellaráo o 'lavrador no campo; inter- 
romperão os negoc.os da Cidade; o nosso descanço acabou-se ; os nossos 
prazeres destruirao-se ; os nossos estudos se empeçonharão, e perderão ; a 
sciencia tornou.se peior que a ignorância, pelos enormes mates da sua hor- 
rorosa e total innovaçáo. As obscenas harpyas à^ Revolução da Franç; 
surgirão da anarc 



rpyas da «.evolução 
do cáhos , que gerou tantas cousas monstruosas 



çí 



prodigiosas ; e voando sobre nossas cabeças' 



casas , € mezas , tuao man- 



Tristius haud iilis monstr 
Pestis, et ira Deum 



:ruTi , nec ssevior ulía 



. stygns sese exmlit undis. 
.\irgmei volucrum vultus , sxdissima ventris 
Froluvies uncecque manus, et paílida sem per 
Ora fame. M r 

meu PuJ 0Í a° T am °V mas ° ■* n oâl ° á '«"ovação, que produzia o 
£Lo ÍZ Reforma. .Sem me turbar com a exacçáo de diagramma lo- 

Irevenir fl S V — Í^T C ° m ° °PP 0sta& Elie fòi offerecido F ara 
lun % n «- S ^ bemfa26r 2 ° P° vo ' e nao inflammallo, e sedu- 

ÃeAnnL 5S arr ° ê ° ° merÍC ° dò bem P ositi ™, mas o da prevenção 
de desordens. Nao propuz novo modelo dí Casa dos Communs , e dos 

ter ro „ZZ TVu^ ^ 6 ^a Coroa, e do Ministério, nem ai- 
forSn Jl ™ ° S T, :! bl í naes > e ^ Administração. As minhas reformas 
™, m T 18 ' 6 nied,adoras - N *o concebi nada de arbitrário; não pro- 

ainda ,o Sa J gUma ' ^A S ? H ° UVeSSe de faZÊr ao P razer ^s outros , nem 
ainda ao meu prazer. Desde a aurora do meu entendimento, aborreci todas 
VJln^A ?P lnia ,° » in clinaçáo , e vontade arbitraria nos negócios do 
fui i ' r j e ahas SO , a soberana razão deve dictar o justo; visto que só 
O ít! fundan i ent0 de lodas a * formas de Legislação, e Administração.- 

íefo?n^oc° ^ Par3 c° fim de °PP° r a raza0 ao ca P' ich °> unto dos 
reformados , como dos reformadores. 

/k ,«5/!f P - e m u pr ,° puz pôr em caweIa ° P ovo contra o maior Je todos 
LZ A,' l T ' A hun ! C( í g0 > e f urioso ei P irit0 de inovação, debaixo do 
nome de reforma r. Ainda havendo cousas que ex:jáo reforma , náo he o 
próprio tempo delias, quando ha convulsões politicas, e desgraças nacio- 
r«fk;^ a sobrevg!11 terremoto, náo he então o momento mais bem es- 
fipirndo para acrescentar hum andar novo ás casas, e alinhar quarteirões. 



(82) 

Na minha Reforma Económica sustentei , que a Folha das Pensões 
devia ser sempre hum fundo sagrado, e aberto. Eu a- deixei intacta, como 
Principio Politico. Náb tive a ousadia de roubar á Naçáo todos os fundos 
applicados a remunerar o merecimento. Procurei só assignar o devido mar- 
co contra a disposição arbitraria. Náo vim ao Parlamento para estudar a li- 
ção: mas entrei logo preparado, e disciplinado para a guerra politica; e, 
desde o principio, achei necessário analysar os Interesses do Commercio , 
das Finanças, da Consumição , e dos Negócios Estrangeiros do Impsrio da 
Gram Bretanha. Muito fiz, e muito mais faria, se os suecessos do tempo 
melhor o permitissem. O vigor da minha idade , e constituição se abatèo sob 
o caréo do meu trabalho. Ò Parlamento foi testemunha dos seus efteitos , 
e se aproveitou , mais ou menos, de meus serviços em 28 annos. 

Náo tenho as qualidades, nem cultivei as artes, que recommendáo os 
homens ao lavor, e a protecção dos Grandes. Náo fiz jamais de valido 9 
e de instrumento servil de ninguém. Nada sei dessa espécie de commercio, 
que ganha corações do povo, fazendo imposturas sobre o seu. entendimen- 
to. A cada passo da "minha carreira da vida publica, encontrei huma can- 
cella e barreira, em que era preciso apresentar o meu passaporte, e sem- 
pre mostrar , que o meu único titulo, para íf adiante , era o ser utij ao 
meu paiz, dando provas de náo ignorar inteiramente suas Leb , e seus in- 
seresses dentro , e fora da Naçáo. Sem isso, nenhuma honra haveria para 
írum , e nem ainda tolerância da pessoa. 

Nunca invejei, nem obstes a gratificação dos méritos alheios. Sempre 
considerei, que a recompensa dos serviços públicos náo só era ornamen- 
to publico , mas também exacta justiça; e que a mesquinhez nesta parte 
era iniquidade , e a peiòr economia do mundo , pelas suas péssimas conse- 
quências. Por huma fria penúria na remuneração dos serviços crestáo-se- to- 
das as habilidades da Naçáo, eobsta-se á elasticidade de suas mais activas ener- 
gias , e o mal vai além de todo o calculo. Por isso náo impugnei jámaisas pen- 
sões , que se derão aos homens de talentos , e aos homens de serviços. 

Ordem, e Economia são cousas estáveis, e eternas, como todos os bons 
Princípios do Governo o devem ser. Certa particular ordem de cousas po- 
de ser alterada ; mas a ordem geral não perde o seu valor. As ordens par- 
ticulares sáo variáveis* como o tempo $ e as circunstancias. Leis de regula- 
mentos municipaes náo sáo leis fundamenraes. As urgências publicas sáo as 
dictadoras de-taes leis. Pertence julgar de sua propriedade aos que exercem 
O poder legislativo. 

Pôde o que vou affirmar ser cousa nova ao rreu Censor ; mas pe- 
ço licença para dizer-lhe, que mera parcinwnia não he economia. _ Despe- 
ga , e grande despeza , pôde ser parte essencial da verdadeira economia. Se 
mera parcimonia se devesse considerar como huma espécie de virtude, a 
verdadeira economia deveria sempre reputar-se outra, e mui ro_ mais alta 
virtude. A Economia he huma virtude distributiva, e consiste, não em pou- 
par 



mas em saber escolher os tempos e objectos da despeza. 



A parcimonia náo requer previdência, nem comparação, nem juízo* 
Nero instincto (e náo instincto do mais nobre género) pôde produzir na 
maior perfeição huma falsa economia. A outra economia tem yisfâs mai* 



(8 ? ) 

largas. El!a demanda hum juizo prudencial , que sabe distinguir valores , 
e hum espirito sagaz, e firme para sustentar as regras. Ella fecha a por- 
ta á importunidade impudente , e abre outra muito mais vasta ao mérito 
sem presumpção ; só recompensa o real talento, e o serviço relevante. Com 
esta economia, a nenhuma Nação faltarão os meios de remunerar todos os 
serviços, que se lhe prestarem, e animar rodos os talentos que produzir. 
Nenhum Estado , desde o estabelecimento da Sociedade , se empobreceo por 
esta espécie de profusão. Se em todos os tempos se tivesse observado a e- 
conomia de ordem e proporção , náo veríamos a desmarcada excrescência 
da riqueza do meu Censor opprimir a real industria da gente humilde, e 
limitar pelas suas mesquinhas idéas a justiça, a beneficência, ou (como 
for do seu agrado chamar) a caridade da Coroa. 

Pôde o meu Censor pensar quanto quizer baixamente dos meus méri- 
tos : tem a liberdade de fazello. Mas sempre haverá alguma differença de 
opinião no valor dos serviços políticos. Em mim ha hum merecimento , 
que ninguém entre os vivos porá jamais em questão. Tenho sustentado com 
grande zelo, e com algum gráo de successo , os princípios, que sustentão 
a pezada massa de nobreza, opulência, e títulos de quem me accusa , pre- 
venindo , que elles se nso confundissem , como a facção Franceza (em que 
elle achou tanta graça), muito pertendeo. Tenho estendido todos os meus 
aervos, para que esse Senhor, com os da sua Ordem , se mantenha na 
situação, em que somente me he superior, sustentando eu o que se pôde 
chamar preventiva policia da moralidade, com todas as máximas rígidas , 
e censórias dos antigos moralistas, bem recebidas com veneração pelo ve- 
lho , e severo Carão , e em que foráo doutrinados os Scípiões , e a No- 
breza Romana na flor da sua vida. Mas esses mestres, e discípulos, aca- 
barão com a revolução: só resta a vil, e illiberal Academia Franceza dos 
Sansculotes (sem calções) onde hum cavalheiro nada tem que aprender. 

O hórrido estado dos tempos, e náo a minha justificação, he o ob- 
jecto deste escrito: de mim' fallo por incidente. O meu Censor invoca a 
attençáo da Camará dos Pares , para accusar a Mercê da minha Pensão , 
que considera passar todos os limites. Parece que , quando meditava esta 
sua bem considerada censura, estava dormindo. Homero cabecèa , e o meu 
Censor sonha, e sonhos doirados, considerando também as Mercês da Co- • 
roa ao fundador da sua família. Na verdade estas foráo tão enormes, que 
náo só uittajào a verdadeira economia pubiiea, mas até lhe tirão a credi- 
bilidade. Elle he o Leviatbam entre rodas as çreaturas da Coroa. Tudo quan- 
to tem he da Coroa. Era porventura o mais próprio para conrestar-me a 
liberalidade do favor Real? 

Seria grosseira adulação , e a mais incívjl ironia, o dizer, que elle 
tem alguns próprios serviços públicos, pelos quaes alcançasse as suas vas- 
tas pensões lerriíoriaes. Os meus méritos, quaesquer que srjáo, sáo origi- 
naes , e pessoaes. Foi hum seu antepassado o primitivo Pensionario , que 
estabeleçeo esse fundo inexhaurivel de mérito, que ora o faz táo delicado, 
e cheio de contradictas, sobre o mérito das Doações da Coroa. Se me deixasse 
gear quieto, eu diria: que nos importa a historia* foi a fortuna do homem. 

Mas o mm Censor , auacando-me , íòrça-me*com repugnância a compa» 

L z 



;l 



I 



.s: 



(84) 

rar o meu pequeno mérito com o que lhe alcançou da Coroa esses prodí- 
gios de profusa Mercê, com que agora suppianta os indivíduos humildes, 
e laboriosos. Os Chrcnistas dos Brazces nso procuráo maior merecimento, 
que o constante do preambulo das Patentes, ou da inscripçáo das sepultu- 
ras. Elles iuloáo da capacidade do homem para Officios públicos , pelos 
empregos que oceupou :' nvis cfrlcios , mais habilidades. Mas esra não he 
a regra dos que escrevem pira a posteridade : nem esses sáo os documen- 
tos da historia politica das Nações, e das méritos transcendentes dos que 
tem firmado os Impérios , e contribuído á estabilidade da Sociedade Civil. 

O mérito do primordial Donatário da Coroa , donde o meu Censor 
deriva tanta força e opulência , foi o ser prompto , e ambicioso instrumen- 
to do Tyranno Henrique VIII. , que opprimio todas as ciasses do povo. 
O meu mérito consiste em ter resgatado da oppres^áo a todo o homem , 
e toda a classe de pessoas ; e particularmente em defender a Alta Nobre- 
za", que, no tempo dos Príncipes e demagogos confiscadores , sáo os mais 
expostos á animosidade , avareza , e inveja. Sustentei com incessante vigiu 
langia todos os justos direitos , e privilégios de todas as Ordens ào Estado* 
ema Sede do Império Britannico , em toda a Naçáo , em toda a terra, 
para defeza da Religião, e Ordem Civil. A minha arte tem sido , sob os 
auspícios de hum Soberano benévolo , promover o Commercio , as Manu- 
facturas, e a Agricultura do Reino , em que elle mesmo dá ornais eminen- 
te exemplo, mostrando-se Patriota ainda nos seus divertimentos, sendo nas 
horas do descanço o Lavrador de suas terras. 

O merecimento do Fundador da casa do meu Censor foi o de hum ca- 
valheiro , que se elevou por ardis á protecção do Ministro Folsey , e á 
eminência de hum grande , e poderoso Senhor , e cuja. habilidade só con- 
sistio em instigar o tyranuo para injustiças, e irritar o povo para a rehel- 
liáo. O meu merecimento foi excitar a parte mais sabia do paiz para se guar- 
dar contra qualquer poderoso Senhor, contra qualquer numero de podero- 
sos Senhores' , e contra qualquer conluio de grandes demagogos de toda a 
sorte, se acaso tentassem caminhar na mesma carreira , que os Franceses 
para perverterem a boa ordem , assulando o baixo povo para. a insurrei- 
ção, e tyrannia. . 

O merecimento politico do primeiro Penssonario da ramiua de Sua 5e- 
tihoria foi , que , sendo Conselheiro d'Estado , deo conselho , e concorreo 
á execução de huma paz deshonrosa de Inglaterra com França , entregan- 
do«lhe a fortaleza de Bolonha, que era o antemural do Continente, e, por 
esta entrega, também depois se rendeo Calais , a chave da França, e o 
freio da beca desta potencia. O meu merecimento tem sido o resistir ao 
poder 5 e orgulho da França, e empregar todos os meios de excitar o es- 
pirite do Parlamento , e do Povo , para continuarem com vigor , e reso- 
lução, na mais justa e necessária guerra, que jamais houve no mundo ^ a 
fim de salvar o meu paiz do férreo jugo dos Franeezss , e ainda do mais 
lerrivei contagio dos seus princípios , e preservar pura , e immaculada a 
amiga virtude, piedade, e o bom natural do Povo ínglez da mortífera pes- 
tilência , que, principiando na França, ameaça devastar o mundo moral, 
e até em alto grão , 9 mundo physieo. Procurei merecer em tudo isto ainr 



( 8*3 

teira approvação da consciência, e em consequência recebi livres, puWícái , 
e solemnes graças da Nação. Este merecimento puro, e novo, sahio acri- 
solado , e limpo da Casa da moeda da honra. 

He próprio de huma tal nobreza sem mancha ser o propagador de hum 
fundo de honra , ou a raiz delia. Assim glorio-me de poder também ser 
o fundador de huma famiHa ; pois deixo hum filho que se distingue nota- 
velmente sendo dotado de merecimento pessoal, e enriquecido de todas as 
prendas liberaes de génio , estudo , sciencia , erudição , gosto , honra , hu- 
manidade, e generosidade 5 e confio, que elle não se mostrara no serviço pu- 
blico inferior em cousa alguma ao meu Censor , ou a algum de sua pro- 
sápia. 

Prostradas como estão minhas forças, cordialmente me resigno, e re- 
conheço a Divina Justiça. Mas, quando me humilho diante de Deos , náo 
vejo, que seja prohibido íepeljir os ataques de hum homem inconsiderado, 
e injtuto. Passa em provérbio a paciência de Job. Depois de convulsivos 
movimentos cia indignação de nossa irritável natureza, ellesubmetteo-se a 
Providencia, e se arrependeo , fazendo penitencia no pó, e cinza ; mas nem 
por isso deixou de reprehender então mesmo com aspereza de palavras os 
amigos , que o íoráo insultar. _ ; ^ 

He phenomeno singular ver a hum dos maiores donatários da Coroa 
comparando odiosamente a Mercê da mesma Coroa com o mérito do defen- 
sor da sua Ordem. Quando as pessoas da maior nobreza perdem o decoro , 
perdt m tudo. 

Sem se fazer mui ca especulação sobre governos , e seguindo-se unica- 
mente o seguro in-mneto de sentimentos ingénuos , e os dicrames de hum 
entendimento cândido , e náo ofíuscado por sophismas , reconhece-se , que 
nenhum grande Estado pôde subsistir por muito tempo sem hum Corpo rle 
Nobreza, de qualquer sone que seja condecorado com honra, e fortifica- 
do por privilégios. Esta Nobreza- forma a cadeia, que liga as idades da Na- 
ção: do contrario, huma geração não teria vinculo com a outra. Nenhuma 
fabrica politica pôde- ser bem construída sem huma tal ordem de cousas , 
que pela serie dos tempos dê tacionavel esperança de segurar a unidade , 
coherencia , e firmeza do Estado. Nada pode tanto como o Corpo da No- 
breza para proteger o Estado contra a leveza dos Cortezãos , e ainda mais 
contra a maior leveza do vulgo. Elle náo existe para mal das outras or- 
dens, mas sim por ellas, e para elias. 

Pertender conservar huma Monarchia hereditária , sem também man- 
ter alguma cousa de reverencia hereditária ao Estado, foi conceito absurdo 
de espíritos baixos, que aspirarão a ser grandes velhacos, forjando em 1789 
a moeda falsa da Constituição Franceza. Todas as novas phantasticas Pve- 
publicas tem como indispensável extinguir a Nobreza julgando hum impos- 
sível reformalla. EUa porém pôde ser melhorada , corrigida , e completa. 
Do Corpo da Nobreza se pôde tirar membros indignos , e aggregar-ihe es- 
tranhos, que mereçáo alli entrar; mas nlo se poderá abolir. A cousa em 
si he matéria de opinião inveterada, e não pôde ser artefacto de instituição 
positiva. Nenhuma pessoa de virtude pôde olhar sem horror , e desprezo 
9 ímpio parricidio comíftetúdo sobre todos os seus avoengos ? e o desespe» 









5 .8* 5 

rado assalto para assassinar a toda a sua posteridade , como praticarão na 
França , os Orleans , Rochefocauts , Perigords , e outros Fidalgos da pri- 
meira nobreza , que desertarão da sua Ordem , como endemoninhados , pos- 
sessos de espirito de orgulho decahido , e de perversa ambição , e que tra- 
hírão as suas famiiias , e as mais sagradas confidencias das pessoas de pró- 
prio sangue, causando a si mesmos, a innumeravel gente, e á, sua Naçáo , 
as mais lastimosas desgraças, E pertenderáõ homens de táo detestável cara- 
cter , que depois lamentemos os seus infortúnios? Náo temos constituição 
para eompadecermo-nos ao mesmo tempo do oppressor, e do opprimido. 

O nosso paiz , e a nossa raça s em quanto, a compacta estructura dá 
nossa igreja e Estado, o Sanctuario da antiga Lei, defendida pela reveren- 
cia , e segura pelo poder , sendo igualmente huma fortaleza e hum templo 
(*), se mostrar inviolada no baluarte da Sião Britannica ; em quanto a 
àíonarehia Ingleza, limitada pelas ordens do Estado, exaltando-se em ma- 
gestosa proporção , for defendida com o dobrado cincso das suas torres \ 
nada terião a temer de todas as fouces dos nivelladores da França. Mas se 
a invasão do tumulto Gallico , com os seus sopbis ticos direitos do homem , 
e com as suas espadas para fazerem çontrapezo á balança , for introduzida 
na Cidade pelo povo iliudido, e instigado por grandes homens orgulhosos, 
elles mesmos cegos , e embriagados por ambição phantastica , e todos nós 
pereceremos , e seremos abysmados em ruina commum. Quando hum gran- 
de temporal eahe sobre as Costas , elie arroja á praia náo menos as ba- 
Jeas, que os mariscos. Então os que cavilláo sobre a minha pensão, náo 
sobreviverão também a este pobre pensionado da Coroa, a quem despre- 
Zão. 

Se o meu nobre detractor pertende fazer proselytos , olhe bem pára 
o caracter da Seita, cuja doutrina he convidado a abraçar. Ingratidão aos 
bemfeitores he a primeira das virtudes revolucionarias. Elía he o compendio 
de suas quatro virtudes cardeaes , amalgamadas , e concentradas em huma 
só. Os seus Secretários, observando a sua ingratidão á Coroa, que creou a 
sua familia , allegaraó também igualdade de direito e dever , para lhe pa- 
garem na mesma espécie , e depois rir-se-hão de seus sellos , e pergami- 
nhos. Além de que todo o dever do homem em tal Seita consiste em des~ 
traição. 

Na Revolução Franceza tudo he novo ; e , por faítá de preparação 
dos meios próprios pari se poder sahir de encontro á táo impevisto mal , 
tudo nella he perigoso. Em nenhum tempo jamais se vio huma multidão- 
de homens literários , transformados em companhia de ladrões, e assassinos 
tomarem o porte 8 e tom de Academia de pbilosophos , sendo formidáveis 
como inimigos, e medonhos como amigos. Antes paredão mansos, e ainda 
carinhosos : e nada tinháo mais na boca que a doce humanidade. Elles náo 
podiáo supportar o castigo das mais brandas leis contra os maiores malva- 
dos. A mais leve severidade da Justiça fazia arripiar-lhes as carnes. A me- 
nor idéa de existir guerra no mundo , turbava o seu repouso. Para elles , 



(*) Tcmplum in modum areis: assim se explica Tácito, fallando do templo d* 
Jerusalém. 



(8 7 ) 
gloria militar não era inaistinctamente , mais que esplendida infâmia. Ou- 
vindo fallar sobre a necessidade da defeza natural para se resistir ao ag- 
gressor , logo a reduzirão a taes limites, que náo deixarão aos accommetti- 
dos defeza alguma. Com tudo vimos o que aconreceo , e quantas pessoas 
soffrêráo pela cannibal philosophia da França, sua sciencia experimental , e 
extensa analyse em todos os ramos civis , e políticos. 

Sem ter consideráveis pertençóes de literatura, todavia aspirei ao amor 
das letras. Os homens de conhecimentos , e talentos são os principaes dons 5 
que a Providencia dá ao mundo. Mas, logo que elles hnç;o fora de si o 
medo de Deos , e dos homens , mais horrível calamidade náo pôde vir á 
Terra , quando podem obrar em corpo. Náo ha coração mais duro do que 
o de hum Methaphysieo athêo : elle opproxima-se á malignidade dos mãos 
espíritos, e se assemelha ao principio do mal', sem mistura de algum bem» 
Náo he fácil arrancar do peito humano , o que Shakespeare chama compun- 
ções vhhadoras da natureza : estas batem algumas vezes aos corações dos 
malvados, e protestáo contra as suas especulações rnortiferag. Mas os sá- 
bios da Nação Franceza tem os meios de se comporem com a própria na- 
tureza , nem vem o seu projectado bem senão pelo caminho do mal. A sua 
imaginação náo se fatiga com a, idéa dos sofirímentos humanos , ainda por 
séculos de miséria e desolação. A sua humanidade está no seu horizonte 5 
e, á semelhança do horizonte, ells sempre foge diante delles. ■ 

Os seus geómetras , e chimicos são ainda peiores que indiíferentes a res- 
peito dos sentimentos, e hábitos, que sustentáo o mundo moral. Os seus. 
phiíosophos , infamados com ambição , e náo receando perigos , só còrtsufè- 
ráo os homens como os animaes, que se raettern no recipiente da machina 
pneumática, donde se faz sahir o ar mephyrico. As terras dos grandes pro- 
prietários sáo irresistíveis convites para huma experiência agraria : a sua 
posse immemorial lhes parece insulto contra os direitos do homem. Atégora 
consideraváo as grandes herdades territoriaes de Inglaterra como totalmente 
improduetivas , e pata nada servindo senáo para engordar touros , e pro- 
duzir grãos, para cerveja, e ainda mais para fazer estúpido o bronco enten- 
dimento Ingíez. Agora já a demarcáo para os seus benefícios revolucioná- 
rios. 

O Abbade Sieyes tem na sua Carteira ninhos, como de pombos, cheios 
de Constituições para todos os paizes , já promptas , selladas , sortidas , 
numeradas , e accommodadas a roda estação e phanrasia. Humas sáo distin- 
ctas pela sua simplicidade , e outras pela sua complicação ; varias , sáo de 
cor de sangue, e algumas de cor de lama de Pariz ; humas tem Conse- 
lhos de velhos, e Conselhos de moços, e certas náo tem Conselho aígum ; 
algumas , em que os Eleitores escolhem os representantes , e outras , em que 
os representantes escolhem os Eleitores ; humas , em que os Legisladores 
tem hábitos talares, e outras, vestidos curtos. &c. &c. Assim nenhum es- 
peculador em Constituições deixará de achar naquella officina huma, que 
lhe accommode, com tanto que ame o padrão de todas elías, adoptando rapi- 
na, oppressáo, prisão arbitraria , juizo revolucionário, confisco, desterro , 
premeditado assassinato feito com formas de lei. Elles tem achado a arre de 
sxtrahir nitro a paia fazer pólvora , até das ruínas ? que íizeiáo das propne- 



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dades, (*) e Cidades, â fim de fazerem outras minas , e assim áo ínfi- 

O meu detractor accusa-me de ser o author da guerra. &e eu tivesse 
hum espirito orgulhoso , para arrogar-me esta alta distinção , ( eomo por 
justiça o náo posso), elle arrancaria da minha mão a sua parte, que nisso 
teve , e a agarraria com a força da convulsão do moribundo , até dar o 
ultimo suspiro. Seria em mim a mais arrogante presumpçáo attribuir-me a 
gloria do que pertence a Sua Magestade, e a seus Ministros, a seu Parla- 



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mento , e á grande maioridade de seu fiel Povo, Se eu fosse o único em 
tal conselho, e todos me seguissem com fé impíicica , entso se poderia di- 
zer, que eu tinha sido o único author da guerra ; porém nesse caso a guer- 
ra seria segundo as minhas idéas , e os meus princípios. O meu crime con- 
siste unicamente em desejar a guerra contra regicidas : mas nunca serei ac- 
cusado , nem ainda o mais levemente , de ser o author da paz regicida. 

(*) Ne •-'• o feito no l.° de Fevereiro de 1794 perante a chamada in- 
venção Nacional lê se o seguinte : „ até o presente as cousas não tem sido explora- 
das devidamente , e de maneira revolucionaria. Os Castellos e Fortalezas feudaes , de- 
molidos pelas vossas ordens , attrahirâo a attençâo dos vossos delagados. A natureza 
ahi tem secretamente revindicado os seus direitos produzindo salitre , como de pro- 
pósito , para facilitar a execução do vosso decreto , preparando os meios de destrui- 
ção. Destas ruinas temos extraído os meios de produzir obem, para esmagar trai- 
dores , e abysmu descontentes. As Cidades rebeldes tem dado larga quantidade d© 
salitre, etc. n 



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